
Jovens de 15 e 24 anos foram mortos na Avenida Senhor dos Passos. Dezenas de moradores foram ao loca
Três jovens foram assassinados em Juiz de Fora em menos de 24 horas, quando estavam em via pública. No final de tarde de ontem, um garoto de 15 anos e um rapaz de 24 foram vítimas de um duplo homicídio, na Avenida Senhor dos Passos, no São Pedro, Cidade Alta. Na manhã do mesmo dia, outro adolescente, 17, ferido com uma arma branca na noite de quinta-feira, no Centro, morreu no Hospital de Pronto Socorro (HPS). No caso da Cidade Alta, Marcos Antônio de Oliveira Arantes, 15, conhecido como "Cascão", e Ronald da Silva Gradin Netto, 24, conversavam em um ponto de ônibus, por volta das 17h30, quando um veículo Polo preto, com quatro ocupantes, aproximou-se em alta velocidade e parou em frente às vítimas, efetuando diversos disparos de arma de fogo. Marcos foi alvejado com duas perfurações na perna e uma cabeça, enquanto Ronald levou um tiro nas costas. Os dois morreram na hora. De acordo com o cabo da 99ª Companhia da Polícia Militar, David Silva Rodrigues, que registrou o crime, os suspeitos foram identificados por um irmão de uma das vítimas, que presenciou quando o Polo estacionou na frente do ponto, partindo rapidamente após os disparos. "Imediatamente ao nosso acionamento, viaturas passaram a rastrear a área, a fim de localizar o carro, pois os suspeitos já eram conhecidos", afirmou o militar.
Segundo ele, o duplo homicídio seria motivado por uma desavença entre as partes. "O irmão da vítima teria tido um desentendimento com um dos suspeitos. O crime seria uma forma de revidar esse conflito", disse o cabo. Diversas pessoas se aglomeraram no local, para observar o trabalho da perícia da Polícia Civil. Por causa da multidão, policiais militares tiveram que controlar o fluxo de veículo. No muro, atrás do ponto de ônibus, ficaram diversas marcas dos disparos. Em outro muro, na esquina com a Rua Dimas Bergo Xisto, perto de onde os corpos estavam caídos, havia uma pichação com o dizer: "Vai rolar homicídio. Bem-vindo ao inferno." Até o final desta edição, o rastreamento em busca dos autores ainda estava sendo realizado.
O comandante da 99ª Cia da PM, capitão Fernando Machado Miranda, disse que o caso foi motivado pela rivalidade pessoal entre as partes, ressaltando que a Cidade Alta possui índices de homicídio e de criminalidade violenta baixos. "Nossa companhia conta com o trabalho efetivo da Patrulha de Prevenção a Homicídios, além das demais viaturas para patrulhamento de rotina. Trabalhamos a prevenção, focando questões de averiguação de antecedentes criminais, abordagem a autores e vítimas que têm potencial para se tornar autores e fazemos o mapeamento das áreas de maior incidência criminal na cidade."
Outro caso
Já a segunda vítima adolescente, 17, foi atingida por uma arma branca, na Avenida Rio Branco, na região da Praça do Riachuelo, Centro. Segundo a assessoria da Secretaria de Saúde, o óbito de Iago de Oliveira da Silva foi constatado às 8h de ontem. Ele sofreu uma perfuração no tórax após ser golpeado por um objeto durante uma briga em via pública. O suspeito, 16, foi apreendido pela PM próximo ao Mergulhão. Em depoimento à Polícia Civil, ele alegou ter desferido uma paulada contra a vítima porque estaria sendo agredido, mas a PM obteve informações de que o jovem teria sacado uma faca da cintura e atacado Iago, após uma discussão iniciada nas redondezas da praça, motivada por rixa de bairros.
Os casos levantam, mais uma vez, a discussão em torno da necessidade de medidas urgentes para conter a violência entre jovens e brigas de gangues, que causaram várias mortes este ano. A violência foi tema da série "Até quando?" publicada este mês pela Tribuna.
