
A conhecida Curva do Lacet, oficialmente chamada de Praça José Gattás Bara, pode ser avistada por quem passa pela Avenida Itamar Franco, na altura do Bairro Cascatinha, Zona Sul de Juiz de Fora. Atualmente, a área é um gramado vazio que, conforme relatos ouvidos pela Tribuna e também constatado pela reportagem, apresenta problemas relacionados à infraestrutura e à segurança. Um dos exemplos é a falta de um local adequado de travessia, além de alagamentos constantes no túnel de acesso a um shopping no local.
Mas o que hoje é um espaço inutilizado já foi um ambiente de lazer, convivência e sociabilidade para os moradores da região. A transformação do local ocorreu em meio à expansão urbana da Zona Sul e à retirada de um antigo campo de futebol, autorizada por lei municipal em 2006. A mesma legislação previa a implantação de uma praça pública, que, duas décadas depois, ainda não saiu do papel.
Diante dos problemas atuais, a Tribuna buscou compreender de quem é a responsabilidade pela manutenção e requalificação do espaço e recuperou, a partir de relatos de moradores e especialistas, a história de um local que permanece na memória afetiva da comunidade do Dom Bosco.
Problemas de infraestrutura desafiam futuro da Curva do Lacet
Além de permanecer sem a praça pública prevista em lei, a Curva do Lacet apresenta problemas que afetam a circulação, a segurança e a utilização do espaço pela população. Atualmente, o local registra acúmulo de lixo e histórico de assaltos, além de apresentar problemas nas condições de circulação dos pedestres e abrigar pessoas em situação de rua. Para a professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFJF e líder do grupo de pesquisa Laboratório de Estudos Urbanos, Políticas Públicas e Práticas Insurgentes, Raquel von Randow, a presença de pessoas em situação de rua não deve ser tratada como um problema a ser criminalizado, mas como um sinal da ausência de políticas públicas efetivas de moradia e assistência social.
Um dos problemas de mobilidade está no túnel de acesso ao shopping no local, que sofre com alagamentos recorrentes. Em dias de chuva, a água bloqueia a passagem subterrânea, que fica intransitável. Como não há alternativas seguras de travessia nas proximidades do local, muitos acabam atravessando em trechos sem faixa de pedestres ou semáforos.
Para Raquel, a situação do túnel é um exemplo de “privatização do espaço público”, onde “a área foi requalificada para favorecer o acesso de veículos e a visibilidade do shopping, em detrimento de uma travessia segura e do lazer da comunidade”.
Além dos problemas de infraestrutura, o coordenador do projeto Museu de Território Dom Bosco, professor Edwaldo Sérgio, avalia que a Curva do Lacet perdeu sua função social. Segundo o professor, o espaço funciona apenas como um trecho de passagem, sem gerar benefícios explícitos para a sociedade.
Segundo Raquel, “um espaço público que cumpre sua função social é aquele que é acessível, democrático, acolhedor, seguro e apropriado pela comunidade para usos diversos […]. O Lacet não é mais um espaço de lazer da comunidade, ele é um resíduo urbano que serve à fluidez do tráfego e à visibilidade do shopping”.
Edwaldo explica que a simples passagem pelo local não cria o mesmo vínculo afetivo que existia quando a Curva era utilizada para a sociabilidade, esporte, lazer e convivência. Na época do campo, os moradores também se sentiam responsáveis pela conservação, cuidado e manutenção do espaço. O professor cita como exemplo uma fotografia antiga acessada pelo projeto Museu de Território, em que várias pessoas aparecem usando rodos para retirar a água acumulada no campo.
Na avaliação do professor, a perda dessa relação especial, simbólica e de cuidado em relação àquele espaço afasta a própria sociedade civil das discussões sobre o futuro da área, que fica sujeita a outros usos. Apesar do surgimento de novos empreendimentos na região, ele considera que não há um debate contínuo sobre possíveis intervenções na Curva do Lacet. As ações realizadas até agora, segundo ele, são pontuais e não resolvem os problemas de forma definitiva. “Você vai ali, desocupa, encaminha as pessoas em situação de rua para abrigos, eventualmente capina, mas você não tem um debate sério para pensar usos possíveis naquele espaço.”
Apesar de a gestão da Curva do Lacet ser responsabilidade da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF), Edwaldo acredita que o espaço guarda uma relação com o Independência Shopping, ao se pensar nos usos daquela paisagem. Por isso, o professor defende que os empreendimentos instalados na região poderiam participar de intervenções no espaço por meio de parcerias público-privadas, especialmente diante da escassez de recursos municipais. Na avaliação do professor, uma intervenção dialogada com os moradores e com o Poder Público seria interessante para esses empreendimentos nos termos de responsabilidade social. Ele considera que os problemas atuais registrados na Curva do Lacet colocam em prova o projeto urbano consolidado na região a partir de 2006.
