
Delegado Eduardo de Moura quer desvendar se crime parte de dentro das unidades hospitalares (Fernando Priamo)
Familiares e pacientes internados estão inseguros com uma onda de golpes que não perdoa nem mesmo quem está acamado em um leito de hospital. Diversas famílias de Juiz de Fora já foram enganadas e lesadas financeiramente pelo estelionatário que se passa por médico, fazendo as vítimas crerem que um ente hospitalizado precisa de medicamento especial. Mas, para obtê-lo, é preciso pagar. O falso profissional usa de palavras comoventes para convencer os parentes a adquirirem o remédio sob o risco de morte da pessoa internada. As vítimas questionam o fato de não haver segurança dentro das instituições para seus dados pessoais e lamentam ter de lidar com este tipo de situação em um momento de vulnerabilidade.
A Polícia Civil investiga os casos, numa tentativa de aglutinar informações de vítimas de diferentes hospitais, mas ainda não sabe dizer se o golpista age sozinho ou integra uma quadrilha para ter acesso a informações de pacientes e envolver seus familiares no crime. Desde 2014, quando o primeiro caso foi divulgado, famílias enganadas esperam pela responsabilização de quem atua por trás do crime. A Tribuna já havia divulgado duas ocorrências deste tipo de golpe. Uma delas em março deste ano, contra familiares de uma paciente do Hospital Doutor João Felício. A segunda, em novembro de 2014, contra parentes de pacientes internados na Santa Casa de Misericórdia.
A reportagem conversou com duas pessoas cujos pais estão internados no Hospital e Maternidade Therezinha de Jesus (HMTJ) e que receberam ligações suspeitas recentemente. Uma jornalista, que prefere não ter o nome divulgado, procurou a Tribuna após sofrer a tentativa do golpe. A mãe dela, de 67 anos, encontra-se internada na UTI. No último dia 7, ela recebeu a ligação de um número privado, na qual um homem identificou-se como “doutor Marcos”. “Ele chegou a dizer o nome da minha mãe e disse ser responsável pela unidade. Falou do problema dela e que seria preciso ministrar um remédio em até duas horas, mas era necessário autorização do SUS. Ele orientou que deveria fazer o depósito no valor de R$ 1.500, porque o SUS reembolsaria”, relatou a vítima, acrescentando: ” O homem usa de uma frieza para descrever o quadro, que seria crítico e que não seria possível fazer cirurgia, justificando a necessidade do remédio. Ele frisa o risco de óbito”, ressaltou.
Todavia, o valor não foi depositado, porque a jornalista já havia sido alertada pelo próprio hospital, para não acreditar neste tipo de ligação, pois a instituição comunica-se com as famílias por telefone, mas sempre solicita suas presenças na unidade. “Depois da ligação, fiz contato com o hospital, para deixá-los cientes e verificarem um meio de avisar a outros familiares. A atendente me informou que estavam preocupados, porque o tal doutor Marcos havia acabado de ligar para lá, solicitando informações a respeito de um outro paciente. Ou seja, mais uma possível vítima”, contou.
Atenção redobrada nas unidades
Com o pai de 69 anos internado no CTI do Hospital e Maternidade Therezinha de Jesus (HMTJ), um empresário, 35, também esteve na mira. “No último dia 4, a instituição fez um contato comigo, alertando que havia uma pessoa se passando por funcionário da Central de Vagas do SUS, querendo dados do prontuário e contatos do meu pai. Tal pessoa teria ligado para o hospital, pelo menos, quatro vezes no dia, o que levou o atendente a me ligar e orientar sobre a possibilidade de golpe. No dia seguinte, recebi a ligação de um homem que disse ser o ‘doutor Marcos Brandão’. Como já sabia, perguntei o número do CRM (Conselho Regional de Medicina) dele, o que o fez desligar imediatamente.” Para ele, a situação é absurda. “Coisa que vemos só em televisão. Não dá para imaginar que pessoas aproveitem da nossa fragilidade para extorquir dinheiro. Se não tivesse sido avisado, poderia ter caído no golpe. Cabe até uma reflexão, pois dei meu telefone para várias pessoas no hospital, com a finalidade de que pudessem me achar rápido. Acaba que não sabemos para quem estamos entregando nosso telefone.”
