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Museu da Loucura: da sombra à luz

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Panelões usados na cozinha do Colônia
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Panelões usados na cozinha do Colônia

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Marlene se recorda dos tempos que secava o capim que servia de cama para os internos

Poucas viagens são tão perturbadoras como a que leva na direção do antigo Hospital Colônia. Neste caso, revisitar o passado é se deparar com a crueza de um sistema público que acabou por confiscar a humanidade de homens, mulheres e crianças considerados indesejáveis aos olhos da sociedade. Enjaulados, encurralados e ignorados, os filhos da loucura desembarcaram em Barbacena, última paragem de suas vidas infelizes. Lá, 60 mil morreram de fome, frio, violência e esquecimento. Os que resistiram a esse período sombrio, compreendido entre 1930 e 1980, tornaram-se vozes potentes de uma história que incomoda e não pode ser esquecida.

Ao entrar no novo Museu da Loucura, reinaugurado na última quarta-feira após quase dois anos de fechamento, o visitante vai percorrer 113 anos de funcionamento do Colônia, hoje transformado em Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB). Vai ouvir as vozes de antigas vítimas, ver as bonecas ninadas pelas mulheres que tiveram seus filhos doados, vai tocar o azulão – uniforme usado pelos internos que perderam seus nomes e vínculos familiares -, vai ver de perto os panelões utilizados para cozinhar a sopa rala incapaz de matar a fome dos pacientes e sentirá o coração pulsar forte na sala de lobotomia, que trás de radiografias a instrumentos cirúrgicos utilizados dentro da unidade até o final da década de 1970. No espaço destinado aos dias atuais, há a luminosidade do reencontro dos sobreviventes com sua individualidade, gente que conquistou um lugar no mundo, descobriu o dia e a noite, tornando-se dono de seu tempo e de suas escolhas.

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O Subsecretário de Cultura de Barbacena e idealizador do projeto que permitiu a revitalização do museu, Edson Brandão, disse que a ideia de mudança partiu do desejo de contar a história do Colônia a partir dos seus dias sombrios até os atuais, quando pessoas com doença mental encontraram a premissa da dignidade do tratamento. “O museu é uma coisa respeitosa, um memorial, não é um gabinete de curiosidades, é simplesmente a realidade como é. O que a gente pretende é a transparência. O museu trás, em sua primeira parte, a penumbra e, a segunda parte, toda clareza possível. É o local onde se ouve os pacientes falarem de sua própria história com os recursos que já existiam. Para isso, utilizamos o áudio do filme do Helvécio Ratton e separamos das imagens, permitindo que ganhasse vida própria. O museu está mais emocional”, explica Edson, que também participou da primeira montagem do espaço em 1996.

Revitalização

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A coordenadora do museu, Lucimar Pereira, afirmou que a ideia da revitalização do museu, que em 2016 completa 20 anos, foi avançar no conceito histórico e acrescentar novas informações, além de proporcionar maior interatividade com o visitante. “Fico feliz de o público ter a oportunidade de conhecer e se apropriar dessa história. Acho que as pessoas vão ter um impacto maior, vão poder sentir com maior sensibilidade aquilo que representa essa história, tanto do lado tenebroso, quanto de uma evolução. Acredito que houve uma evolução dessa história, que foi repensada e reescrita. O museu é uma forma de as pessoas não esquecerem esse passado e verem que a possibilidade de mudança depende da vontade de cada um. Muito se evoluiu no próprio hospital e em Barbacena, porque os profissionais acreditaram que poderiam fazer diferente.”

Jorge Nahas, presidente da Fhemig – entidade mantenedora do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena e do Hospital Regional -, comemorou a parceria entre a Prefeitura e o Estado, fundamental para que as portas do museu – fechadas desde julho de 2014 -, fossem reabertas. “Tivemos vários problemas a superar, um deles foi a questão financeira. Precisamos refazer a parceria com a Prefeitura de Barbacena e depois a própria concepção do museu. O trabalho de reconstrução foi difícil, o acervo teve que ser recuperado”, explicou Nahas, que disse não temer o incômodo encontro com a verdade. “Não tenho medo da verdade, pelo contrário, a verdade é redentora, é terapêutica, inclusive, é preciso enfrentá-la. O Museu da Loucura não é um templo de expiação das nossas culpas. Ele é o marco nesse caminho. Marca uma fronteira, um rumo, uma opção. Logo é uma trincheira, pois o caminho não é reto e luminoso, se assim fosse, nem teríamos a caminhada.”

