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Jogo do bicho continua ativo em Juiz de Fora

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Enquanto a Assembleia de Minas, as corregedorias das polícias mineiras e a Polícia Civil investigam o envolvimento de policiais de Juiz de Fora com a máfia do jogo do bicho e a exploração de máquinas caça-níqueis, a contravenção continua acontecendo às claras no Centro. Ontem a Tribuna percorreu ruas centrais e encontrou pelo menos 21 bancas de jogo do bicho funcionando, todas identificadas com placas referentes a loterias, como se fosse um comércio legalmente estabelecido. Uma criança circulava em meio aos apostadores em uma das lojas. Em outras, PMs foram vistos nas imediações, sem fazer abordagens aos contraventores. A reportagem conseguiu, com apostadores, canhotos de apostas realizadas nessas áreas. Nos papéis, cada ponto de jogo do bicho é identificado por um número, um deles maior do que 500. Desta forma, a numeração sugere que realmente existem centenas de bancas pela cidade.

Dos locais mapeados pela Tribuna, a Avenida Getúlio Vargas concentra o maior número de bancas abertas, oito, sendo sete instaladas estrategicamente do lado da via em que ficam os pontos de ônibus. A jogatina costuma ser protegida apenas por biombos, que não escondem a contravenção. Outras vias, como Halfeld, Floriano Peixoto, Espírito Santo, além de galerias, também abrigavam os imóveis que realizam as apostas. Na maioria dos casos, são pequenas lojas, com pouco mobiliário. Nas paredes, estão disponibilizados os resultados dos jogos, que correm três vezes ao dia.

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Esse mercado movimenta pelo menos R$ 1,5 milhão por mês em Juiz de Fora. O dinheiro é transportado diariamente por pessoas, cuja função é especificamente essa, e levado possivelmente para um imóvel no Centro. Os sorteios são realizados no Rio de Janeiro, e os resultados transmitidos a Juiz de Fora por telefone.

Combate

Por meio de nota, o chefe da 1ª Delegacia Regional de Polícia Civil, Marcus Vinícius de Paiva, informou que o recém-criado Núcleo de Ações Operacionais tem a função de combater, entre outros crimes, os jogos de azar, o que já foi feito quatro vezes em menos de um mês de funcionamento do núcleo. As pessoas flagradas nesses locais foram autuadas pelo crime de descaminho. "O real objetivo da Polícia Civil é a identificação de todos os envolvidos nos esquemas de jogo do bicho e de caça-níqueis, principalmente dos proprietários, a fim de subsidiar a instauração de inquérito policial que possibilite a responsabilização destes em crimes como formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e outros que proporcionem o eficaz combate às práticas ilegais."

O comandante da 4ª Região da PM, coronel Ronaldo Nazareth, também afirmou que a corporação tem feito operações de combate aos jogos. "Só em 2011, apreendemos mais de 700 caça-níqueis." Sobre a forma escancarada como as bancas funcionam, ele ponderou: "Muitos colocam (as lojas) como loteria. Para configurar a contravenção, tem que ter todo o material (do jogo). Às vezes, tem o ambiente, o espaço (caracterizado), mas não tem nada (de ilícito)", disse, lembrando só poder agir em caso de flagrante. O coronel também alegou ser difícil extinguir por completo a modalidade. "Jogo do bicho e caça-níquel são iguais ao tráfico: enquanto houver jogador, vai continuar tendo. Estamos atuando de forma incisiva esses anos todos; não existe tolerância nisso." As denúncias podem ser feitas pelo telefone 181.

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Corrupção policial

O defensor público e professor da Faculdade de Direito da UFJF, Luiz Antônio Barroso, considera uma afronta o funcionamento irrestrito dos jogos. O especialista classifica como "gravíssimas" as denúncias de envolvimento de policiais. Na visão dele, o fato de o Estado não regularizar ou proibir de vez o jogo, mas deixar a contravenção num campo mais intermediário, favorece a corrupção policial, uma vez que "autoridades públicas acabam aproveitando esse espaço para tentar receber alguma coisa em troca do livre funcionamento dessas práticas".