O professor defende a criação de um canal permanente de diálogo entre a Prefeitura e os moradores. Para ele, a participação popular ainda ocorre de forma pontual, geralmente quando o poder público precisa comunicar alguma decisão, sem que haja uma conversa contínua sobre as necessidades do bairro.
Ele acredita ainda que as intervenções previstas para a Curva do Lacet poderiam ser discussões levantadas e refletidas pelo projeto Periferia Viva, programa do Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), que tem como foco a transformação social e urbana do Dom Bosco.
Raquel também destaca que a requalificação do espaço precisa ser feita com a comunidade e para a comunidade, e que “a não implementação da praça não é um acidente, mas uma escolha política que priorizou os interesses do mercado em detrimento do direito à cidade”.
Em relação aos problemas de mobilidade e travessia nas proximidades da Curva do Lacet, a professora defende que o sistema viário da região seja repensado para priorizar os pedestres. Para a professora, a responsabilidade pelas intervenções deve ser compartilhada entre a Prefeitura e o Independência Shopping, já que o empreendimento foi um dos principais beneficiários da requalificação da área e possui obrigações previstas na Operação Urbana que viabilizou sua instalação.
O que dizem Prefeitura e shopping
Procurada, a PJF afirmou que “realiza, por meio do programa Boniteza, ações de zeladoria na Curva do Lacet, incluindo serviços de limpeza e roçada”. Em relação ao túnel, a PJF disse que sua manutenção é de responsabilidade do Independência Shopping e que a Administração municipal mantém diálogo com o empreendimento para o encaminhamento de questões estruturais.
Em nota à Tribuna, o Independência Shopping afirmou que o túnel foi implantado para atender uma demanda do empreendimento e que recentemente, o equipamento foi pintado, passou por troca de iluminação e tem sido fechado à noite para garantir a limpeza e conservação. O shopping também disse que faz um paliativo para drenagem e contenção do barro para amenizar o problema dos alagamentos até a solução definitiva da PJF.
Ainda de acordo com o empreendimento, está em andamento uma tratativa com a Prefeitura para a formalização de um acordo, que estabelecerá as responsabilidades de cada parte.
Segundo a nota, “o shopping avalia positivamente iniciativas que promovam a qualificação e melhor utilização da Curva do Lacet. A implantação de equipamentos de lazer pode agregar à região, ampliar as possibilidades de uso do espaço pela população e contribuir para a valorização do entorno”.
Praça prevista em lei há 20 anos nunca saiu do papel
Embora o Independência Shopping tenha sinalizado positivamente à possibilidade de requalificação da Curva do Lacet, a implantação de uma praça pública no local já estava prevista na legislação municipal desde 2006. O Artigo 2º da Lei Municipal 11.235/2006 autorizava, na Curva do Lacet, “a implantação, pelo Poder Executivo Municipal, de praça pública, urbanizada, arborizada e com local para realização de eventos públicos, para a prática de atividades físicas, de lazer infantil e dotada de quadra poliesportiva, compatibilizando-a com a ampliação do sistema viário local”.
Ao longo dessas duas décadas, surgiram diversas tentativas de requalificação do local, mas nenhuma proposta se concretizou.
Em julho de 2016, matéria da Tribuna noticiou um abaixo-assinado virtual promovido pelo Movimento Popular Urbanista MaisJF, que reivindicava a reconstrução de uma praça pública na Curva do Lacet. Na época, existiam duas emendas parlamentares, do deputado Júlio Delgado (PSB), totalizando cerca de R$ 500 mil para as obras no local.
A mobilização do MaisJF havia começado em 2013. Na época, a Empresa Municipal de Pavimentação e Urbanidades (Empav) chegou a apresentar um projeto para o local, mas sem contemplar a construção de uma quadra poliesportiva, elemento previsto na Lei de Transferência do campo e uma das principais demandas dos moradores. Diante disso, um projeto participativo entre o MaisJF e a Casa Fora do Eixo aplicou questionários aos moradores dos bairros Dom Bosco, Cascatinha e Teixeiras para identificar as necessidades da população.
Com base nas respostas, foi elaborado um projeto que foi apresentado à Prefeitura de Juiz de Fora e passou por ajustes técnicos em conjunto com a Empav para adequação ao orçamento.
Porém, conforme apuração da Tribuna à época, a Caixa Econômica Federal apontou pendências na documentação necessária para liberar os recursos e solicitou adequações relacionadas à segurança viária no entorno. A Prefeitura informou, na ocasião, que preparava documentação complementar para atender às exigências.
