Tribuna: Durante a plenária, vocês falaram sobre crise climática, novo regime climático e outras nomenclaturas. Como vocês tratam isso?
Agostinho Tadashi Ogura: Tem muita nomenclatura, né? Acho que, em vez de ajudar, complica. O problema, dentro de uma visão de desastre, são os eventos severos, que sempre existiram. Os eventos fora da curva ou na ponta, bem longe da média. O ser humano se dá bem com o normal, com a média. Isso até no ponto de vista do seu dia a dia. Ele não gosta de ser perturbado. Na natureza, a dinâmica é totalmente diferente. Ela é regida por outras ordens.
O que é real é que a pegada do ser humano na sua jornada planetária está cada vez mais impactante. Ela está realmente criando alterações, e uma das principais é essa alteração do clima, dos eventos meteorológicos. O desastre não é média: é extremo. São eventos fora da curva. O que todos têm sentido mais fortemente é que o calor está ficando cada vez pior, então a gente está batendo recorde atrás de recorde de temperatura. Ondas de calor agora, por exemplo, no Japão, na Europa. O organismo humano não se dá bem com isso.
Isso inclui todos os extremos: de frio e, no caso de JF, de muita chuva, com pancadas em curto espaço de tempo – e também extremos de estiagem prolongada. São Paulo, por exemplo, tem regiões que há cinco anos seguidos estão perdendo 30% do total pluviométrico que chovia no ano todo. Então, ela está concentrada em um curto período de tempo. Isso é pior, isso é desastre pela estiagem, porque vai causar a falta de água, crise de abastecimento, para uma região metropolitana que nem São Paulo. Então, tudo isso dentro da terminologia que você queira usar, mas, no meu caso, isso tudo se refere a desastre.
E como Juiz de Fora se encaixa nesse conceito que o senhor está trazendo? Qual o trabalho está sendo feito para ajudar a cidade nesse momento?
O evento de fevereiro mostra bem o nível de vulnerabilidade das cidades brasileiras, não só Juiz de Fora. Não tem uma cidade no Brasil que está preparada para um evento pluviométrico com esse nível de incidência pluviométrica. O sítio geográfico onde está assentado Juiz de Fora tem terrenos de encosta de altíssima declividade, de muito alta suscetibilidade a deslizamento de tudo quanto é tipo. Rolamento de blocos de rocha e solo, como a gente viu no no Morro do Cristo; deslizamentos naturais de rupturas rotacionais, com volumes muito grande de solo. Toda a encosta desceu. Então não são escorregamentos induzidos, são de uma dinâmica natural de encosta.
E aí entra toda a parte também de processos hidrológicos, grandes inundações, enxurradas, com alta capacidade de arraste. Você não consegue ficar de pé. Ele leva carro. O cenário está muito claro – e a cidade não quer passar por isso mais. Mas nós temos que mudar. E essa mudança é dolorida, porque vai afetar. Vamos ter que correr atrás, porque vivemos em sociedade, para conciliar interesses.
Durante a palestra, o senhor falou muito do Museu Mariano Procópio. O senhor está incluído nesse projeto?
Sim. O museu foi o primeiro projeto nosso porque, para mim, dentro da lógica de um gerenciador de situações de desastre, a gente tem que retornar à normalidade o mais rápido possível. Isso envolve planos de contingência, que é um elemento de convívio com essa nova realidade que se criou em um determinado território. Então, no território do museu, que não é só a edificação, você tem todo o morro ali, florestado com mata e com problemas de instabilidade. Teve deslizamento no local, que até atingiu a Avenida Brasil. No interior do museu nós também tivemos problemas.
O plano de contingência que temos hoje monitora previsão meteorológica, a chuva e diz claramente em quatro níveis: normal, atenção, alerta e alerta máximo. A gente muda de nível e em cada situação de mudança há uma série de ações a serem realizadas por uma série de atores. Desde os operadores do dia a dia do museu, até a alta direção do local e da Prefeitura, todas as secretarias envolvidas, Defesa Civil, Corpo de Bombeiros.
O senhor tem muitos trabalhos, muita trajetória na área. Tem algum “case de sucesso” que o senhor traz como referência para ajudar Juiz de Fora nesse momento?
Olha, a gente tem uma trajetória muito interessante. Eu sou formado em geologia há 40 anos no Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo. A missão principal do instituto é criar soluções não de prateleira, mas estruturantes para o país. E foi sobre essa vocação que eu me encaixei. Então, tudo aquilo que eu trago é estruturante e capaz de ser replicável. Tudo aquilo que a gente fez no plano preventivo de Defesa Civil para deslizamento de São Paulo, tem um vídeo do IPT sobre isso, didático.
A questão da continuidade de programas e projetos é de caráter de estado. A gente fez todo o mapeamento de área de risco no Brasil, por meio de uma metodologia usada hoje em escala nacional. Juiz de Fora está sendo objeto de um plano municipal de redução de risco. Ninguém sabe disso. Tem uma empresa bancada pelo Ministério das Cidades, com apoio da United Nations Office for Projects and Services. É tudo em parceria. Ela é contratada com recursos federais para fazer a atualização do PMRR de Juiz de Fora.
Fiquei mais de um ano em Salvador, estruturando uma linha de produção geotécnica. A gente desenhava soluções. Temos um banco delas que vamos trazer para cá também. Nada é do zero, a gente já tem muito conhecimento. Toda essa parte de sensores, de novas tecnologias, de plataformas. E toda a parte de engenharia não é algo desconhecido: é a coisa mais antiga do mundo, é tudo beabá de Engenharia Civil, drenagem urbana.
Só que a gente tem os nossos problemas nacionais. De fazer com que essas coisas sejam o grande projeto do país. O projeto do país é um projeto que nem o de Juiz de Fora, que quer ser uma cidade mais resiliente, para todos, inclusiva e boa para morar. Tem que reduzir vulnerabilidades, que já estão todas mapeadas.
A gente consegue até hierarquizar quais são inaceitáveis e vai atacando para eliminá-las. Dá para fazer, porque o problema está ligado na forma como a gente tem um passivo de uso e ocupação do solo. É o caso de todas as cidades brasileiras. E isso é algo que você consegue trabalhar sobre o nível de Administração pública. É bom senso, só que, infelizmente, precisamos sempre ter um desastre para falar sempre a mesma coisa. É uma loucura, mas é assim. Eu acho que faz parte da questão do próprio país e sua evolução, em termos civilizatórios de sociedade.

