Ícone do site Tribuna de Minas

Negros sofrem mais com a violência

PUBLICIDADE

No Dia Nacional da Consciência Negra, celebrado hoje, não há muito o que se comemorar: os negros ainda são os que mais morrem vítimas da violência. O estudo Vidas perdidas e racismo no Brasil, divulgado ontem pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mostra que, no país, a probabilidade de o negro ser vítima de homicídio é oito pontos percentuais maior, mesmo quando se compara indivíduos com escolaridade e características socioeconômicas semelhantes. Em Minas, os afrodescendentes que perdem a vida por conta da violência representam o dobro das vítimas brancas. Em Juiz de Fora, apesar de não haver informação precisa sobre a cor dos 121 assassinados neste ano, a situação não é muito diferente. A estimativa é de que mais de 70% das vítimas sejam pardas ou negras.

Na tentativa de mudar o quadro, cerca de seis mil crianças, adolescentes e jovens do município terão a oportunidade de expressar por meio de redações como enxergam a violência urbana – desde o preconceito, a homofobia, o bullyng até a violência entre gangues – e propor sugestões. O foco do concurso de redações formatado pela Casa de Cultura Evailton Vilela são alunos das redes pública e privada de ensino. Hoje os primeiros a participar são estudantes da escola Diretrizes, no Bairro Jardim de Alá. Na sexta-feira, será a vez dos alunos da Escola Municipal União da Betânia, no Granjas Betânia. O jovem negro hoje aparece relacionado a crimes, seja como vítimas ou como autores. Queremos mostrar a perspectiva dessa juventude, elevar a autoestima para que ela seja protagonista de sua vida, declarou o presidente da Casa de Cultura, Jefferson da Silva Januário, conhecido como Negro Bússola. O objetivo do concurso é estimular a escrita e aguçar o senso crítico dos alunos em relação ao debate sobre políticas públicas de prevenção à criminalidade para transformação do cotidiano.

PUBLICIDADE

Se, no Brasil, a exposição da população como um todo à possibilidade de morte violenta já é grande, ser negro corresponde a pertencer a um grupo de risco, pois a cada três assassinatos, dois são de negros. Somando-se a população residente nos 226 municípios brasileiros com mais de cem mil habitantes, calcula-se que a possibilidade de um adolescente negro ser vítima de homicídio é 3,7 vezes maior em comparação com os brancos. Para o autor do estudo, Daniel Cerqueira, uma das conclusões é de que há uma enorme dívida da sociedade brasileira para com os afrodescendentes. Os resultados trazem à tona uma grande ferida aberta desde a abolição da escravatura, ainda não fechada nos dias atuais. Parte da elite branca se esquiva de perceber o racismo ainda prevalente no país e, sobretudo, o racismo que mata. Segundo nossos cálculos, mais de 39 mil pessoas negras são assassinadas todos os anos no Brasil, contra 16 mil indivíduos de todas as outras raças. Para além da extinção física, há milhares de mortes simbólicas por trás das perdas de oportunidades e de crescimento pessoal que muitos indivíduos sofrem pela sua cor de pele.

Redação e mostra fotográfica

O concurso de redações da Casa de Cultura Evailton Vilela deve ter participação de seis mil pessoas, entre alunos do ensino fundamental, médio e educação de jovens e adultos de 23 instituições. O resultado final será divulgado no próximo dia 12 de dezembro, com 40 premiados.

PUBLICIDADE

Além das redações, uma exposição de fotografias também tem o objetivo de despertar nos alunos de escolas da cidade a necessidade da aceitação. A mostra Retratos de Auschwitz. A arte em busca da paz, do fotógrafo da Tribuna, Fernando Priamo, reúne imagens dos campos de concentração nazistas, na Polônia, e traz à tona memórias dos horrores vividos pelos judeus. A mostra estreou no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas e agora percorre instituições de ensino. A Escola Municipal Vereador Marcos Freesz, na Rua Professor Pelino de Oliveira 399, no Bairro Eldorado, recebe a mostra hoje. O diretor do colégio José Carlos Fellet, explicou que o Dia da Consciência Negra foi escolhido propositalmente como a data para o início da mostra. Os negros se veem como alvos de perseguição, mas é importante mostrar que não só a cor da pele que traz o preconceito, que ele também pode ter origem cultural ou religiosa, como aconteceu com os judeus. Existe o perigo de o preconceito ser até uma forma de governo como aconteceu na Alemanha. Por isso, o intuito é despertar nesses alunos a cultura da tolerância e aceitação, senão, estaremos fadados a viver novos genocídios. Temos necessidade de paz. Segundo o diretor, a exposição é aberta também à comunidade e vai até o dia 27.

Sair da versão mobile