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Igrejas assumem cura de dependentes

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Por meio da fé, H. largou o crack e reconquistou sucesso na carreira como cabeleireiro e maquiador
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Por meio da fé, H. largou o crack e reconquistou sucesso na carreira como cabeleireiro e maquiador

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A batalha de H. contra as drogas não terminou quando ele fumou sua última pedra de crack, há dois anos. Atualmente, aos 26, ele se dedica a auxiliar outros dependentes químicos que se preparam para ingressar na Fazenda da Esperança, da Arquidiocese de Juiz de Fora, no município de Guarará, onde H. conseguiu superar o vício. A busca da recuperação por meio da fé é o tema da segunda reportagem da série que a Tribuna traz sobre o crack.

O jovem saiu de Juiz de Fora aos 17 anos buscando a tão sonhada liberdade. Foi para São Paulo, mesmo tendo sido aprovado no vestibular da UFJF. Em pouco tempo, estava empregado, com apartamento e carro próprios e rendimentos mensais em torno de R$ 8 mil. Frequentador assíduo de festas na capital paulista, o rapaz se destacava como cabeleireiro e maquiador, tendo inclusive prestado serviços para empresas internacionais. Seria a história de sucesso de um menino que, na infância, acompanhava os pais nos parques de diversões em feiras agropecuárias nas quais a família comercializava doces. Mas a trajetória de H. não foi tão tranquila.

"Meu pai era alcoólatra. Em casa, convivi com a violência." O primeiro gole de bebida veio aos 9 anos. Tragou o primeiro cigarro no ano seguinte e, aos 12, teve contato com maconha e cola de sapateiro. "Passava a maioria do tempo na rua, pois era muito difícil conviver com a violência em casa." Aos 15, o então adolescente já tinha contato com a cocaína. "Aos 17, fui para São Paulo tentar minha liberdade. Foi quando conheci o crack e fiz uso durante sete anos. Nos últimos três anos lá, me afundei e comecei até a perder o sentimento de família e os laços que ainda mantinha em Juiz de Fora."

Numa tentativa desesperada de resgatá-lo das ruas, familiares aceitaram a condição imposta pelo rapaz e permitiram que ele consumisse crack dentro do carro, na viagem de volta a Juiz de Fora. Chegou aqui pesando 54kg – muito abaixo dos atuais 86kg – disposto a buscar um novo começo e a se livrar da aparência cadavérica. Fraquejou na primeira tentativa. "Dois meses depois, começou tudo de novo, e entrei na cocaína e no tráfico. Mais dois meses, e mergulhei novamente no crack. Chegou uma hora em que não aguentava mais, queria me libertar. Há dois anos, decidi parar. Precisei ser humilde e pedir ajuda." Desta vez, o sucesso falou mais alto. "Hoje vivo com minha família. Refiz os laços com todo mundo, e meu pai não é mais alcoólatra. Retomei a minha profissão, e minha clientela aumenta. O que também me ajudou muito foi o esporte."

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Vontade própria

Para ingressar na Fazenda da Esperança, H. precisou de força própria. O primeiro passo é frequentar um grupo preliminar e escrever uma carta de próprio punho demonstrando vontade de se tratar. "A recuperação se dá pela prática da palavra. Todo dia retiramos uma frase do Evangelho e vivemos na realidade, por meio dos atos de amor, ou seja, fazer para o outro aquilo que eu quero para mim."

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Índice de até 80% de recuperação

Iniciativas de cunho religioso têm sido a solução encontrada por muitas famílias de dependentes. Por parte da Igreja Católica, a Fazenda da Esperança abriga hoje 27 recuperandos na unidade masculina de Guarará, sendo 20 juiz-foranos. Dois anos após a inauguração, a fila de espera tem 115 pessoas. Para ingressar, é necessário pagar três salários mínimos, no entanto, a estrutura é autossustentável, pois, no período de 12 meses de internação, os integrantes comercializam o que produzem na horta e nas fábricas de artesanato e laticínios. "Nesse trabalho, produzimos, todo mês, uma cesta, no valor de um salário mínimo, que a família do recuperando compra", explica o responsável pelo local, Ítalo Márcio Calmon Fayad. Com a metodologia baseada no tripé trabalho, convivência e espiritualidade, a fazenda alcança índice de recuperação de até 80%, sem recorrer a tratamentos clínicos.

Já na Comunidade Terapêutica Geração de Adoradores, no Bairro Santa Cruz, ligada à Comunidade Evangélica de Benfica, os 22 recuperandos recebem acompanhamento psicológico nos nove meses de internação. Baseado na "cristoterapia", o tratamento custa R$ 500 mensais, e o índice de recuperação gira em torno de 30% a 35%. "Não obrigamos ninguém a ser cristão ou crente, mas ensinamos os passos de Cristo, ou seja, amar a Deus acima de todas as coisas e a teu próximo como a ti mesmo", explica o pastor Cláudio Luis Carvalho.

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O psiquiatra Mário Sérgio Ribeiro, responsável pelo Laboratório de Pesquisa em Personalidade, Álcool e Drogas da UFJF, acredita ser possível a cura sem medicamentos ou acompanhamento profissional. "Todas as pesquisas indicam que há um bom número de pessoas que consegue se reequilibrar sem ajuda de especialistas. Se existe essa possibilidade, não há porque não usá-la." Já o psicoterapeuta Dionísio Banaszewski acredita que religião não pode ser encarada como único fator de recuperação. "A religiosidade é apenas um dos componentes da nossa psique. Ela certamente ajudará, mas o dependente químico não é dependente porque quer. Ele é portador de uma doença."

Pesquisa

Estudo realizado pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), avaliou o tratamento de 85 ex-usuários que utilizaram recursos religiosos para tratar a dependência e estavam abstinentes há pelo menos seis meses. A pesquisa concluiu que, além da fé, o que contribuiu para o sucesso foram o suporte, a pressão positiva e o acolhimento recebido no grupo, além da oferta de reestruturação da vida com o apoio incondicional dos líderes religiosos. "Os evangélicos foram os que mais utilizaram a religião como forma exclusiva de tratamento. Os espíritas foram os que buscaram mais apoio terapêutico à dependência de álcool, simultaneamente ao tratamento convencional. Os católicos utilizaram mais a terapêutica religiosa exclusiva, mas relataram menos repulsa a um possível tratamento médico", conclui o trabalho.

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