Os trabalhos de construção da nova estrada que vai ligar a rodovia BR-040 até a localidade de João Ferreira, no município de Coronel Pacheco, tiveram início este mês. O novo traçado, de 13,8 quilômetros, tem como objetivo unir o Aeroporto Regional da Zona da Mata diretamente à malha federal, obra considerada essencial para garantir o escoamento das cargas previstas para embarcarem e desembarcarem no parque aeroportuário. A obra também ganha importância porque existe a expectativa de a nova via contribuir para a diminuição do fluxo de veículos pesados que hoje utilizam o perímetro urbano de Juiz de Fora apenas como passagem. Para se ter uma ideia, dados da Settra revelam que quase 800 caminhões circulam diariamente na Rua Paracatu, na altura do Bairro Bandeirantes, em direção à MG-353. A secretaria, porém, não sabe precisar quantos têm o município como destino da viagem.
Mais que utilizar o perímetro urbano apenas como acesso a outras estradas, os caminhões contribuem para a formação de retenções no trânsito e para o desgaste prematuro na pintura de sinalização horizontal, como relata a Settra. Na última semana, a Tribuna acompanhou aleatoriamente caminhões que saíam da estrada em direção ao perímetro urbano e observou que, além de vários veículos pesados utilizarem a cidade apenas como passagem, a falta de sinalização vertical eficiente confundiu os condutores, empurrando-os diretamente para o perímetro urbano.
Na manhã da sexta-feira, dia 10 de maio, por exemplo, um caminhão de cargas que saiu de Brasília (DF) fez parada no município de Visconde do Rio Branco e seguiu em direção a Juiz de Fora para alcançar a BR-040 e continuar em direção ao Rio de Janeiro (RJ). No entanto, o condutor se perdeu no trânsito local e acabou provocando diversas retenções. Conforme o motorista profissional Alysson Brandão, 36 anos, esta era a primeira vez que ele entrava no município, e a sinalização existente o induziu a erros. Trafegando entre 20 km/h e 40 km/h, o condutor precisou de exatamente uma hora para sair da MG-353 e chegar até a Estrada União e Indústria, em direção a Matias Barbosa. Ele só conseguiu sair, porém, porque contou com a ajuda da reportagem. Antes foi possível observar diversos pontos de retenções causadas pelo veículo na região dos bairros Grama, Parque Guarani, Bandeirantes e também na Avenida Rio Branco.
O problema maior se deu na Garganta do Dilermando. Apesar de a placa de sinalização no local informar sobre a proibição de subida de veículos pesados, Brandão resolveu seguir outra placa que mostrava ser aquele o caminho para o Rio. "É muito confuso, realmente fiquei sem saber o que fazer. Preocupação maior foi na descida, porque tive dificuldades em controlar o caminhão."
Já na Rio Branco, orientado por outro condutor, o motorista entrou na Rua Agassis, Bairro Mariano Procópio, para alcançar a Avenida Brasil e fugir das vias estreitas e do Mergulhão. Perdido e sem a sinalização eficiente, ele quase retornou à Avenida Rio Branco em direção ao Bairro Manoel Honório.
Abusos
Três dias antes, no fim da tarde de terça-feira, dia 7, a Tribuna seguiu outro caminhão para saber se também usava Juiz de Fora apenas como passagem. Com placa de Patrocínio, no Triângulo Mineiro, o veículo precisou de 55 minutos para chegar ao acesso à BR-040, no Distrito Industrial, em direção ao Rio. Deste tempo, 35 minutos foram utilizados apenas entre a Avenida Juiz de Fora, em frente ao Hospital João Penido e o Bairro Parque Guarani. Em todo o trajeto, diversas situações foram flagradas, como engarrafamentos com mais de 20 carros na altura do Bairro Granjas Betânia e na serra próximo ao Bandeirantes, e até avanço de semáforo em um cruzamento importante, entre a Rua Alencar Tristão e a Avenida Rui Barbosa, no Santa Terezinha.
