
Sinalização ainda pode ser vista no São Mateus
Só aos poucos, o velho e conhecido nome "Avenida Independência" começa a desaparecer do cotidiano das pessoas e dar lugar à homenagem feita ao ex-presidente Itamar Franco. Pelas ruas, mesmo com muita resistência, os juiz-foranos já conseguem adequar a nova denominação ao dia a dia, mas, após um ano e sete meses da publicação da lei que altera o nome do logradouro, o antigo continua marcando forte presença no vocabulário urbano. Para especialistas, a tendência natural de situações como essa, como já foi vivenciada em outros momentos na história da cidade, é que a mudança seja incorporada no imaginário da sociedade com o passar do tempo, e que as novas gerações se encarreguem de esquecer de vez o antigo. Ainda assim, resquício do velho nome aparece em placa ao longo da via, como a afixada na esquina com a Oswaldo Aranha, no Bairro São Mateus.
De acordo com a chefe do Departamento de Engenharia de Tráfego, Sheila Menini, a Settra está providenciando uma nova empresa para confeccionar placas de logradouros para a cidade. "Uma equipe técnica irá realizar a retirada das placas com nomes errados e danificados e, quando a empresa estiver licitada, ela fará a troca."
Uma curiosidade apontada pelo taxista Marcos Alexandre, 37 anos, que trafega pelas ruas todos os dias, expõe esta situação. Segundo ele, o novo nome já foi incorporado pelas pessoas que vêm de fora da cidade. "Na maioria das corridas, tanto eu quanto os passageiros, utilizamos o antigo nome como referência. Mas quando a pessoa não é de Juiz de Fora, ela já sabe o nome correto e algumas vezes desconhece o antigo", conta. Contudo, ao longo da avenida, moradores e comerciantes dividem opiniões sobre como localizam o local onde vivem e trabalham. "Algumas vezes, eu falo Independência, outras Itamar Franco, mas quando preciso repassar o endereço para alguém, eu sempre utilizo o nome antigo", diz a proprietária de um restaurante Maria Aparecida Duque, 46. Próximo dali, o comerciante Edvaldo de Assis, 59, não tem a mesma opinião. "Desde que o nome foi criado, eu me adaptei. Não acredito que tenha prejudicado em nada o dia a dia das pessoas e acho que é uma questão de costume." Para ele, a homenagem foi algo favorável para a história da cidade, em virtude da importância política do ex-presidente. "O Itamar é uma pessoa que precisa ser reconhecida, e nada mais justo que seja na avenida que ele próprio criou", explica.
Plebiscito
Autora de livros que trabalham a questão da memória e das identidades urbanas em Juiz de Fora, a professora da Faculdade de Comunicação da UFJF, Christina Ferraz Musse, acredita que as mudanças de nome de ruas, avenidas, bairros e praças seja algo sintomático, que se transforma conforme a evolução das cidades. "Em momentos anteriores, o próprio clero, por exemplo, mudou o nome de vários locais que possuíam titulações leigas para denominações religiosas. Isso demonstra que a prática visa a atender a determinados interesses da época e revelam o momento vivido por aquela sociedade. Mas o correto seria haver sempre um plebiscito anterior à modificação com a população desses locais, como forma de saber a opinião pública", diz. Para ela, a mudança, dentro do limite, é algo saudável para o município. "As identidades fixas estão atreladas a posições autoritárias e não são bem-vindas. Na contemporaneidade, por conta do panorama socioeconômico, das migrações e das relações com outras cidades, a identidade é dinâmica e mutável, fazendo com que esse contágio com a alteridade auxilie na evolução da cidade."
Incorporação deve vir com o tempo
Para o pesquisador da história local Vanderlei Tomaz, as pessoas mais afetadas nesse tipo de situação são os próprios moradores, tendo em vista alguns transtornos consequentes vividos. "É uma avenida muito grande e povoada e, por enquanto, o nome antigo será conservado por muitos." Em conversa da Tribuna com alguns moradores e frequentadores do Edifício Portal da Independência, localizado na avenida, eles alegam que, apesar da mudança de nome não ter prejudicado, acabou acarretando em algumas mudanças no cotidiano. "A grande maioria das correspondências já está atualizada, mas temos inúmeras empresas, inclusive bancos, que continuam enviando o endereço antigo. O nome é muito forte para localização e, para alguns idosos, a situação é ainda mais difícil", explica o porteiro do complexo de condomínios, Lucas Mesquita. "Fugir da tradição em Juiz de Fora é difícil, ainda mais aqui onde temos um prédio que leva o nome da antiga avenida", diz o morador Márcio Viana, de 67 anos e que há 17 vive no local. O vizinho Clésio Figueiredo, 68, compartilha a opinião. "Acho que muitas pessoas falam o nome antigo por ser menor e mais simples, mas não nos atrapalha em nada. É um processo que demora a acontecer."
A professora Christina Musse lembra, ainda, que situações semelhantes são vividas em outras cidades, algumas até sob o protesto da população. "No Rio de Janeiro, a Rua Montenegro passou a se chamar Tom Jobim, um local muito frequentado pelo compositor. Nada mais justo que homenageá-lo posteriormente. Seria um absurdo que esse tipo de mudança, bem como foi feita em Juiz de Fora, não fosse incorporada." E para essa adaptação ao novo nome, Vanderlei Tomaz acredita que o hábito virá com o tempo entre as pessoas. "A própria mídia se encarrega de realizar esse processo de assimilação."