 

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Sobreviventes ainda moram em hospital

Funcionária do hospital há 41 anos, Marlene Laureano estava ansiosa para descobrir como ficou a revitalização do museu. Contratada, em 1975, como atendente psiquiátrica, Marlene não tinha formação para a função. Na época, sua mão de obra foi utilizada para outra finalidade: manter limpo o capim onde os pacientes dormiam. Por isso, ao rever a foto do pavilhão onde camas foram substituídas por capim, ela se emocionou. “Eu carreguei aqueles capins”, repetia, baixinho, como se estivesse com medo de a porta da memória ser arrombada. “Tudo aconteceu. É como se fosse um pesadelo. Saímos dele, graças a Deus. Agora é nova vida.”

Francisca Moreira dos Reis, também antiga funcionária do hospital, ficou feliz em ver restauradas as bonecas de antigas pacientes com quem conviveu. Fotos tiradas, em 1979, pelo fotógrafo Napoleão Xavier, de Belo Horizonte, mostram que muitas bonecas de pano feitas pelas internas reproduziam o período de segregação. Algumas delas foram criadas com algemas nos punhos, realidade de um tempo em que os direitos civis e humanos não eram respeitados. Somente no final da década de 1970, quando a reforma psiquiátrica ganhou fôlego em Minas, é que a discussão de modelos humanizadores de atendimento foi incorporada à saúde mental, com novas práticas terapêuticas.

No teto do museu, aliás, é possível visualizar a última cela do hospital, que só foi retirada em 1991. E, apesar de todos os avanços, o processo de desinstitucionalização dos remanescentes daquele período ainda está em andamento. Segundo o diretor do CHPB, Wander Lopes da Silva, o Estado prometeu fazer financiamento para que 144 moradores da instituição sejam, finalmente, desospitalizados. “O momento é muito especial. A Fhemig promete investir na desinstitucionalização dos moradores que ainda estão na instituição. Sempre foi possível acolhê-los (em serviços extra-hospitalares), mesmo com as limitações graves que eles tem, desde que sejam residências especiais. A gente precisa de 18 residências, e o Estado está nos prometendo o financiamento para alavancar esse processo que não estava parado.”

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Novos tempos são desafiadores

Além de o Museu da Loucura ter sido reaberto, a Fhemig irá assinar com a Universidade Federal de São João Del Rey um protocolo de intenções para que todo o acervo do hospital, incluindo os 51 mil prontuários de pacientes, sejam digitalizados. Segundo o diretor do CHPB, Wander Lopes da Silva, ainda não foram definidas as regras para o acesso e utilização desse material. A parceria, no entanto, garantirá que boa parte dessa história seja preservada.

Para o ex-diretor do hospital, o psiquiatra Jairo Toledo, foi justamente essa documentação que permitiu tornar conhecida a história da loucura em Minas, cuja visibilidade ganhou força em 1979, com a organização do III Congresso de Psiquiatria na capital mineira. O evento e as reportagens publicadas pelo jornalista mineiro Hiram Firmino, além do filme “Em nome da razão”, tornaram públicas as mazelas do local.

Jorge Nahas, atual presidente da Fhemig e um dos principais apoiadores do projeto de revitalização do museu, encara os novos tempos para a saúde mental como desafiadores. “É fascinante observar que a mesma humanidade que produziu e produz estas e outras infâmias, também as tenham repudiado e venha construindo suas regras de convivência, estatutos legais e outros dispositivos que, a rigor, protegem a humanidade dela mesma. O que é um pouco inquietante é que a gente acha que a questão do respeito, da não-segregação, do tratamento individualizado, é uma questão consolidada, mas não é bem assim. A gente acha que está superado, mas não está. Por isso, o museu tem um enorme apelo. Vamos fazer o possível para ele ficar sempre vivo.”

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