Não é incomum, no entanto, o tráfego de veículos pesados causar prejuízos para outras regiões da cidade. No início do mês, um caminhão com placa de São Paulo ficou preso dentro do Mergulhão porque sua altura excedia a que era permitida no local. Carretas também foram facilmente encontradas na Zona Sul, como nas avenidas Itamar Franco e Doutor Paulo Japiassu Coelho, no Bairro Cascatinha, vias de acesso à BR-040.
Cidade vive problemas sérios com fluxo de passagem
Segundo o supervisor de Controle de Tráfego em Área (CTA) da Settra, Marcelo Mattos, em uma pesquisa de contagem volumétrica realizada no ano passado, foi observado quantos caminhões circularam pela Rua Paracatu, na altura do Bairro Quintas da Avenida, entre 6h e 20h, em uma dia da semana. A via é utilizada por quem chega ou sai em direção à MG-353. O levantamento foi feito entre terça e quinta-feira. Somente neste período, os fiscais contabilizaram 762 caminhões seguindo em direção à estrada, ou seja, praticamente um por minuto, e outros 624 na direção contrária, entrando na cidade.
A expectativa da secretaria, embora não tenha uma avaliação concreta dos dados, é que a nova rodovia possa resultar em diminuição do fluxo de veículos pesados dentro da cidade. Na avaliação da chefe do Departamento de Engenharia de Tráfego da Settra, Sheila Menini, como consequência da diminuição deste fluxo, a pavimentação instalada em ruas e avenidas, e a pintura da sinalização horizontal poderão ter vida útil ampliadas. "Este trânsito pesado causa um desgaste enorme, principalmente nas vias dos bairros Grama e Santa Terezinha, como a Avenida Juiz de Fora e ruas Paracatu e Alencar Tristão. No caso das pinturas, trabalhos que deveriam durar seis meses sem manutenção são perdidos em três meses, ou até menos."
Sheila avalia o fator segurança como outro a ser beneficiado com a estrada. "Temos problemas sérios causados por este fluxo intenso próximo às escolas no Bairro Grama, ocasionados tanto por caminhões como também por veículos leves. As reclamações são constantes."
Para o assessor de comunicação organizacional da 4ª Companhia Independente de Meio Ambiente e Trânsito Rodoviário (4ª Cia.Ind.Mat), sargento Marcelo Mirandela dos Santos, o fluxo de veículos pesados que entram na cidade por meio da MG-353 deve diminuir consideravelmente, embora ele não saiba avaliar percentualmente quanto esta queda pode representar. O sargento destacou o horário das 8h durante a semana como um período considerado de grande fluxo de caminhões e carretas que, muitas vezes, causam congestionamentos desde a estrada até o Bairro Santa Terezinha, região Nordeste. A partir deste bairro, conforme Mirandela, os caminhões são diluídos no trânsito, pois, daquele ponto, diversos caminhos são possíveis de serem alcançados. "Certamente nem todos os caminhões têm Juiz de Fora como destino. Neste caso, muitos motoristas poderão seguir diretamente pela BR-040. Deve melhorar bastante a fluidez", concluiu.
Via de R$ 51 milhões deve ser concluída em 24 meses
De acordo com informações da assessoria de imprensa do Departamento de Estradas de Rodagem de Minas Gerais (DER/MG), a construção da estrada deve ser concluída em 24 meses, podendo haver adiantamentos ou atrasos devido às condições meteorológicas. Desde o início deste mês, operários e máquinas trabalham em um pasto próximo à BR-040, na altura da Barreira do Triunfo, Zona Norte. O objetivo é cortar um morro que impede a conclusão do traçado proposto da nova estrada até a BR-040.
