Consórcio. Pelo dicionário o conceito é simples. Um grupo de pessoas que assume o compromisso formal de pagar mensalmente uma prestação para uma caixa comum, destinada à compra futura de um bem, cujas unidades serão entregues paulatinamente a cada um dos consorciados, a intervalos estipulados, mediante sorteio ou lance. Mas o que é comum entre a sociedade, sobretudo para aquisição de automóveis ou casas próprias, tem se tornado realidade no mundo do crime. Em Juiz de Fora, traficantes de diferentes regiões têm se unido para a compra de drogas. O sistema começou a ser investigado pela Polícia Civil, principalmente após setembro do ano passado, depois da prisão de um grande fornecedor de cocaína para traficantes da cidade, de 42 anos, e de um segundo homem, 32, que seria o responsável pelo aliciamento de novos interessados em participar do grupo, e posteriormente, pela distribuição do material. Gravações de ligações telefônicas, com autorização da Justiça, revelaram o esquema.
Depois da prisão dos dois, essa espécie de consórcio ficou evidente, mas essa relação sempre existiu. Traficantes que já estão presos há algum tempo participavam desse esquema. Uma das relações mais antigas talvez seja entre os bairros São Benedito e Vila Olavo Costa, que se unem para comprar o entorpecente. O custo não é barato, então, quanto mais cliente o fornecedor consegue, menor será o preço. Os traficantes juntos compram uma quantidade maior por um custo menor, e o fornecedor vende mais, revela o delegado responsável pelo Grupo Tático Operacional (GTO) de Tóxicos, Fernando Camarota. Às vezes, o fornecedor recebe um pedido de 10kg de cocaína, por exemplo, e diz que, pelo risco, vale à pena a venda só acima de 25kg. Um traficante fala com o outro, que entra em contato com um terceiro e, no final, é firmado o consórcio. Nesse caso, como há o risco de perda de muito dinheiro, há indicação dos nomes dos que devem participar do grupo. Só participam aqueles que têm uma certa ‘moral’ entre eles, completa Camarota.
A Polícia Federal também confirma a modalidade adotada pelos traficantes. Essa relação existe sim. É como no comércio. Atualmente observamos as mercearias e mercadinhos se unindo para concorrerem com as grandes redes de supermercados. No tráfico e no crime organizado, isso também acontece. Eles se juntam para encomendar e pagar pela droga, que é posteriormente rateada, explica o delegado chefe da PF, Cláudio Nogueira. Em outubro do ano passado, após a apreensão na BR-040 de 14kg de pasta base de cocaína, vindos de Cacoal (RO), o delegado frisou que a cocaína seria repassada direto para outros traficantes e, não, vendida no varejo.
Dificuldade para investigar casos
Para a polícia, a opção pelo consórcio está relacionada à menor probabilidade de os criminosos serem pegos durante a rota da droga. Dessa forma, acabam arriscando menos, pois o número de viagens para a entrega dos entorpecentes é reduzido. Porém, como trazem uma quantidade maior, se forem pegos, o prejuízo é enorme. Todos perdem, destaca o delegado da Polícia Federal, Cláudio Nogueira.
Segundo o delegado responsável pelo Grupo Tático Operacional (GTO) de Tóxicos, Fernando Camarota, se por um lado o esquema é facilitado pelo conhecimento e relações entre traficantes de diferentes regiões da cidade, por outro, complica a apuração. Isso gera dificuldade nas investigações porque é difícil fazer ligação entre eles.
Conforme Camarota, neste tipo de negócio, o intermediário compra a droga do fornecedor que vender mais barato. Isso pode fazer com que o fornecedor e os componentes do crime mudem. A droga pode vir ora do Paraguai, ora por outra rota, comenta.
Esse modo de ação dos traficantes não é realidade apenas em Juiz de Fora. Em setembro do ano passado, a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, em parceria com a Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança, a Polícia Militar e com o Grupo de Atuação Especial ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, prendeu 16 pessoas, 11 no estado do Rio, quatro em São Paulo, e uma em Guarapari (ES), durante a Operação Consórcio. Em matéria divulgada pela Agência Estado, o delegado da Subsecretaria de Inteligência, que coordenou a operação, Carlos Abreu, descreveu a atuação dos traficantes. Anteriormente o grupo adquiria o entorpecente com traficantes do Rio, mas, depois, resolveu criar um consórcio para comprá-la diretamente com o fornecedor, no Paraguai.
