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‘Autoestima chega a zero’: diagnóstico do câncer de mama afeta saúde mental e reforça necessidade de apoio

‘Autoestima chega a zero’: diagnóstico do câncer de mama afeta saúde mental e reforça necessidade de apoio

Foto: Freepik

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“É um choque na hora que a gente fica sabendo”, afirma uma leitora – que preferiu manter a identidade em anonimato – sobre o momento em que recebeu o diagnóstico de câncer de mama, aos 42 anos. Ela conta que fazia exames preventivos com regularidade desde que se tornou necessário e sempre foi muito atenta a isso. Em 2020, devido à pandemia, deixou de fazer pelo medo de sair de casa; em maio de 2021, recebeu a notícia de que o carcinoma já estava em tamanho considerável, de cerca de 6 centímetros, e era agressivo. Além de toda a preocupação natural com a saúde física, a parte emocional também foi afetada. A experiência da leitora é o ponto de partida da terceira matéria da série especial do Outubro Rosa da Tribuna, publicada aos domingos de outubro, que vai discutir diferentes aspectos do câncer de mama – desde o diagnóstico até os impactos emocionais e sociais da doença.

“Como eu ainda não havia passado pela situação, achei que teria força suficiente para vencer aquilo. Mas durante o caminho é um verdadeiro sobe e desce. Eu tinha medo de morrer duas vezes: pela pandemia e pelo câncer”, relata. As questões psicológicas a partir do diagnóstico têm relação com a parte física: com a queda de cabelo e demais pelos corporais, por exemplo, a partir do tratamento, a autoestima cai junto. “Eu já fui me preparando: tinha o cabelo lá na cintura e cortei chanel para começar. É uma situação bem ruim, ainda mais para nós, mulheres.”

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Ainda acrescenta que a autoestima “chega a zero”. “Eu não me sentia bem, principalmente no pós-quimioterapia. A gente fica mais sensível. Inclusive, uma dica para quem acompanha pacientes oncológicos: cuidado com as palavras. A gente sabe como é, mas não queremos ficar ouvindo”, alerta. Para se manter saudável mentalmente, contou com o apoio do enteado. “Eu gostava de ficar perto dele, porque me fazia esquecer. Parece bobagem, mas essas coisas impactam de uma forma diferente.” A leitora também fazia terapia e tomava medicação também para regular o humor. “A gente fica bem triste, mais depressiva”, completa.

A manicure Lenira Rodrigues recebeu o diagnóstico aos 43 anos e também diz que seu psicológico foi afetado no momento: “parece que abre um abismo na nossa frente”. Entretanto, ela afirma que isso durou apenas um dia. “Meu alto astral e otimismo me faziam ter certeza de que tudo ia dar certo.” Além de quimioterapia e radioterapia, foi necessária uma mastectomia total. No caso dela, o desejo de “tirar o mal de dentro do corpo” sobressaiu aos abalos estéticos, que afetam um alto número de pessoas.

Após a alta da doença, Lenira tentou fazer reconstrução da mama durante um tempo – com dificuldades. Contudo, quando conseguiu concluir o procedimento, não foi bem sucedida, devido às marcas na pele causadas pelo alto número de sessões de radioterapia. “Vida que segue”, destaca a mulher sobre a situação. “Tive muita ajuda no processo: meus filhos e meus amigos, principalmente. Mas sempre enaltecendo meu alto astral e meu bom humor. Em nenhum momento fiquei abalada, mesmo com os efeitos colaterais.”

A professora Fabiane Rossi, do Departamento de Psicologia da UFJF, explica que o diagnóstico de câncer de mama pode gerar impactos emocionais significativos e destaca a importância do suporte psicológico durante e após o tratamento (Foto: Arquivo Pessoal)

Preocupação do diagnóstico ao pós-doença

O diagnóstico de câncer de mama provoca diversos e variados impactos emocionais. Fabiane Rossi, professora do Departamento de Psicologia da UFJF, destaca que eles atingem tanto as pacientes que o recebem como a família e outros envolvidos. “No primeiro momento, é comum acontecer um processo de negação e choque. O diagnóstico, muitas vezes, é recebido com incredulidade. Muitas relatam não acreditar no resultado ou crer que houve erro. É normal para o processo de assimilação no novo momento.”

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O medo da morte é outro impacto ressaltado pela professora, visto que ainda há essa associação direta com a doença. “Existe um tabu muito grande com relação ao câncer. Envolve medo, no geral, do futuro”, enfatiza. Sintomas de ansiedade, atrelados aos tratamentos, aos efeitos colaterais e às próprias mudanças corporais também estão entre as consequências mais recorrentes dentre as pacientes oncológicas. “Sentimentos de depressão e tristeza, falta de esperança. Essa fragilidade e impotência diante do diagnóstico pode gerar diferentes impactos na saúde mental.”

Sob o contexto das alterações no corpo das pacientes e dos estereótipos contemporâneos de beleza, surge, conforme destaca Fabiane, uma característica do câncer de mama (apesar de não exclusiva a este tipo da doença) é a alteração na autoimagem. “Principalmente quando é realizada a mastectomia (cirurgia de retirada da mama), há queda de cabelo e outras mudanças físicas, a autoestima e a feminilidade da mulher podem ser muito afetadas. Elas podem não se sentir mais desejadas por seus parceiros ou parceiras, por exemplo”, cita.

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O isolamento social também é comum no processo. “Mulheres podem se isolar por vergonha, dificuldade em lidar com os olhares alheios a partir de mudanças mais visíveis no corpo. Algumas acabam se afastando do convívio social.” Mesmo com o diagnóstico, a professora ainda afirma que é possível que haja sentimento de culpa, por uma suposta demora para a realização de exames que poderiam evitar a manifestação da doença.

Maneira positiva de enxergar a experiência negativa

Apesar do momento difícil e do sofrimento, Fabiane Rossi acrescenta que, por outro lado, há manifestações que podem ser classificadas como “crescimento pós-traumático”. “É o contrário disso tudo. Muitas mulheres relatam um crescimento pessoal depois do diagnóstico: valorização da vida, redefinição dos papéis e prioridades, fortalecimento espiritual e emocional. Tem esse outro aspecto de retirar algo dessa experiência.” Segundo ela, auxilia no enfrentamento e, a partir disso, começa ter condições de procurar o autocuidado, como a realização de atividades prazerosas, melhorar a alimentação, entre outras atitudes. “Aceitar o processo faz parte.”

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Cuidados com a saúde mental

Durante todo o processo, do diagnóstico ao tratamento e, também, nos momentos posteriores, é fundamental que o suporte emocional seja constante. “Pode-se pensar nisso de várias formas: por meio da psicoterapia individual ou em grupo, por exemplo. A participação em grupos de apoio também pode ser muito importante, para promover o contato com outras mulheres que passam pela mesma experiência”, cita Fabiane. Contudo, não necessariamente a pessoa diagnosticada irá precisar de ajuda especializada. A professora reforça a importância do apoio de ciclos familiares, de amigos e outras redes para auxiliar no enfrentamento da doença.

Enquanto a pessoa está no momento de tratamento, todo o investimento dela se dá em torno disso, como explica Fabiane. Entretanto, a partir da alta hospitalar e da retomada das atividades, também é necessário o suporte. “É uma retomada da vida, mas com marcas físicas e emocionais. Não é um processo simples. Existe uma característica importante nesse momento: o medo da recidiva, que é o retorno da doença. É um momento feliz, mas que a mulher precisa ficar atenta a esse ‘fantasma’.”

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