A licitação pública que selecionou a empresa apta a fazer a intervenção foi realizada em 2008. Na ocasião, a Camter Construções e Empreendimento S/A venceu o pregão com lance de R$ 39,8 milhões. Como a assinatura do contrato e a liberação de recursos por parte do Governo estadual só ocorreu em abril deste ano, houve reajuste monetário de 28% referente ao período. Agora, a mesma empresa receberá R$ 51 milhões para realizar o serviço. O recurso é proveniente do programa "Caminhos de Minas" que, ao todo, prevê investimento de R$ 3,2 bilhões em rodovias do estado, pavimentando 1.955,6 quilômetros.
Esta verba, porém, não inclui as desapropriações necessárias para o corte da via. No fim do mês de abril, a Tribuna percorreu uma estrada vicinal que liga João Ferreira até a Barreira do Triunfo e identificou que a região é composta por inúmeras fazendas e pastos. Segundo o DER/MG, a nova estrada seguirá um caminho semelhante ao existente, mas apenas alguns trechos serão aproveitados. Sobre a utilização das terras, o departamento informou que já existe negociação com os proprietários da área e que este não será um impedimento para a conclusão da rodovia. Isso porque, caso haja algum questionamento sobre os valores pagos, o depósito será feito em juízo.
Especialistas analisam
o traçado
A condição estrutural da nova pista chama atenção por aparentemente não ser compatível com a demanda que será criada na área, embora especialistas garantam a fluidez no novo traçado. Carretas de grande porte irão transitar por uma estrada conhecida como semi-pista, que terá uma faixa de circulação por sentido, de 3,5 metros, com um metro de faixa de segurança (acostamento) em cada lado, com 70 centímetros de rede para drenagem de água pluvial, conforme informações do Departamento de Estradas de Rodagem de Minas Gerais (DER/MG). De acordo com consultores ouvidos pela Tribuna, outros fatores devem ser avaliados para que o aeroporto tenha capacidade plena de funcionamento.
O engenheiro e consultor José Ricardo Daibert, especialista em mobilidade urbana, afirma não conhecer o projeto da nova estrada, mas destaca que a obra deve ser compatível com a importância dada ao aeroporto. "Além do tamanho da estrada, se faz necessário verificar outros detalhes, como o traçado proposto e os respectivos raios de curvas. Posso afirmar que a qualidade do terminal vai depender e muito das condições de acessos. Não adianta em nada fazer um aeroporto equipado se não tiver melhorias ao seu redor. Uma das principais características deste meio de transporte é o tempo. Se o escoamento de cargas e passageiros for comprometido, certamente ele perderá atributos."
O especialista Gustavo Riente, mestre em engenharia de transporte pela Universidade de São Paulo (USP), explica que, para a construção de uma estrada que comporte o tráfego de caminhões de carga, é preciso alguns cuidados. "As decisões políticas não podem se basear no ‘eu acho’ ou ‘eu quero’. É preciso lembrar que existe a engenharia para a realização desse trabalho. Nesse caso, é necessário dimensionar o tamanho da pista em função do tráfego e projetar a geometria – rampas, curvas e sinuosidades- de acordo com os caminhões que irão transitar no local."
Segundo ele, as dimensões da estrada em construção comportariam o fluxo de caminhões de cargas. "Não tenho acesso ao cálculo correto, mas, pelas características da obra, o projeto está adequado. O fato de ser pista simples não se trata de nenhum absurdo", garante. "O aeroporto de Viracopos, em Campinas, possui um trecho de acesso neste modelo, exemplifica."
Dentro do padrão
Já o especialista em transporte e tráfego Arthur Parteniari confirma esta lógica, dizendo que as características da nova estrada estão de acordo com as resoluções nº 210 e 211 do Contran, que regulamentam a circulação de caminhões em rodovias. "Por estar dentro do padrão, ela comporta o tráfego de caminhões articulados e biarticulados." Ele garante que não há problemas o fato de ser uma semi-pista e que a largura de 3,5 metros é "adequada e confortável".
A Tribuna pediu detalhes do projeto ao DER/MG, mas foi informada que não teria esta possibilidade, já que o traçado proposto pode sofrer ajustes, por questões geológicas, no decorrer da obra.
* colaborou Gracielle Nocelli
