
Paula, Lia e Camille atuam no movimento negro em JF (Olavo Prazeres/16-11-15)
Neste exato momento, milhares de mulheres negras estão chegando a Brasília, metaforizando o que vem acontecendo na sociedade brasileira, ainda que lentamente, nos últimos anos: a tomada de espaços antes negados a elas, em um caminho longo, dolorido e permeado por barreiras. Mas um caminho sem volta. “Há uma perturbação nítida quando o corpo negro ocupa um lugar que lhe foi negado. Isso é ainda pior no caso das mulheres, sujeitas a barreiras impostas pelo racismo e também pelo machismo. Quanto maior a ascendência social, econômica e intelectual dessa mulher, mais discriminada ela será. É ver uma negra abrir a porta de um apartamento chique e automaticamente perguntar: ‘A sua patroa está?'”, diz, com desconcertante precisão a professora Giovana Castro, 41 anos, atuante em diversas iniciativas ligadas ao movimento negro e uma das idealizadoras do projeto “Soul Black”, voltado para a prática da Lei 10.639/2003, que versa sobre o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas.
Iniciativas como o “Soul Black” visam, entre outras coisas, a evitar que futuras gerações passem pelos horrores que recaem de uma maneira muito especificamente cruel e precoce com as meninas negras, normalmente no primeiro lugar em que conhecem o racismo: a escola. “É o primeiro ambiente em que há uma convivência forçada com o racismo, e, fatalmente, onde se ouve as primeiras histórias de preconceito. E isso recai sobre as meninas, normalmente, como um desejo muito ruim de invisibilidade: de alisar o cabelo para não ser diferente, de se sentir apontada o tempo todo. Era um incômodo que, quando criança, eu não sabia dar nome, e hoje sei que era racismo”, relata Paula Duarte, 25 anos, fotógrafa e integrante do coletivo Pretação.
Isolamento e solidão
[Relaciondas_post]Essa busca por não se destacar do todo para evitar ataques e represálias expõe as garotas a uma realidade explícita nos dados demográficos brasileiros: a solidão da mulher negra. O último Censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2010 revelou que mais da metade delas – 52,52% – não viviam em união, independentemente do estado civil. Antes de sequer ter idade para pensar em uniões afetivas, a professora universitária e doutoranda em ciências sociais Tâmara Lis conheceu o isolamento social nas carteiras das escolas. “Na escola isso é mais gritante, sobretudo nas particulares, porque você não tem idade suficiente, nem compreensão para se defender. Mas para quem, como eu, estudou em escola particular, é muito simples ver que somos uma minoria esmagadora”, explica a docente.
Para a mestranda em comunicação Camille Balestieri, 22, só a militância negra promoveu a sensação de pertencimento que lhe faltou durante a vida. “Dentro de movimentos de resistência, não se encontram mulheres no comando. E o feminismo não é universalista, não contempla as questões específicas da mulher negra. E, no movimento LGBT, nem se menciona a mulher negra. Cresci em uma família branca que não me permitiu entender a negritude e, por consequência, abraçá-la. E vivi, desde cedo, o que hoje sei que é racismo, coisas absurdas, como pessoas da família fazendo piadas com cachos de bananas. Comecei a me compreender negra há pouco e precisei de outras mulheres negras dizerem: ‘Se toca, você precisa se entender nesta coletividade. Isso está acontecendo com outras pessoas, não só com você’. Hoje sei que me entender negra foi uma atitude política.”
Pobreza, estética e autoestima
Segundo o Mapa da Violência 2015 (Faculdade Latino-Americana de Estudos Sociais), o número de mulheres negras mortas cresceu 54% em dez anos (de 2003 a 2013), enquanto o número de mulheres brancas assassinadas caiu 10%. Para a mestranda em direito Lia Manso, estes dados recaem mais fortemente sobre as mulheres da periferia. “É essa mulher que está mais sujeita à violência e à maior desvalorização profissional, por exemplo, do que mulheres como eu, de classe média e inserida em um espaço majoritariamente branco, como a universidade. É essa mulher que estará mais sujeita ainda aos estereótipos de ‘mulata tipo exportação’ e ‘negra pra trabalhar’, ambos maneiras de ver o corpo da mulher negra como sempre à disposição, e nunca propriedade dela. São essas mulheres que serão empregadas domésticas consideradas ‘da família’, mas que não ocupam um lugar à mesa e, ao mesmo tempo, não podem reivindicar direitos trabalhistas porque ‘está tudo em casa'”.
