
Com o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), a Igreja Católica lançou, na quarta-feira (18), a Campanha da Fraternidade 2026. Segundo a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a iniciativa busca iluminar, à luz do Evangelho, a realidade de milhões de brasileiros que ainda não têm acesso a uma moradia adequada. A entidade informa que esta edição foi inspirada em uma sugestão da Pastoral da Moradia e Favelas.
Na abertura, o administrador apostólico da Arquidiocese de Juiz de Fora, dom Gil, explicou que a campanha acontece durante a Quaresma por se tratar de um período de conversão para a Igreja. “Então, olhando a realidade social, a Igreja vê em que pontos ainda precisamos nos converter. Em que ponto a sociedade, o governo, as comunidades precisam se converter. E, por isso, ela procura sempre uma lacuna social para expor aos católicos e a todos a necessidade de transformação social, de conversão”, afirmou.
O bispo destacou que, embora o lema seja sempre uma referência bíblica, a Campanha da Fraternidade procura dialogar com toda a sociedade, já que os problemas sociais dizem respeito a todos, independentemente de religião ou mesmo de fé. “A Campanha da Fraternidade tem o objetivo de fazer um diálogo com o mundo. Por isso, ela convida todo mundo – ainda que não seja católico, não seja cristão – a refletir sobre aquela lacuna social”, disse.
Dom Gil avaliou que a campanha tem gerado frutos ao longo dos anos, inclusive no fortalecimento da consciência social dentro da própria Igreja. Ao recordar edições anteriores, o bispo citou como exemplo o debate sobre acessibilidade, que, segundo ele, ganhou força a partir de uma Campanha da Fraternidade.
Tema não é novidade
Dom Gil afirmou que não é a primeira vez que a Campanha da Fraternidade aborda a moradia, por se tratar de um tema recorrente. Segundo ele, desde 1964, quando a iniciativa foi criada, a Igreja acompanha o debate e percebe que o problema ainda está longe de ser solucionado.
Entre os pontos que mais preocupam, o bispo destacou o crescimento do número de pessoas em situação de rua. Ele observou que, em vez de diminuir, esse contingente tem aumentado, inclusive em Juiz de Fora. Para dom Gil, essa realidade evidencia uma lacuna social que a campanha pretende tornar mais visível.
O bispo ressaltou que o desafio não se limita ao município, mas se repete em todo o país, com impacto ainda maior em cidades de grande porte. Ele recordou a experiência em São Paulo, onde atuou como bispo auxiliar, e disse que, na época, cerca de 20 anos atrás, já se estimava a presença de 10 mil pessoas vivendo nas ruas, número superior à população de muitos municípios da região.
Diante desse cenário, dom Gil afirmou que a Igreja retoma o tema para incentivar reflexão e promover uma “conversão social” durante a Quaresma. Segundo ele, a Campanha da Fraternidade busca conscientizar a sociedade e também provocar o debate sobre políticas públicas capazes de enfrentar o problema. Ao final, ele anunciou a sequência da cerimônia, passando a palavra a Camilo e, depois, a Jaco Noé.
Campanha não partidária
Ele ressaltou, porém, que a Campanha da Fraternidade não se confunde com alinhamento político-partidário. “A Campanha da Fraternidade não é uma política, não é adesão a um partido. A Igreja não tem partido, a Igreja não tem candidato, mas a Igreja tem princípios”, pontuou.
Na sequência, dom Gil explicou que esses princípios são apresentados a todos, mas que opiniões individuais de padres ou bispos não podem ser tomadas como posicionamento institucional. Segundo ele, quando algum religioso extrapola em declarações, a própria diocese costuma se manifestar para esclarecer que se trata de uma visão pessoal.
O bispo destacou que o posicionamento oficial da Igreja se baseia na Doutrina Social da Igreja, construída historicamente e, conforme lembrou, presente desde o pontificado de Leão XIII, no fim do século XIX. Ele disse que a Igreja busca orientar padres e leigos para que se expressem dentro desse marco, sem ir além do que ela ensina.
Dom Gil também criticou o uso do espaço religioso para propaganda política. Para ele, “abusar do altar” com esse tipo de prática não é conveniente, mesmo quando o tema dialoga com pautas defendidas pela Igreja. Ainda assim, reforçou que a Campanha da Fraternidade se dedica a problemas sociais, o que implica cobrar atenção do poder público. “Os políticos têm também que ouvir”, disse.
Nessa perspectiva, ele afirmou que a Igreja exerce pressão por meio da conscientização, sem ataque pessoal a candidatos ou partidos e sem estímulo a qualquer forma de violência. Quando há uma lacuna social evidente e o governo não responde, a Igreja busca ser ouvida, chamando atenção para a realidade concreta.
‘Não é possível ser cristão sem ser fraterno’
Dom Judício explicou que a Campanha da Fraternidade tem como primeira finalidade promover a fraternidade cristã, especialmente com os mais necessitados. Segundo ele, a fraternidade é marca da Igreja e identidade do cristão. “Não é possível ser cristão sem ser fraterno”, afirmou.
Ele afirmou que, para a Igreja e para quem se entende como discípulo de Cristo, a dignidade humana deve estar sempre no centro. A partir do contato com diferentes camadas sociais, a Igreja reconhece que há parcelas da população vivendo privações concretas, com falta de bens fundamentais. Nesse contexto, reforçou, a fraternidade com os pobres não é moeda de troca, nem com a política nem com Deus.
