
Duas e meia da tarde de uma terça-feira e três homens e duas mulheres fazem uso de bebida alcoólica em meio a diversos transeuntes na Praça do Riachuelo, uma das principais da região central de Juiz de Fora. A cena não é novidade, o cenário também não. Além da bebida, o uso de drogas ilícitas e outros conflitos permanecem constantes na área, provocando reclamações de pedestres, comerciantes e moradores do entorno.
Na última semana, a Tribuna voltou ao local e novamente encontrou problemas. Há seis meses, o jornal já havia estado na praça, quando constatou consumo e venda de entorpecentes, principalmente o crack, prostituição e casos de roubos e furtos. De lá para cá, a situação, ao que tudo indica, não parece ter mudado.
Marlene da Silva, 62 anos, moradora do Bairro de Lourdes, estava na praça esperando por uma amiga, quando o grupo fazia uso de bebida. “Que situação triste! São pessoas tão novas largadas dessa maneira. Como alguém pode usufruir desse ambiente. Como pais podem trazer crianças para cá e se deparar com essas cenas? É lamentável ter que presenciar isso no Centro da cidade”, lamentou a juiz-forana.
Martha Silvério, 49, moradora do Fábrica, também observava a atitude dos três homens e das duas mulheres com a garrafa de bebida alcoólica. Ela contou que trabalha naquela região e pega ônibus, na Rua Jarbas de Lery Santos, em um ponto em frente à praça. “Todos os dias vejo gente consumindo bebida nesse lugar. Às vezes, tem até gente fumando maconha ou cheirando crack. Também já fui abordada por pedintes. Se a gente diz que não tem dinheiro, eles nos ameaçam”, afirmou.
Em fevereiro, quando a reportagem esteve no logradouro, uma vendedora, 31, que trabalha numa loja de vestuário feminino em frente à praça, denunciou que adolescentes se prostituíam naquele espaço público. O próprio jornal constatou, naquela época, a prostituição acontecendo de forma escancarada, pois três mulheres circulavam entre os grupos masculinos ou faziam abordagens a homens sozinhos. Elas se apresentavam de forma sensual, bolsa a tiracolo e sempre com uma garrafa. O custo mínimo do programa sexual era de R$ 3, como uma delas chegou a dizer em voz alta, no meio da praça. Desta vez, a equipe da Tribuna não presenciou esse tipo de situação, mas retornou até a loja onde trabalha a vendedora que havia sido entrevistada a fim de saber se, passados alguns meses, ela ainda observava a existência da mesma situação. “O que mais a gente vê agora são adolescentes, meninos e meninas, aqui nessa redondeza. Eles bebem garrafas de vinhos e fazem muita algazarra. As meninas oferecem programas sexuais para os homens mais velhos que passam na calçada.” Para ela, a conjuntura não melhorou. “Quando viajo para São Paulo para buscar mercadoria, o nosso ônibus para aqui na praça para o desembarque. Isso acontece de madrugada e, nessa hora, dá para o ver o quanto de gente usa drogas aqui, o que acaba repercutindo durante o dia com brigas.”
Da mesma forma que o comércio ilegal acontecia às claras em fevereiro, permanece acontecendo. Em tecidos estendidos no chão, foi possível, desta vez, observar a venda de produtos como ferramentas, utensílios domésticos e eletrônicos. “Se esses produtos estão aqui para a venda é porque tem gente que compra. Eu não compro, pois não sei a procedência, não há garantia. O problema é que essa prática faz juntar um monte de gente aqui. Alguns até trocam mercadorias. Já vi sair briga entre eles”, disse o pedestre Carlos Alcantara, 38, morador do Vitorino Braga, que disse passar pelo trecho com frequência.
De 1º de janeiro a 31 dezembro de 2017, cerca de 70 ocorrências neste período citam a Praça do Riachuelo em seu histórico de descrição do fato, conforme dados do Registros de Eventos de Defesa Social (Reds). Do total, pelo menos, oito são referentes ao tráfico de drogas, três a roubos, sete a furtos, uma de lesão corporal e sete de operações policiais que tiveram como objetivo combater a criminalidade. Os outros casos são referentes à localização de foragidos da justiça, averiguação de pessoa ou veículo suspeito, desobediência, receptação e ameaça. Esse dado numérico foi publicado pelo jornal em fevereiro. Dessa vez, nova análise foi realizada junto ao Reds, sendo constatados 37 registros, entre 1º de janeiro e 31 de julho deste ano. Entre eles, pelo menos, há 13 casos de furtos, quatro de uso e consumo de drogas, dois de lesão corporal, um de agressão, um de desobediência e um de receptação.
