
Michelle, ao lado do pai Sebastião Soares, mostra a foto da mãe, vítima de dengue
Juiz de Fora saltou de situação de alerta para a dengue para município com risco imediato de epidemia. A recente divulgação do Levantamento Rápido do Índice de Infestação do Aedes Aegypti (Liraa), mais de sete vezes maior do que o informado em outubro de 2012, coloca a cidade em situação de risco de epidemia. Há apenas três meses, as autoridades sanitárias informaram Liraa igual a 1%. Hoje o percentual é de 7,56%, quase oito vezes maior do que o considerado aceitável pelo Ministério da Saúde. A situação é tão grave que, em alguns bairros, todas as amostras colhidas pelo município para a realização de pesquisa larvária estavam infectadas. Alguns bairros, principalmente os localizados na Zona Norte, apresentam percentual de infestação acima da média geral da cidade, chegando a 10%.
Segundo o secretário de Saúde, José Laerte, o aumento pode ser explicado não só pelo fato de janeiro ter maior incidência de calor e chuva em relação a outubro, o penúltimo período de coleta, mas, principalmente, pela forma como a pesquisa larvária vinha sendo realizada nos anos anteriores. "Nós temos uma leitura, e o Liraa confirma isso, que a pesquisa larvária não estava sendo feita de acordo com o que preconiza o Ministério da Saúde, por isso os índices de infestação vinham dando tão baixo. Nós fizemos o mapeamento de toda cidade, como manda o órgão ministerial, com todo o rigor estabelecido, e ainda contamos com o acompanhamento da Superintendência Regional de Saúde nesse trabalho realizado de quadra em quadra, cujo resultado não tem chance de estar distorcido. Nos anos anteriores, porém, a pesquisa era feita utilizando a divisão territorial do Programa de Saúde da Família (PSF), que não atende a cidade inteira e possui regiões sem unidade de referência. Por isso, várias áreas ficaram sem avaliação e, pior, sem tratamento", revelou.
A declaração do secretário ganha dimensões ainda mais graves se for considerado o fato de que a possível distorção dos percentuais do Liraa expõe Juiz de Fora a riscos sanitários. A porcentagem atual é maior do que há de três anos, quando a cidade registrou um dos piores surtos da história. Com um índice de infestação de 6,4% em janeiro, 9.441 casos de dengue foram notificados naquele ano. Destes, 9.050 foram confirmados. Ao todo, 17 pessoas faleceram de dengue em Juiz de Fora em 2010.
Para o infectologista Sérgio Botti, a perspectiva, com um índice de infestação tão alto, é que a chance de epidemia se confirme na cidade. Preocupado, o secretário José Laerte deixou a rede hospitalar de sobreaviso. Tanto o HPS, quanto o Hospital Regional João Penido já acenaram com a garantia de leitos visando ao tratamento de doentes. Apesar do elevado índice de infestação na cidade, foram registradas até agora somente seis notificações da doença, com dois casos confirmados neste ano. "Isso significaria que a cidade possui muitos mosquitos, mas poucos deles infectados", explicou José Laerte.
Com a proximidade do carnaval, o secretário teme que Juiz de Fora "importe" o vírus quatro da dengue, forma mais grave da doença, porém não detectada no município até o momento. "Pedimos as pessoas que forem viajar para outros locais e voltarem com sintomas da dengue que nos comuniquem, para que possamos fazer um bloqueio territorial, uma vez que ao picar uma pessoa infectada, o mosquito transmissor da dengue pode infectar outros indivíduos."
Ações
O infectologista Sérgio Botti afirma que a única forma de diminuir a doença é acabar com as larvas e os mosquitos. "Vamos correr atrás do prejuízo", assegurou o titular da Secretaria de Saúde. Segundo José Laerte, além da Força Saúde, que está identificando e tratando os focos, o fumacê já está sendo usado nos bairros com Liraa mais alto, como a Barreira do Triunfo, uma das áreas mais afetadas. Na região Leste, 104 toneladas de lixo foram retiradas, ontem pela manhã, visando à eliminação de possíveis focos.