Dez anos depois, a Curva do Lacet permanece sem intervenções. Para o músico e um dos líderes comunitários do Dom Bosco, Edmar Cassimiro, essa situação provocou nos moradores um sentimento de descrédito em relação ao Poder Público. O líder comunitário revela que, até mesmo as emendas que foram destinadas às obras não levavam em consideração as demandas da comunidade. Ele deu o exemplo de uma pista de skate cuja construção chegou a ser cogitada, apesar da prática desse esporte não fazer parte da tradição dos moradores do Dom Bosco. “Uma coisa totalmente deturpada do que é o perfil da comunidade, do que a nossa cultura”, conclui o líder comunitário.
A manicure e moradora do Dom Bosco, Mariana Aparecida, avalia que a comunidade não tem mais voz sobre a situação da Curva do Lacet. “Nunca teve esse canal entre a comunidade e a Prefeitura (…). E aí os projetos foram só falados. Não teve nenhuma movimentação, realmente, pra poder tentar fazer algo por aquele local ali.”
A PJF foi questionada pela Tribuna sobre os motivos que impediram a implementação da praça prevista em Lei na Curva do Lacet, mas não se posicionou sobre esta questão até a publicação desta matéria.
De campo de futebol a gramado vazio: a transformação da Curva do Lacet
Antes de se tornar um gramado vazio e de acumular tentativas frustradas de revitalização, a Curva do Lacet era um importante espaço de lazer e convivência para os moradores do Dom Bosco. A partir de 1980, o local passou a ter um campo, onde aconteciam partidas de futebol e práticas de lazer. Edmar Cassimiro conta que o campo de várzea era considerado um dos melhores campos de terra batida da cidade, por ser plano e quase não apresentar buracos.
Mariana Aparecida recorda os domingos em que acompanhava o pai durante os jogos. Ela conta que, nesses dias, o campo ficava cheio e era um momento em que as crianças da comunidade brincavam nos equipamentos que existiam no local, seguras com a presença de seus pais. “As pessoas vinham dos bairros próximos, porque, geralmente, as crianças mais carentes não tinham aqui por perto uma área para poder brincar”, relembra.
Mas a utilização da Curva do Lacet pelos moradores do Dom Bosco era dotada de significados que iam além do esporte. Edmar exemplifica isso ao contar que havia uma preparação durante a semana para a realização dos campeonatos de futebol. “As equipes de esporte preparavam o uniforme que era lavado, o uniforme que era passado (…). Havia o processo de organização de uma equipe, de coletivo, de juntar as famílias, planejar como esse futebol ia acontecer. Não era só um lugar que a gente ia, andava e ia embora.”
O professor Edwaldo Sérgio defende que a Curva do Lacet representava uma relação de afeto dos moradores do Dom Bosco em relação à vivência daquele ambiente. Segundo ele, a região era um espaço de sociabilidade, onde o esporte não era o objetivo final, mas sim, um meio de convivência entre diferentes gêneros e faixas etárias — por exemplo, as crianças que iam ver os pais jogarem e os familiares que acompanhavam enquanto torcida. Frente à escassez de espaços de lazer à época, como dito por Mariana, a região se tornou uma válvula de escape.
Edwaldo conta que, durante as oficinas do projeto Museu de Território Dom Bosco, identificou, junto aos moradores, que aquele era um espaço público de comunhão, onde as pessoas do bairro se encontravam para contar e trocar notícias, novidades da semana e informações.
No entanto, em 2006, a Lei Municipal nº 11.235, de 16 de outubro daquele ano, autorizou a retirada do campo da Curva do Lacet e sua transferência para outro espaço público. A mudança ocorreu em meio à transformação urbana da região, que passava a receber novos empreendimentos imobiliários, hotéis e prédios comerciais — entre eles o Independência Shopping.
O campo foi, então, transferido para a região do Dom Orione, no Bairro Aeroporto, nas proximidades do Estádio Municipal Radialista Mário Helênio, na Cidade Alta de Juiz de Fora.
Embora a legislação também previsse a implantação de uma praça pública no local, a retirada do campo não foi acompanhada da criação de um novo espaço de lazer na Curva do Lacet.
Apesar de ter sido autorizada por lei municipal, a retirada do campo é lembrada pelos moradores do Dom Bosco como uma ação que ignorou a história, a cultura e o esporte que foi desenvolvido pela comunidade naquele espaço.
Para Edmar, a retirada do campo da Curva do Lacet foi uma das diversas perdas que o bairro sofreu através da expansão territorial da Zona Sul. Enquanto a região se transformava para receber grandes empreendimentos, o Dom Bosco perdia um espaço de interação e convívio, onde os moradores se reuniam, fortaleciam vínculos e construíam memórias.
Os relatos também revelam que a população não participou ativamente da decisão sobre a mudança, representando uma determinação que aconteceu sem diálogo com quem seria diretamente afetado por ela.