Melhorias na iluminação e revitalização do espaço
A expectativa é que o cenário que até então tem vigorado na Praça do Riachuelo mude a partir de ações públicas e privadas para a melhoria do logradouro. O Condomínio do Edifício Santa Cruz Shopping, que fica em frente ao local, tem interesse em contribuir com a segurança da região, uma vez que a atual situação da praça coloca em risco a integridade física de pedestres e contribui para a diminuição do fluxo de clientes do shopping. Desta forma, o Condomínio fez a doação de quatro refletores de luz ao Poder Público para instalação no Monumento das Armas, além de providenciar a pintura e a melhora da grade que cerca a edificação. Conforme a administração do shopping, todas essas melhorias já foram realizadas este ano. O Condomínio afirma que está sempre em contato com os Poderes Públicos com o intuito de propor ideias que possam refletir na conservação da limpeza e segurança.
Já a Prefeitura, por meio do setor de energia da Empresa Municipal de Pavimentação e Urbanização (Empav) revitalizou a iluminação pública da Rua Jarbas de Lery Santos, no Centro, com a instalação de lâmpadas a vapor metálico de 400 watts. As obras têm o objetivo de integrar a via à Praça do Riachuelo e ao Shopping Santa Cruz. Segundo a Secretaria de Comunicação, a intervenção foi realizada em parceria com o shopping, para tornar o trecho mais seguro e iluminado, uma vez que tem grande circulação de pessoas e conta com pontos de ônibus.
Conforme a pasta, o espaço teve aumento de 140% na sua capacidade luminosa. A praça passou a ter 20 luminárias de alto rendimento, em postes com nove metros de altura, além de outras 20 luminárias decorativas, estilo “chapéu chinês”, também com lâmpadas a vapor metálico, mas de 250W, em postes com cinco metros de altura.
Ainda como pontua a Prefeitura, o órgão tem se reunido com a administração do shopping, visando a construção conjunta de ações concretas e realizáveis para a praça. Em fevereiro, quando o primeiro encontro aconteceu, foi definido que seria criado um plano de ação com intervenções a curto, médio e longo prazos. Entre as ações já realizadas desde então, além da iluminação, houve a poda de árvores, o aumento dos canteiros, além do conserto da bomba do chafariz.
Rondas
A administração municipal também afirma que têm sido feitas rondas constantes envolvendo fiscais de posturas, Guarda Municipal e Polícia Militar, com a finalidade de coibir um eventual comércio ambulante irregular na praça. No que diz respeito aos moradores em situação de rua, que se concentram no local, a Prefeitura afirma que são realizadas, periodicamente, abordagens sociais com a intenção de orientar as pessoas que ali permanecem sobre os serviços municipais destinados a essa população. Nessas ocasiões, os moradores em situação de rua são convidados a se instalar em um dos equipamentos públicos disponíveis para a garantia de sua cidadania. No entanto, só são encaminhados caso aceitem.
Ainda conforme a Prefeitura, entre as ações que estão em estudo e que fazem parte do plano de ação para execução a longo prazo, apresentado em março, há a proposta de intervenções na pista de rolamento na Rua Jarbas de Lery Santos, visando a garantir maior fluidez no trânsito no local. Neste caso, a Settra ainda analisa as possibilidades a serem apresentadas considerando a realidade da via.
Uma nova reunião envolvendo os órgãos da Prefeitura, da administração do shopping e da Polícia Militar está prevista para setembro, quando será feito novamente um balanço das ações já realizadas e definidas as próximas, conforme o plano de ações. Participam das discussões as secretarias de Governo, Segurança Urbana e Cidadania, Transporte e Trânsito, Administração e Recursos Humanos, Atividades Urbanas, Desenvolvimento Social, Cesama, Empav e Funalfa.
Serviço
Para solicitações de manutenção na iluminação pública, como lâmpadas apagadas à noite ou acesas de dia, o cidadão deve ligar para o JF+Luz, através do 0800-940-3777, bastando informar o número da plaqueta amarela fixada no braço da luminária, próximo ao poste. As solicitações de melhoria na iluminação pública devem ser feitas no Espaço Cidadão JF, na Avenida Rio Branco 2.234, no Parque Halfeld.