Dom Judício disse que a Campanha da Fraternidade é vivida como um chamado à revisão de valores e atitudes, capaz de provocar educação e conversão no modo de se relacionar com as pessoas, especialmente com os mais vulneráveis. Para ele, a campanha contribui para “humanizar” o ser humano, na medida em que, quanto mais humano alguém se torna, mais se aproxima de Deus. Assim, afirmou, a oração se encarna na história e a missão cristã se torna relevante para a vida concreta das pessoas.
Ao citar orientações do próprio manual da campanha, ele observou que a iniciativa pretende tocar critérios de julgamento e referências sociais, como valores, centros de interesse, linhas de pensamento, fontes inspiradoras e modelos de vida, fortalecendo o diálogo da Igreja com a contemporaneidade.
Além disso, dom Judício ampliou o sentido do tema ao afirmar que falar de moradia não se resume ao aspecto material. Ele propôs uma reflexão sobre a casa como espaço de acolhimento e fraternidade. “Tem gente que tem casa, boa mesa, boa alimentação, mas não tem amor nem carinho, não tem fraternidade”, disse. Segundo ele, a campanha também convida a olhar para carências afetivas e para a falta de convivência fraterna no cotidiano. “Quando falamos de casa, não estamos falando meramente do concreto, do tijolo. Estamos falando de afeto, de acolhimento”, concluiu, apontando que essa reflexão deve alcançar especialmente as famílias.
Números do déficit habitacional
A Campanha da Fraternidade 2026 chama atenção para a crise habitacional no país e para o avanço do número de pessoas em situação de rua. Estimativas apontam que cerca de 328 mil pessoas viviam nessa condição em 2022.
Dados do Ministério das Cidades indicam que, entre 2022 e 2023, houve recuo de 3,8% no número de famílias sem imóvel próprio. Com isso, o déficit habitacional absoluto teria diminuído de 6,21 milhões para 5,97 milhões de domicílios no período.
O Governo federal destaca que o programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV) contratou mais de 1,9 milhão de unidades desde 2023, com investimento público superior a R$ 300 bilhões. A meta atual é atingir 3 milhões de moradias contratadas até o fim de 2026, o que representa 50% a mais do que a meta original.
No debate proposto pela Igreja, a campanha também reúne indicadores classificados como alarmantes. Um dos exemplos citados é o contingente de 6,2 milhões de pessoas que vivem de aluguel, muitas vezes em condições precárias, pressionadas pelo custo elevado da moradia. A avaliação é que, para conseguir pagar o aluguel, parte dessas famílias acaba abrindo mão do básico, como alimentação adequada, mantendo um teto, mas sem garantir comida na mesa.
Outro dado mencionado é o de 26 milhões de pessoas e famílias em áreas de risco, vivendo em habitações precárias e vulneráveis a deslizamentos, enchentes e outros desastres, especialmente em períodos de chuvas intensas. A campanha também reforça o crescimento da população em situação de rua, com números na casa de 300 mil pessoas, como sinal de agravamento social e de urgência na resposta do poder público.
Segundo as lideranças religiosas, os dados são apresentados como ponto de partida para avaliar a efetividade das políticas públicas e para lembrar que a precariedade da moradia costuma vir acompanhada de outras violações, como falta de água tratada, rede de esgoto e acesso adequado a saúde e educação. A leitura é de que o Brasil avançou, mas ainda enfrenta um desafio amplo para garantir dignidade a quem vive em condições de carência.
Ações em Juiz de Fora como exemplo
Em Juiz de Fora, a Fundação Maria Mãe, conhecida como Obra dos Pequeninos de Jesus, aponta crescimento expressivo da população em situação de rua na cidade. Segundo dom Hélio, dados de 2022 registravam 805 pessoas nessa condição e, na percepção do trabalho diário da instituição, o número praticamente dobrou. Ele acrescentou que, em âmbito nacional, houve aumento de 25% entre 2023 e 2024. “Nós percebemos na fundação que os números na cidade praticamente dobrou. Então hoje atendemos 200 pessoas diariamente. Não atendemos mais por falta de recurso, mas há demanda”, afirmou.
Dom Hélio explicou que a fundação surgiu há 41 anos, a partir de um grupo de oração conduzido por uma religiosa e inspirado na passagem bíblica “tive fome e me destes de comer”. A partir dessa reflexão, o grupo identificou que as pessoas em situação de rua eram as que mais precisavam de apoio naquele momento e iniciou a ação com a distribuição de alimentos, que, com o tempo, se ampliou e se organizou como obra social.
Atualmente, segundo ele, a Fundação Maria Mãe acolhe pessoas em situação de vulnerabilidade com uma rotina que reúne assistência material e escuta. Há missa uma vez por semana, seguida de café da manhã, além de atendimento voltado a necessidades imediatas, como banho, roupas, corte de cabelo e acompanhamento com assistente social. “Procuramos ouvi-los e conhecer as suas necessidades, buscando oferecer outras oportunidades para que possam melhorar as condições de vida”, disse.
A instituição funciona na Rua 31 de Maio 56, no Bairro Ladeira. Além da fundação, dom Gil também citou iniciativas locais de longa trajetória, como a Sociedade São Vicente de Paulo, que historicamente desenvolveu ações ligadas à moradia, incluindo projetos das chamadas vilas vicentinas.
*Estagiária sob a supervisão da editora Carolina Leonel

