As ações de arrombamentos em sequência nos estabelecimentos comerciais do Bairro Alto dos Passos, na região Sul, levam indignação a comerciantes e insegurança para a população. O último caso aconteceu na quarta-feira, quando um caixa eletrônico instalado ao lado de um shopping, na Rua Morais e Castro, foi danificado durante a madrugada por dois homens, que fugiram com uma quantia de dinheiro não informada. Antes disso, uma pizzaria chegou a ser arrombada quatro vezes em três semanas. Em todas elas, os suspeitos entraram no imóvel pelo telhado. Também há registros de cinco arrombamentos nos últimos nove meses em um bar, na Rua Severino Sarmento. Além destes crimes, cenas de vandalismo são registradas na área. Na semana passada, um jovem de 22 anos foi detido, suspeito de quebrar a vitrine de uma loja de roupas e calçados no shopping do bairro.
Preocupados com a situação, comerciantes se reuniram com a Polícia Militar, na última semana, para cobrar maior policiamento durante as madrugadas, já que os crimes estavam ocorrendo entre 1h e 6h. Também no encontro, denunciaram a ocupação das ruas pelos flanelinhas. De acordo com os empresários, clientes reclamam que são intimidados pelos guardadores, que estariam se comportando como "donos da rua". Na ocasião, o comando da PM disse aos comerciantes que o provável abuso de flanelinhas e o crescente número de crimes seriam combatidos com um policiamento ostensivo e a utilização de uma base comunitária móvel, que já está no local.
Alarme e cerca elétrica
O último arrombamento na pizzaria, que fica na esquina das ruas Machado Sobrinho e Severino Sarmento, aconteceu há cerca de dez dias. Segundo a empresária Gilmara Delgado Rocha, 30, após a última ação, ela e o marido resolveram investir na segurança do casarão. "Gastamos cerca de R$ 12 mil em sistema de alarme e cerca elétrica." Ela informou que, em apenas duas ocasiões, a perícia técnica pôde ser acionada. "O primeiro crime ocorreu entre os dias 21 e 22 de dezembro. Chamamos a PM para registrar o boletim de ocorrência, mas eles não compareceram. A segunda vez foi na madrugada do dia 27, por volta de 2h20. A PM esteve no local, e três policiais entraram no estabelecimento, também pelo telhado, antes da nossa chegada. Por este motivo, a Polícia Civil alegou que não poderia haver perícia, já que a cena do crime havia sido violada." Neste dia, os suspeitos fugiram com R$ 1.400 em cédulas de R$ 50 e R$ 100 e quatro garrafas de vinhos. A penúltima investida dos criminosos ocorreu na madrugada do dia 4, quando foram furtados um celular, dois carregadores e R$ 10. Outro caso, conforme a empresária, ocorreu dois dias depois. "No dia 6, pegaram dois energéticos e fugiram." Todas as ações foram flagradas pelas câmeras de segurança de um comércio vizinho.
Já o estabelecimento de Edson Ferreira Coelho, 44, arrombado cinco vezes, foi invadido pela última vez há duas semanas. "Eles sempre fazem a maior bagunça quando entram. Levam tudo que encontram." Para tentar diminuir o número de ocorrências, a PM implantou, no bairro, a Base Comunitária Móvel (BCM). Todos os dias, a partir das 18h, um posto da polícia está sendo deslocado para a região, ficando cada dia em um ponto. "Estamos atendendo ao pedido destes comerciantes. Além da base, haverá ronda durante toda a madrugada, com o Patrulhamento de Prevenção Ativa, e a implantação de policiais em bicicletas durante o dia, para evitar os roubos e furtos no comércio."
A Tribuna solicitou à PM o número total de ações criminosas que ocorreram no bairro nos últimos meses. No entanto, foi informada que apenas a Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds) poderia disponibilizar as estatísticas. Esta, por sua vez, disse não ser possível estratificar o número de crimes por região.
