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Vidas dedicadas a uma causa

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“A história é antiga. Eu era uma criança, e hoje tenho 50 anos. Resgatei o primeiro cachorro quando eu tinha 13 anos. Claro que nessa época eu não era uma “protetora”, era só uma menina que amava os bichos, todos. Os animais são a expressão mais pura do desinteresse e do afeto sincero.” A história é de Jussara Araújo, professora da Faculdade de Direito da UFJF e presidente da Associação Vida Protegida (Avip-JF). Apaixonada por animais, ela resolveu aplicar esse amor em forma de ajuda. Hoje são 11 cães em casa, “fora os da ONG”, que são mantidos em uma hospedagem paga. Da mesma forma que Jussara, muitos juiz-foranos dedicam suas vidas ao trabalho voluntário com animais, o que exige tempo, dinheiro e renúncias.

A professora Márcia Ribeiro, 53, atende a reportagem da Tribuna e, sem precisar falar nada, entendemos seu trabalho. No colo, um gatinho com apenas três patas – o Coé. Ao lado, o simpático Benjamin, um cão da raça boxer com 11 anos de idade. Por fim, orelhas felinas surgem por trás da porta e, ao perceberem que foram avistadas, logo somem. “São todos resgatados”, diz orgulhosa. Há 20 anos, Márcia se comoveu com o pedido de ajuda no jornal feito por uma entidade de proteção animal. Ligou e adotou sua primeira vira-latas, Bambi, retirada das ruas com várias queimaduras de cigarro pelo corpo. A partir daí, foram mais de 300 acolhidos, entre cães e gatos, que são tratados, esterilizados e encaminhados para a adoção. “Quando fui ao abrigo, as histórias de sofrimento daqueles animais me tocaram. Eu senti que deveria fazer algo por eles.”

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Com os recursos escassos – a verba sai do próprio bolso ou das poucas doações que recebem – , os protetores, independentes ou agrupados em instituições, atuam como verdadeiros heróis para os bichos. Sacrificam-se para garantir que seus protegidos tenham seus direitos preservados e melhores condições de vida, bem longe das ruas. O motivo é simples: “É a compaixão que move nosso trabalho”, explica Paulo Medeiros, técnico em telecomunicações, 62, vice-presidente da ONG Animal & Natureza. E o gesto, segundo eles, não é apenas altruísta, é também em benefício próprio. A veterinária Neísa Teixeira, 55, confirma: “É extremamente prazeroso saber que posso intervir para melhorar o destino de um animal, que seja apenas um, mas me faz muito bem, ajudar faz bem.”

Cães, gatos, cavalos, entre tantos outros, são vítimas constantes de abuso e descaso. “O ser humano está perdendo seu valor essencial, o respeito pela vida, fere e mata seus semelhantes, imagina do que são capazes de fazer aos animais”, analisa Jussara. Nas redes sociais, onde a causa ganha voz e mais adeptos, são constantes os relatos de agressões, acidentes em vias públicas e abandono. “As pessoas acham que os protetores não gostam de gente, não é isso. Ficamos com ressalvas, pois são muitas atrocidades cometidas”, completa Neísa.

 

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Canil

Na cidade, o número de apreensões de cães pelo Demlurb, conforme o Canil Municipal, chega a cinco por dia. Só lá, são 450 cães aguardando a oportunidade de irem para novos lares. Segundo a médica veterinária responsável pelo local, Liza Helena Ramos Nery, a maioria tem ou teve proprietários. “Eles não são de rua. Donos irresponsáveis os deixam soltos ou simplesmente os descartaram.”

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O foco dos protetores é atacar a raiz do problema para que não sejam necessárias medidas emergenciais, como resgates. Para isso, além da esterilização, a atuação é voltada para a conscientização sobre o respeito e os cuidados com os animais. “Vejo a educação como solução. Ensinar desde cedo que um animal deve ser bem tratado, formaria cidadãos melhores e reduziria as crueldades”, diz Márcia. Para Paulo, adoção, punições rígidas para quem maltrata e posse responsável reduziriam os problemas “no trabalho que, às vezes, parece sem fim”.

Redes sociais funcionam como aliadas

Apesar do orçamento limitado, os protetores retiram das ruas animais em situação de risco, doentes e feridos. Eles são encaminhados ao veterinário para que sejam feitos os tratamentos necessários e a castração – cirurgia para retiradas das gônadas (ovário ou testículos) que, além de evitar crias indesejadas e mais possíveis abandonos, previne doenças, como o câncer. Após a recuperação, são disponibilizados para a adoção, que pode ser rápida, levar meses ou não acontecer, ficando o animal e seus gastos sob a responsabilidade do protetor. “Eu queria ser normal”, diverte-se a veterinária Neísa Teixeira, ao falar do seu dia a dia. “Mas é algo inconsciente, quando vejo, já fiz. O curioso é que saio com pessoas que não são ligadas à causa, elas realmente não veem nada. Eu vejo um cachorro ali sentindo fome, outro com sarna, e por aí vai. É uma profissão sem férias.” Segundo a presidente da Associação Vida Protegida, Jussara Araújo, a questão da punição aos crimes contra animais está ganhando espaço na sociedade, mas poucos se comprometem. “Pena, muitos têm. Mas atitude, é rara”.

Conquistas

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Nas redes sociais, os protetores pressionam o Poder Público, mostram a realidade do animal de rua e fazem campanhas, especialmente de adoção. Para Paulo Medeiros, vice-presidente da ONG Animal & Natureza, os políticos estão mais atentos à causa porque a população está entendendo que a situação desses animais é um caso que precisa ser resolvido. “Hoje os políticos respondem mais, porque reclamações e reivindicações se alastram rapidamente na rede.”

A solicitude, ainda de acordo com Paulo, melhorou a partir da implementação do programa de castração gratuita, oferecido pelo Município desde 2012. Outra demanda atendida foi a criação da Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente e Animais, anunciada em junho, que irá trabalhar em parcerias com a iniciativa privada, ONGs, Prefeitura, entre outros, focando na prevenção para obtenção de resultados mais efetivos. A pressão popular também favoreceu a implantação de leis que defendem os bichos, entre elas a proibição dos rodeios e de circo com animais na cidade. Foram campanhas massivas na internet, panfletagem e cobranças constantes ao Legislativo e Executivo.

Quanto às próximas batalhas, eles pedem que seja sancionada a lei que proíbe as carroças no perímetro urbano, a castração gratuita estendida a machos e felinos, hoje só fêmeas são operadas, e a liberação da unidade móvel de esterilização, que possibilitará atendimento mais amplo em bairros distantes do eixo central.

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