Em Minas, foram notificados, até quinta-feira passada, 6.525 casos. O número já é maior que as 5.803 notificações de todo janeiro do ano passado. O secretario estadual de Saúde, Antônio Jorge de Souza Marques, disse que não vai restringir o orçamento para evitar a proliferação do mosquito e dar assistência à população mineira. Ele garantiu que R$ 26 milhões devem ser investidos em um novo plano de contingência estadual.
Dengue hemorrágica matou mulher de 52 anos
Quem já perdeu um ente querido por causa da dengue tem consciência da gravidade da doença. Esse é o caso da pedagoga Michelle Soares de Assis Almeida, cuja família mora no Bairro Manoel Honório, um dos que mais apresentaram focos de dengue na região Leste, neste ano, segundo o Liraa. Em 2010, Michelle perdeu a mãe, a dona de casa Rosa Maria Condé de Assis, na época com 52 anos. A causa descrita na certidão de óbito: complicações causadas pela dengue.
De acordo com a pedagoga, no começo de maio daquele ano, uma semana depois de sua mãe apresentar sintomas brandos da doença, ela desmaiou no banheiro. Rosa Maria foi levada pelo Samu e, ainda no caminho para o socorro, sua pressão arterial chegou a quase zero, precisando ser transferida para uma ambulância mais equipada. Ao chegar ao hospital, Rosa Maria foi direto para o CTI. Com a estabilização do quadro, houve a tentativa de tirar seu sedativo. Mas ela não acordava. Havia perdido os reflexos e, para piorar, os médicos constataram um acidente vascular encefálico. A paciente teve morte cerebral e, pouco tempo depois, o coração parou.
"Quando falo que a minha mãe morreu de dengue, ninguém acredita. As pessoas não têm consciência de que (a doença) mata", desabafa Michelle. Ela alerta que a população tem que se conscientizar de que é peça fundamental na prevenção de um surto. "O mosquito estava ali, ele picou meu pai e depois minha mãe, apesar de o foco não estar na minha casa."
Segundo o infectologista Sérgio Botti, os sintomas apresentados pela mãe de Michelle indicam que ela teve uma dengue hemorrágica. O médico explica que este tipo da doença pode causar um colapso circulatório: pulso fraco e rápido, baixa na pressão arterial, pele fria e pegajosa, além de inquietação. Em um grau mais elevado e perigoso, poderia ocorrer a síndrome do choque da dengue, quando a pressão do paciente vai a zero.
A professora de história Raphaela Souza Santos, moradora do Bairro Granbery, região central, também foi picada pelo Aedes aegypti infectado em maio de 2010. Para se locomover com mais facilidade durante as duas semanas em que ficou doente, ela teve de se mudar para o prédio de uma prima, que possui elevador. Segundo a professora, todos os sintomas da dengue se manifestaram nela: febre alta, dores pelo corpo e nos olhos, manchas vermelhas, diarreia e vômitos. Raphaela teve que tirar licença médica do serviço e ficar internada para tomar soro por duas vezes. "Na época, fui ao HPS, mas havia uma fila com dezenas de pessoas na mesma situação. Não aguentei ficar, porque eu estava muito mal. Tive que arcar com as despesas de uma consulta particular na Santa Casa", conta a professora.
Mesmo nos registros de dengue simples, como a de Raphaela, o infectologista Botti explica que, caso não seja tratada, pode evoluir para uma dengue hemorrágica. "A única solução efetiva é a hidratação e as consultas médicas", explica. A ingestão de dois copos de líquido deve ser feita de hora em hora e quando o paciente urinar.
Prevenção
A professora de português Maria Adriana Alves Pires Hage Chahine, moradora do Bairu, uma das regiões mais preocupantes para a dengue na Zona Leste, levou um susto quando os agentes de saúde encontraram possíveis focos de dengue em uma lata de tinta nos fundos da sua casa. Segundo a professora, a família viajou e se esqueceu de deixar o objeto com a abertura virada para baixo, o que permitiu o acúmulo de água por causa da chuva e, consequentemente, de larvas do mosquito. "Foi com a visita deles que descobrimos os focos", disse. A maioria das larvas e pulpas (estágio intermediário entre a larva e o adulto) encontradas durante as vistorias do Liraa em Juiz de Fora estava dentro das casas, em garrafas, latas e vasos de plantas.