Conforme o comandante da 32ª Companhia da PM, capitão Ricardo Schafer, responsável pela região Sul, no último dia 9, um suspeito de arrombamentos foi preso no Alto dos Passos. Ele teria sido apontado por comerciantes como responsável pela série de crimes na região. Já sobre o arrombamento ao caixa eletrônico, esta semana, afirma se tratar de outros suspeitos. "Eram pessoas preparadas, porque nem o alarme do equipamento foi disparado."
Intimidação nas ruas durante a noite
Na opinião de empresários e de moradores, a população se sente coagida nas madrugadas, devido à falta de policiais suficientes e à movimentação de flanelinhas que atuam na área. Para a presidente da Associação de Moradores do Alto dos Passos, Ruth Savino, "os flanelinhas se tornaram os donos do bairro". "Eles comandam a área. Se sentem impunes porque, na madrugada, o policiamento é precário." Ruth diz que as reclamações de falta de segurança têm aumentado não só por parte de comerciantes, como, também, de moradores.
Segundo o empresário Juliano Botti, entre dez e 15 guardadores trabalham nas ruas, e a reclamação de seus clientes, que se sentem desprotegidos, é constante. "Até minha esposa já foi ameaçada por eles. A sensação de insegurança é grande." Quem também relata ameaças é o proprietário de um bar que vende comida japonesa, Alessandro Resende. "Eles intimidam todos na rua, principalmente mulheres. Acho que falta ação mais séria da polícia nas madrugadas."
De acordo com o comandante da 32ª Companhia de Polícia Militar, capitão Ricardo Schafer, a resolução dos transtornos envolvendo os flanelinhas depende da ação de outros órgãos. "É um caso complexo porque, geralmente, estão envolvidos com drogas. São dependentes químicos. Eles pedem dinheiro para usar entorpecentes." Conforme o capitão, a PM só pode agir contra eles quando uma denúncia é realizada. Ele orienta que moradores, comerciantes e clientes acionem o 190 ou procurem a base comunitária móvel sempre que forem intimidados ou ameaçados.
O vereador José Sóter de Figueirôa (PMDB), que, no ano passado, participou de uma comissão especial para discutir o assunto, disse que a proposta da Câmara Municipal é tirar das ruas aquelas pessoas que precisam ser ajudadas, como os usuários de drogas, e dar oportunidades a elas, como auxílio e capacitação profissional. Para isso, seria necessário identificar maneiras de criar políticas sem ônus aos cofres públicos. Uma reunião com a Prefeitura, na segunda quinzena de fevereiro, tem como objetivo discutir o assunto.
Para o cientista político e coordenador do Núcleo de Estudos sobre Violência e Política de Controle Social, André Gaio, os problemas envolvendo flanelinhas no Bairro Alto dos Passos ocorrem porque a área não foi planejada para aquele fim. "As áreas de estacionamento são poucas e caras. Acredito que falta uma ação mais efetiva do Poder Público."
Debates sem solução para a área
Empresários que atuam na região criaram uma lista com sugestões para tentar reduzir a criminalidade no bairro. Entre elas está a criação da Área Azul noturna. Segundo o vereador José Sóter de Figueirôa (PMDB), a questão do estacionamento rotativo foi discutida durante os trabalhos da Comissão dos Flanelinhas, contudo, os representantes da sociedade e vereadores não chegaram a um consenso. "Particularmente, sou favorável, porque poderia coibir a ação dos flanelinhas. Mas o assunto é muito polêmico e dificilmente será discutido, a curto prazo, na Câmara Municipal."
A Settra, por meio da assessoria de comunicação, disse que o tema já foi estudado pela pasta, mas teria sido concluído que falta viabilidade para colocar o projeto em vigor. A secretaria apontou três motivos: o preço da mão de obra noturna (que seria mais caro e tornaria o valor repassado aos motoristas pouco atraentes), dificuldade em fiscalizar, "já que uma grande oferta de agentes de trânsito deveria ficar locada apenas em uma pequena área para fiscalizar o estacionamento rotativo pago", e a dificuldade em estabelecer um tempo de permanência nas vagas. Na opinião da secretaria, o movimento e a necessidade no Alto dos Passos são diferenciados.