Ao prestar declarações, o suspeito, morador do Bairro Três Moinhos, Zona Leste, disse que a vítima queria bater nele durante uma briga. Ele contou ter pego um pedaço de madeira com um prego e desferido a paulada, alegando que a perfuração no tórax teria sido causada pela peça de metal. Já um amigo da vítima, 19, morador do Progresso, Zona Leste, contou que estava na companhia de Iago, quando teriam "trombado" com o suspeito quase em frente à praça, após uma discussão anterior. Segundo o depoimento, o outro jovem teria pego a faca que portava e partido para cima do adolescente. Iago teria tentado se esquivar dos golpes, mas o suspeito estaria muito agressivo e teria "fincado" a arma no peito dele, fugindo em seguida. Mesmo ferida, a vítima teria tentado correr atrás de seu agressor, mas acabou caindo no chão.
Durante patrulhamento, a PM recebeu informações de que havia um rapaz ensanguentado na Rio Branco. Iago foi socorrido pelo Samu e levado para o HPS, onde foi internado em estado grave no Centro de Tratamento Intensivo (CTI). Como o procedimento na delegacia foi feito anteriormente à morte do jovem, o suspeito foi autuado em flagrante por ato infracional análogo a tentativa de homicídio e encaminhado para a Vara da Infância e Juventude. A delegada Mariana Veiga, responsável pelo caso, disse que, com a morte do rapaz, vai requisitar laudo de exame de necropsia e encaminhar para a Vara, uma vez que o suspeito poderá responder por crime análogo a homicídio.
Medo entre os lojistas da Mister Moore
O assassinato de Iago da Silva também representa medo para outras áreas da região central que, ao longo deste ano, serviu de cenário para o registro de diversos confrontos entre grupos de jovens rivais. Ontem, a Tribuna foi acionada por comerciantes da Rua Mister Moore, no Centro, onde, conforme eles, na manhã de quinta-feira, houve uma rixa entre galeras. Segundo os lojistas, um dos jovens chegou a sacar um revólver contra o outro, provocando medo a quem passava pelo local. Não houve disparos porque os grupos teriam se dispersado. Neste dia, a PM prendeu dois homens, de 19 e 21 anos, e apreendeu um adolescente, 16, com uma arma de fogo calibre 22, na Praça Antônio Carlos, no Centro. Eles teriam sido vistos portando revólver no interior da Galeria Ítala, que liga as ruas Marechal Deodoro e Mister Moore.
De acordo com lojistas da Mister Moore, a via tem sido utilizada como ponto de encontro para acerto de conta entre as gangues. "As brigas estão frequentes, deixando trabalhadores e pedestres assustados", disse o vigia de um shopping, de 37 anos. "Teve uma vez que um rapaz ameaçou o outro com uma faca aqui dentro da loja. Sem falar da pancadaria que vemos sempre na rua", disse o vendedor de uma loja de tênis, 46, que acrescentou que os casos são mais constantes nas quintas, sextas e sábados. "Até nós vendedores somos ameaçados constantemente", completou, dizendo que trabalha há 32 anos no ramo e que nunca viu situação semelhante. "O problema se agravou com o passar dos anos." Na Mister Moore, existem muitas lojas de marcas que atraem a juventude, assim como estabelecimentos para venda de tênis. Na opinião dos vendedores, esses estabelecimentos chamam a atenção desses grupos, já que a rivalidade entre eles também aparece refletida no consumo. "Estar com um tênis de marca significa poder para eles", contou um vendedor, 28, que também foi ameaçado.
"Estamos inseguros. Já entraram no meu comércio e quebraram o vidro de um freezer. Já vi briga de gangue terminar aqui dentro", afirmou a proprietária de uma casa de frios, 50. A delegada titular da 7ª Delegacia, responsável por apurar os crimes da região central, Mariana Veiga, ressaltou que a Polícia Civil trabalha continuamente para identificar os envolvidos com essas galeras. "Quando identificamos um grupo, surge outro foco. A investigação é contínua para reconhecimento e localização de pessoas que usam o Centro para local de acertos de contas."