Mariana se lembra de ter ouvido que o campo seria removido para a construção de um shopping, mas não se recorda de ter havido um aviso antecipado ou comunicado aos moradores, os quais ficaram muito mexidos com a remoção.
Edmar também descreve a retirada do campo como um processo de “urbanicídio”, termo usado por especialistas para descrever a destruição deliberada ou o “assassinato” de um espaço urbano de convivência. O líder comunitário afirma ainda que a comunidade jamais aceitaria perder aquele espaço espontaneamente.
“Aquele espaço fazia parte da nossa história, da nossa cultura, do nosso esporte. E aí quando chega um empreendimento de grande porte, como esses que têm para a nossa área, com um poder econômico que chega sem consulta à comunidade, ele faz essa violência estrutural. (…) Uma violência que faz essa covardia com a comunidade, que retira um espaço de história, de lazer, de convivência, e apaga-se essa memória.”
Para Raquel von Randow, a remoção do campo da Curva do Lacet significou mais do que a subtração de uma área de futebol. Para ela, a retirada representou a perda de um importante referencial de identidade para os moradores do Dom Bosco.
Raquel interpreta a mudança como um processo que buscava dificultar a presença de pessoas consideradas “indesejadas” naquele espaço. “Se trata de uma estratégia de produção do espaço que visa valorizar uma área específica para um público específico, expulsando os usos e as pessoas que não se enquadram naquele novo padrão”, analisa a professora.
Já Edwaldo acredita que essa ação fazia parte de um projeto de cidade, em que o processo de exclusão acontece de forma sutil, justificado por uma estratégia de requalificação urbana que entende o entorno do Estrela Sul e Cascatinha como um espaço de expansão e enobrecimento. “Quando a gente fala dessas dinâmicas de requalificação urbana, é preciso reconhecer que, muitas vezes, são processos autoritários, que não perpassam uma construção coletiva, uma consulta dos diferentes entes da comunidade. E fica parecendo que, muitas vezes, é só reorganizar, transferir, dotar de novos equipamentos. Mas, na verdade, os gestores, em geral, nesse projeto de cidade, eles desconhecem a dinâmica tradicional de uso do espaço.”
Novo campo não substituiu as memórias construídas na Curva do Lacet
A transferência do campo para o Bairro Aeroporto, no entanto, não significou a reconstrução dos vínculos que os moradores do Dom Bosco mantinham com a Curva do Lacet. A memória afetiva da comunidade permanece até hoje associada ao antigo espaço. Na avaliação de Edmar, a construção de um novo espaço, distante do Dom Bosco, seria incapaz de substituir o que foi conquistado durante anos no antigo campo, como a convivência, os torneios e a luta para construir um espaço coletivo de socialização.
Ele também declara que o campo do Aeroporto não possui uma infraestrutura adequada para atender os jogadores, e os moradores do Dom Bosco já não utilizam mais o novo espaço. Segundo ele, a comunidade não se sente pertencente ao local e os sentidos sociais que permeavam o antigo campo se perderam na nova área.
Na explicação de Edwaldo, enquanto o campo estava situado na Curva do Lacet, os moradores conseguiam identificar aquela área como pertencente ao Dom Bosco, naturalizando a sensação de que o campo também era deles. Quando ele foi retirado do raio de vista, esse sentimento de pertencimento diminuiu e provocou uma cisão nos momentos de convivência social.
Mariana concorda ao dizer que não houve nenhum outro local que reunisse as famílias no domingo ou algum outro espaço que pudesse substituir o que a Curva do Lacet representava para os moradores. “Ali cria na gente uma memória afetiva mesmo. Hoje eu tenho dois filhos aqui e eu me lembro de todo domingo estar ali na curva do Lacet com meu pai.”
Para a manicure, o espaço deveria ser preservado para as próximas gerações; mas hoje as crianças não têm uma área aberta para brincarem, se distraírem e se divertirem, a não ser a rua de casa.
Raquel também acrescenta que a retirada do campo gerou um sentimento de topofobia, ou seja, a aversão à nova organização do espaço, e um luto coletivo pela perda de um “pedaço dos moradores”. A comunidade deixou de se reconhecer naquele lugar, que passou a funcionar como uma extensão do shopping, e não mais como parte do bairro.
Duas décadas após a retirada do campo, a Curva do Lacet permanece sem a praça pública prevista em lei e sem recuperar a função de lazer e convivência que marcou sua história. Enquanto o espaço segue marcado por problemas de infraestrutura e segurança, as memórias dos moradores do Dom Bosco evidenciam o contraste entre os usos que a comunidade construiu naquele território e a realidade atual da região.
*Estagiária sob supervisão da editora Carolina Leonel
