Os moradores do Bairro Três Moinhos, Zona Leste de Juiz de Fora, fizeram um protesto na tarde desta quinta-feira (23), que começou na Rua João Luzia – onde até hoje o chão afunda ao pisar – e desceu pelas ruas Manoel Clemente, Vicente de Paula, Natalino Andrade Guerra, concentrando na Diva Garcia até o final, causando interrupções no trânsito.
Com diversas faixas, apitos e buzinas, os moradores levavam apelos como: “a chuva chegou, o bairro interditou, e a Prefeitura nos abandonou”, “se fosse com eles, já teria solução?”, “apoio financeiro já. Reunião não paga aluguel e nem mata a fome”, “a chuva levou o teto, o governo levou a esperança. Queremos moradia”.
Havia quem pedisse também por um cadastro só para as pessoas do bairro e até mesmo uma mensagem sobre uma promessa do presidente: “Lula veio aqui e falou que não ia faltar casa pra ninguém, está faltando para todos”. Os gritos que mais ecoavam, a todo momento, eram de “ida ida ida, cadê a Margarida?”.
A Tribuna acompanhou cerca de uma hora do protesto, que estava marcado para durar até por volta das 18h, e conversou com moradores, muitos nascidos e criados no bairro. As reclamações giram em torno de não saberem o que devem fazer para obter os auxílios anunciados para os atingidos pelas chuvas. Algumas pessoas seguem morando no bairro, mesmo sem água – cortada para forçar a desocupação – e sem energia elétrica.
Um dos organizadores do protesto, Thiago Frutuoso, vidraceiro de 41 anos, nascido e criado no bairro, morador da Rua João Luzia, explica que, sem parar um pouco o trânsito, não tem como chamar a atenção. “Quando dá uma fila de carros, a gente libera porque não pode atrasar a vida da pessoa que não tem nada a ver com isso”, diz.
“Segundo a Cidinha (Louzada, secretária de Desenvolvimento Urbano com Participação Popular), o bairro inteiro vai ser demolido”, afirma ele, que esteve presente em reuniões com o poder público como representante do bairro, “ela falou que muito do que foi analisado foi através do drone”.
A principal reivindicação dos moradores é por uma segunda avaliação da condição das moradias. “A gente não é técnico”, admite, “mas algumas regiões podem haver algumas obras, e isso ajudar o pessoal a voltar para casa”. Outra questão é não saberem quais são os critérios que fazem determinadas pessoas terem auxílios aprovados e outras não. Eles também querem um respaldo da Prefeitura de que, se o bairro for demolido, todas as famílias receberão ajuda para conseguir outro imóvel.
Segundo Thiago, “se 15 famílias foram contempladas com o aluguel social foi muito”, em um bairro com mais de 200 famílias. “Nosso medo é, na Compra Assistida, dez pessoas serem contempladas”.
Ele afirma, ainda, que “nem a coragem de vir aqui e falar com a população, eles tiveram”, assim, os representantes do bairro ouvem as informações e repassam para os demais moradores. Por conta disso, alguns chegam a pensar que foram eles mesmos quem “condenaram o bairro”.
Amiliene Camile, 22 anos, conta que mora com a família de mais quatro pessoas e não pôde sair do bairro, porque não receberam nenhum auxílio, não têm parentes na cidade e trabalham com reciclagem. O escadão que dava acesso à casa – oficialmente demarcada na Rua Maria Florício dos Santos – caiu e derrubou postes, que não foram consertados. Eles tiveram que refazer o caminho com as próprias mãos e estão sem energia elétrica e sem água. Por pegar água da mina, teve hepatite e ficou mais de duas semanas internada.
“Não é uma situação legal sair, andar na rua e saber que você não tem a dignidade de ter pelo menos uma luz, uma água. A gente fica usando vela, já me queimei porque caiu no colchão”, relata acrescentando ser uma “luta sem fim”.
Quem também permanece no bairro e pega água da mina há dois meses é Deise Leal, 48 anos, moradora da rua Natalino Andrade Guerra – mas que, nos sistemas da Prefeitura, consta como Diva Garcia. “Não é fácil, mas a gente tem que sobreviver. No momento, eu estou desempregada e nenhum auxílio caiu na minha conta, só fica ‘em análise’.”
O esposo também está desempregado, mas está fazendo bicos em Três Rios, no estado do Rio. Sozinha na casa, conta que até tem medo do risco estrutural, “mas fazer o quê?”, questiona. “Não tem para onde ir, então no momento tem que ficar. Quando tiver um meio de poder mudar ou uma ajuda, eu mudo”. Ela conhece outras pessoas na mesma situação.
O protesto foi apoiado por quem precisava aguardar a liberação da via. Felipe Batista, analista de sistemas, afirmou, de dentro do carro, que acha válida a manifestação “porque o tempo está passando, as pessoas não podem voltar para suas casas, e aí estão fazendo outras coisas na cidade e o direito deles acaba sendo negado”.
Bruno da Silva Rocha, 35, metalúrgico, conta que, para a confecção dos cartazes, cada um deu o que podia. Acredita que tenham tirado do próprio bolso cerca de R$ 1.800 para serem vistos. “E a Prefeitura não está nem aí para nós, o bairro está esquecido, como sempre foi”.
‘Demandas serão acolhidas e analisadas’, afirma PJF
Em nota enviada à Tribuna na noite desta quinta-feira, a PJF declarou que “afirma publicamente seu compromisso com o respeito ao direito democrático de manifestação da população”. Sobre os questionamentos dos moradores do Bairro Três Moinhos, informou que “as demandas apresentadas serão acolhidas e analisadas com atenção, sendo devidamente encaminhadas, ponto a ponto”.