Depois de identificar a tentativa de golpe, no ato da internação, o Hospital e Maternidade Therezinha de Jesus adotou como medida alertar verbalmente todos os pacientes e seus acompanhantes sobre o crime, além de ter incluído o alerta nas normas de acompanhante que são entregues na admissão do paciente. Ainda segundo o HMTJ, a instituição desenvolve o projeto Bate-papo com o Acompanhante, no qual são realizadas duas reuniões por semana, fazendo a abordagem do assunto. O hospital disponibilizou placas em todos os andares, informando que a unidade é 100% SUS, ou seja, o atendimento é totalmente gratuito.
Ainda como aponta o HMTJ, paciente e acompanhantes têm sido orientados a registrar boletins de ocorrência, a fim de ajudar nas investigações policiais. Com o objetivo de proteger ainda mais seus pacientes, a instituição reforçou com médicos e funcionários a proibição de se passar quaisquer informações sobre os pacientes, tendo, inclusive, durante reunião do Conselho de Secretários Municipais de Saúde (Cosems), alertado os participantes sobre os golpes. Os hospitais Doutor João Felício e Santa Casa também adotaram medidas de segurança, quando tiveram pacientes na mira do golpe.
Inquérito apura qual a origem dos golpes
A constância dos casos já é sinônimo de preocupação para o Conselho Regional de Medicina (CRM), que tem debatido o tema em reuniões em Belo Horizonte. De acordo com o médico e delegado do CRM, José Nalon de Queiroz, há registro deste tipo de golpe em diversas cidades do estado. Segundo ele, não se tem notícia de envolvimento de médicos no crime, caso contrário caberia uma ação do Conselho. Nalon alerta que um profissional jamais lança mão de um telefonema no caso de intervenção necessária a um paciente. “Ele chama no consultório ou no serviço público onde atende, para explicar se há algum tipo de necessidade financeira para o paciente”, ressalta o delegado. O profissional ainda acrescenta que as pessoas jamais devem ceder sem fazer contato com a instituição na qual está hospitalizado seu familiar. “É preciso atentar para o fato de que, no caso de pacientes internados pelo SUS, toda a assistência é coberta pelo sistema.”
O delegado Eduardo de Azevedo Moura, titular da 1ª Delegacia Distrital, é o responsável pela investigação dos casos, que estão concentrados em um único inquérito. Segundo ele, diversas testemunhas já foram ouvidas, mas ainda não há a identificação de um suspeito ou de um grupo responsável por cometer o estelionato, que já lesou famílias financeiramente e deixou outras assustadas. “O que nos chama a atenção é que nem sempre é o mesmo hospital e nem sempre são as mesmas informações dadas pelo estelionatário. Às vezes, se identifica como funcionário do hospital, outras como médico. Existem casos de vítimas que não querem se envolver porque o crime não se consumou. A gente parte do princípio de que só a aglutinação de informações vai ser útil para desvendar o crime”, afirma o delegado, que não confirmou quantos casos estão em investigação.
Ele pede que as pessoas que tenham passado pelo golpe procurem a delegacia de São Mateus, independentemente da instituição onde tenha ocorrido. “Temos hospitais em várias áreas da cidade e só vamos conseguiu localizar o criminoso concentrando as informações. Estamos tratando o inquérito de forma reservada em respeito às famílias, pois muitos pacientes ainda estão internados. Em segundo, para vermos a extensão do crime, para saber de onde vem sendo liberada as informações sobre os pacientes, se de dentro do hospital, se de uma pessoa que entrou lá e teve acesso. A orientação é não acreditar nestes telefonemas. No caso de recebê-lo, deve-se procurar o hospital antes de fazer o depósito.” Para informações sobre o golpe, as vítimas devem procurar a delegacia, que fica na Rua Morais e Castro 540.