Negação da beleza
Outras faces do racismo, como demonstraram as entrevistadas, são impostas a qualquer mulher negra, independentemente de sua condição econômica e social, como a desqualificação de sua estética. “Somos ensinadas desde cedo a odiar nossos corpos e nossa estética. Aprendemos que é algo errado e percebemos o deboche do colega da escola, o olhar mais severo do professor, são condutas físicas da nossa cultura do olhar e não verbalizar. É uma negação da beleza e da estética negras, e associação destes traços a posições sempre de serventia, como olhar para qualquer mulher negra e dizer, automaticamente: ‘Você conhece alguém que faz faxina?'”, diz Giovana Castro.
Segundo Lia, que hoje exibe com orgulho as madeixas crespas, é impossível conhecer uma mulher negra que não tenha sofrido com os conflitos associados à estética “Alisar o cabelo muito raramente é uma opção estética da mulher negra, mas uma questão de se proteger contra o racismo que aquele traço da negritude carrega. O cabelo da mulher negra, bem como os traços mais fortes, fogem ao padrão de beleza eurocêntrica e feminilidade em voga na sociedade. Tentar mudar ou esconder estas características estéticas não é uma opção, é uma forma de proteção”, argumenta Lia, ao que Camille Balestieri completa com as devidas imagens. “Nosso cabelo não vai mexer como os das princesas da Disney. E quando se é criança, essa falta de representatividade causa muita dor.” A professora Tâmara Lis destaca, entretanto, que é preciso dar à mulher negra pleno direito sobre seu corpo, sem, contudo, estabelecer fórmulas. “Tenho muito medo de uma nova polarização de discurso, como se disséssemos que só existe uma maneira de ser mulher e negra. Fazer escova não é necessariamente uma negação da negritude, pode ser uma das muitas formas de abraçá-la”, pondera.
‘Não existe racismo quando a negra sabe seu lugar’
Há 30 anos, quando fundou a Sociedade Beneficente Mão Amiga, Maria Aparecida Silva, 52 anos, que preside a instituição, teve que quebrar muitas barreiras para ser reconhecida como liderança. “As pessoas se dirigiam a mim como se eu fosse uma das beneficiadas da Mão Amiga ou pediam para que eu chamasse minha chefe, apontando minha secretária, que era branca”, conta ela. Segundo a professora universitária Tâmara Lis, que vê mais jovens negras ocupando assentos na universidade, a realidade majoritária ainda é a de quanto maior a escolaridade, menor a possibilidade de representação nas instituições. “Na minha época de faculdade, sempre que as pessoas queriam discutir que havia um exagero ao falar de racismo, eu propunha: ‘Gente, imaginem-se no meu lugar: se todos os professores daqui fossem negros, mulheres e vocês só vissem pessoas brancas na faxina e nos serviços braçais. É certo haver essa delimitação de espaços?'”, questiona a professora. “Hoje tento mostrar essa representatividade, mas a partir de um discurso que sensibilize a todas as pessoas da sociedade, tentando não promover mais segregação.”
Para a professora Giovana Castro, é preciso combater a ideia de que existe um “lugar” para a mulher negra (e a população negra em geral), pensamento que só reforça mecanismos de opressão. “O brasileiro tem preconceito de ter preconceito e um pavor absoluto de ser chamado de racista. Mas fica constrangido ao ver uma mulher negra nos espaços acadêmicos ou nos cargos de chefia. Isso precisa ser debatido em todos os espaços de formação, não apenas na escola, e inclusive na mídia, além da Semana da Consciência Negra. E hoje as meninas possuem algo que a minha geração não possuía: a chance de se mobilizar via internet, de discutir cabelo, identidade cultural e militância com negras do país todo, isso é revolucionário!”, pondera. Para Lia Manso, é justamente essa coletividade que permite que mais e mais mulheres negras conquistem seu espaço em todas as esferas do cotidiana – a despeito de tantos e tão pungentes obstáculos. “Assumir-se preta é um lugar de dor, mas um lugar que não é só seu e, por isso mesmo, não pode ser invisibilizado. Toda mulher negra que se reconhece como tal tem uma militância orgânica, uma luta arraigada no simples fato de existir sendo preta.”

