
A dona de casa Elaine Assis usa a máquina para guardar água usada para lavar louça
Hélio Firmino estoca água em galões para lavagem de talheres e pratos de sua padaria
Em média, 15,3 bilhões de litros de água potável são perdidos todos os anos em Juiz de Fora. Os dados, divulgados pela Cesama, são referentes ao ano passado e correspondem a 34% de toda a água disponibilizada anualmente pela companhia, cerca de 45,1 bilhões de litros. Segundo o engenheiro e assessor de planejamento da companhia, Mario de Araújo Filho, “essa perda pode ser física, como é o caso dos vazamentos ocultos nas redes do sistema de distribuição, ou comercial, que não necessariamente é uma água perdida, e sim não computada. Neste caso, estão as ligações clandestinas, hidrômetros com problema e água que foi distribuída por caminhões-pipa”, explica.
Em 2012, o índice de perda era de 29% na cidade. O aumento de 5% chamou a atenção da Cesama mas, segundo Mario, pode ter sido causado por erros de aferição dos novos macromedidores instalados na cidade. “Não houve crescimento no consumo e nem na distribuição de água para acontecer esse aumento. Estamos investigando e checando os dados.”
Estudo de 2013 da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (Abes) aponta que a situação no país é problemática, já que a média brasileira de perda de água é de aproximadamente 40%. Em algumas empresas de saneamento, esses índices superam os 60%. O patamar elevado contribui para a redução do faturamento das companhias e, consequentemente, da capacidade de investir e obter financiamentos. Além disso, o problema ocasiona danos ambientais, na medida em que obriga as empresas a buscarem novos mananciais.
Além de tudo que é perdido, existe ainda o desperdício de água. Ou seja, depois que o produto chega até o consumidor final, a falta de conscientização provoca ainda mais perda. “Não temos como atuar dentro da casa das pessoas, pedindo que não desperdicem, que não tomem banhos demorados ou que não lavem as calçadas. Por isso, atuamos com campanhas e palestras de educação ambiental. Mas, diante de todo o cenário de escassez, temos notado um controle maior das pessoas, recebemos denúncias de uso indevido e o comportamento tem melhorado.”
Calçadas
A Câmara Municipal aprovou, na segunda-feira, o projeto de lei do vereador Antônio Aguiar (PMDB), que estabelece multa para quem utilizar mangueiras com água tratada para limpar calçadas, fachadas públicas, comerciais ou residenciais em períodos de escassez de água.
A legislação depende agora da sanção do prefeito Bruno Siqueira (PMDB). O vereador informou que, diante da gravidade do quadro em Juiz de Fora, enviaria um ofício sugerindo a adoção imediata das restrições. Ontem a assessoria da Cesama informou que a companhia ainda não tinha sido comunicada sobre o ofício e aguardava para se pronunciar.
Temperatura despenca
Os termômetros despencaram mais de 18 graus em Juiz de Fora nos últimos dias. A temperatura máxima caiu de 36,6 graus no domingo – segunda maior da história da cidade – para 18,5 graus ontem. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a previsão para hoje é de céu parcialmente nublado com possibilidade de chuva isolada. As temperaturas devem variar entre 15 graus e 20 graus.
Usuários driblam a escassez
A adoção de medidas para economizar água já é rotina em algumas casas e estabelecimentos da cidade. Há cerca de um mês, Aline Costa, proprietária de um restaurante e lanchonete no Bairro Vivendas da Serra, região Nordeste, implantou hábitos mais sustentáveis para poupar a água e o bolso. “A preocupação veio antes mesmo de o bairro ser inserido no rodízio, afinal, dependo da água para trabalhar.”
Ela conta que a água usada para higienizar verduras é destinada depois à limpeza do chão e das mesas. Já a água do cozimento de legumes é utilizada como descarga no banheiro dos funcionários. “Nos sanitários dos clientes, trocamos as válvulas antigas pelas econômicas, que também evitam vazamentos.” Segundo Aline, as pequenas mudanças já refletiram na conta de água, que neste mês, veio cerca de 30% mais barata. “Pretendo manter este hábito, mesmo depois de o fornecimento ser normalizado.”
No São Pedro, na Cidade Alta, o comerciante Hélio Firmino tem investido em copos e pratos descartáveis para servir os clientes na padaria. “A água que chega, nós estocamos em galões para ser utilizada apenas na lavagem de talheres e pratos do restaurante. Para cozinhar, utilizamos água mineral.” Segundo ele, ficar dois dias sem abastecimento serviu para conscientização. “Todos os dias, falo isso com meus funcionários. Infelizmente caímos na real da pior maneira. Já estamos providenciando uma caixa d’água maior, para estocarmos e não passarmos, de novo, por esta situação.”
Depois de enfrentar semanas com falhas no abastecimento, moradores do Condomínio Neo Residencial, no Bairro Borboleta, também na Cidade Alta, desenvolveram ações para armazenar a água que chega até às torneiras das residências. “A minha máquina de lavar, ao invés de ser usada para lavar roupas, está servindo para estocar água para usar na lavagem da louça. No banheiro, reutilizamos a água do chuveiro para dar descarga”, explica a dona de casa Elaine Assis. Natural de Soledade, na Paraíba, ela conta que nunca imaginou passar por situação de seca em Minas Gerais. “A seca no Nordeste é muito séria, mas ver isto por aqui me surpreendeu. Precisamos ter mais consciência.”
O músico e professor Dudu Costa, também residente do Neo, tem economizado toda a água possível. “O abastecimento ainda é irregular e intermitente e, por isso, continuo tomando algumas precauções, como armazenar água quando está caindo, evitar dar descargas demais, reduzir o tempo do banho e reaproveitar a água utilizada na limpeza para jogar no vaso sanitário.”