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Filho de delegado também é citado nas denúncias

O nome do filho de um delegado da Corregedoria da Polícia Civil de Minas Gerais também aparece nas denúncias de corrupção. A citação a ele, identificado como Rominho, está presente no Inquérito Policial Militar (IPM), cuja cópia a Tribuna teve acesso. A denúncia foi feita por um policial militar, que contou, em depoimento no dia 4 de outubro de 2011, que o filho do delegado teria sido detido por causa da apreensão de cerca de 40 caça-níqueis em um endereço no Centro. O denunciante afirma que este proprietário zombava das operações policiais de combate ao caça-níquel, dizendo: "Não tenho com o que me preocupar, pois tenho o controle de informações via policiais militares."

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Conforme o denunciante, tais policiais eram recompensados financeiramente pelo proprietário do estabelecimento. Diante dessas informações, o denunciante determinou que dois soldados checassem o fato na tal loja. Segundo a acusação, quando os caça-níqueis foram descobertos e o proprietário encaminhado à delegacia, o caso, em vez de ficar no plantão, como de costume, foi entregue a um Grupo Tático Operacional (GTO), causando estranheza. Um detetive integrante do GTO teria levado o suspeito preso e o dinheiro apreendido para o delegado titular do grupo, (Fernando) Camarota. Na delegacia, mais de uma hora teria se passado sem que fosse dada satisfação aos policiais responsáveis pelo flagrante. Então, o denunciante solicitou ao detetive uma posição sobre o que seria concluído, momento em que o detetive fez uma ligação telefônica e disse que o preso seria liberado, pois era filho de um delegado da Corregedoria da Polícia Civil mineira. Ainda durante a ação, o suspeito teria dito que jamais havia imaginado que alguém entraria em sua loja da forma como ocorrera, para prendê-lo.

Depoimentos

O deputado estadual Sargento Rodrigues (PDT), que protocolou o pedido de abertura da CPI, informou que segunda-feira mais dois policiais militares, que teriam acusações sobre a participação de policiais com o jogo do bicho e caça-níqueis, serão ouvidos.

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Policiais continuam nos cargos

Ontem surgiram rumores de que os militares citados nas denúncias, major Renato Sampaio Preste, comandante da 4ª Companhia Independente de Meio Ambiente e Trânsito, e capitão Yoshio Yamaguchi, à frente da 135ª Companhia (Zona Sudeste), teriam sido transferidos de seus cargos. No entanto, o comandante da 4ª Região da PM, coronel Ronaldo Nazareth, afirmou que não aconteceram mudanças. "Os dois permanecem, porque, até agora, só temos denúncias. Nada está comprovado. Eles continuam em suas funções, e não olhamos sobre essa questão, porque estamos aguardando o resultado das apurações. Temos que apurar em todas as instâncias possíveis."

Sobre a possibilidade de as suspeitas arranharem a imagem da corporação, o coronel foi enfático: "A PM não compactua com qualquer tipo de ilegalidade ou desvio de conduta." O comandante explicou que as denúncias já estavam sendo apuradas pela corporação desde o início do ano e que elas surgiram durante um Inquérito Policial Militar (IPM) feito em 2011, instaurado para apurar outra questão. "Durante o procedimento (antigo) houve essa nova denúncia. O que temos, até agora, é a fala de um militar, e está em fase de apuração com a Corregedoria. A PM vai ser transparente a todo momento e divulgar oportunamente. Por enquanto, não podemos fazer qualquer tipo de comentário."

O chefe da assessoria de comunicação organizacional da PM em Minas, major Marcone de Freitas Cabral, disse que não está prevista a vinda de membros do alto comando para acompanhar a situação na cidade. Segundo ele, a intervenção no município é feita pelo coronel Ronaldo Nazareth. Ontem, o comandante geral da PM em Minas, coronel Márcio Martins Sant’Ana, e o chefe do Estado Maior da PM, coronel Divino Pereira de Brito, foram agraciados com a Medalha do Mérito Legislativo, na Câmara Municipal de Juiz de Fora.

O comandante da 135ª Companhia da PM, capitão Yoshio Yamaguchi, reafirmou ontem que seu nome não foi citado no Inquérito Policial Militar (IPM) presidido por ele, onde figurava como um dos envolvidos o policial que fez denúncias à Assembleia. "Ele (policial), em nenhum momento, me dissera que iria citar meu nome como envolvido em nenhuma situação de corrupção policial, nem antes de ter prestado suas declarações, nem durante e nem posteriormente. Em nenhum momento, o policial apresentara suspeição ou impedimento relativo a minha situação enquanto responsável pela apuração. As declarações do policial foram realizadas na presença de duas testemunhas que assinaram juntamente com ele o termo."

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