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Na rota dos ameaçados muriquis

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Criticamente ameaçado de extinção, o muriqui-do-norte, ou mono-carvoeiro, enfrenta diversos desafios devido à redução da Mata Atlântica, às queimadas e à atuação de caçadores. No entanto, em um dos espaços que concentra o maior número de representantes da espécie, o Parque Estadual da Serra do Brigadeiro, existe um outro agravante: as redes elétricas. Um relatório elaborado por pesquisadores que atuam na preservação dos muriquis foi finalizado em março deste ano e revelou que os macacos estão sendo eletrocutados devido à falta de proteção dos fios. O risco é apontado pelos pesquisadores como uma das principais ameaças aos muriquis, que são os maiores macacos das Américas, podendo medir até 1,5m. A última morte de muriqui registrada foi de uma fêmea, cujo laudo foi feito em março deste ano. Além deles, aves e outros primatas correm perigo.

Estudos indicam que hoje existem, no máximo, mil muriquis-do-norte no país, sendo que a maioria está concentrada nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, podendo também ocorrer na Bahia. A exceção ocorre no Parque Nacional do Itatiaia, na região Serrana do Rio de Janeiro, divisa com Minas Gerais, que tem evidências da presença das duas espécies, o muriqui-do-norte e o do sul. O parque da Serra do Brigadeiro, que fica na Zona da Mata mineira, é considerado uma área prioritária para a conservação dos muriquis, porque concentra um terço dos indivíduos existentes. A importância do animal vai além da conservação da espécie, já que se alimenta de frutas e folhas e tem grande potencial de dispersar sementes, sendo responsável pela regeneração das florestas.

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Conforme o relatório dos pesquisadores, a reestruturação da população depende da recuperação do habitat, conhecimento de sua biologia e de medidas de manejo e proteção que possibilitem a sobrevivência dos animais. O documento ainda aponta que a população do parque tem 40% de chance de se extinguir nos próximos 50 anos, sem incluir nos cálculos eventos como eletrocussão e caça esporádica.

 

Em busca da espécie

Para entender o problema relativo à rede elétrica, conhecer algumas iniciativas de preservação e tentar encontrar os muriquis, a Tribuna foi até o Parque Estadual da Serra do Brigadeiro no último dia 29. Depois de viajar 240 quilômetros partindo de Juiz de Fora rumo à sede do parque – localizada entre os municípios de Fervedouro e Araponga, percorrer outros 35 quilômetros até a Fazenda do Brigadeiro (que fica na porção Norte do Parque) e andar por cerca de três horas em meio à mata fechada, a equipe de reportagem conseguiu o que parecia ser impossível: visualizar um grupo com cerca de 20 muriquis. Diante do visual exuberante da serra, com seus picos e florestas, encontrar a espécie ameaçada foi a maior conquista.

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Parecia impossível porque a área do parque ocupa cerca de 15 mil hectares, tem 176 quilômetros de perímetro e incide em parte do território de oito cidades (Araponga, Fervedouro, Miradouro, Ervália, Sericita, Pedra Bonita, Muriaé e Divino). Estima-se que em toda essa extensão vivam 325 muriquis, conforme foi contabilizado entre 2004 e 2007 por um grupo de pesquisadores que morou na Serra do Brigadeiro desenvolvendo estudos (cujos resultados podem ser conhecidos no documentário "Entre montanhas e muriquis"). Um deles é o biólogo e mestre em biologia animal Leandro Santana Moreira, que acompanhou a Tribuna nessa empreitada.

Um dos maiores conhecedores dos grupos de muriqui-do-norte da Serra do Brigadeiro, Leandro foi fundamental para a localização dos macacos no parque. E foi a partir da percepção do biólogo, que consegue identificar a presença do animal pelo conhecimento geográfico do espaço, das rotas que eles utilizam, do barulho que fazem e até mesmo do cheiro que exalam, que a remota chance de localizar os macacos na floresta tornou-se real. A grata surpresa é que a equipe também conseguiu encontrar os macacos barbado (bugio) e sauá.

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Os animais foram visualizados nas matas do entorno da Fazenda do Brigadeiro, onde está concentrada a maior quantidade de muriquis do parque. Dos 11 grupos identificados por Leandro e outros dois pesquisadores, cinco ocupam essa área. "A expectativa desde que desenvolvemos esse trabalho é que a população de muriquis tenha aumentado um pouco. Mas com as ameaças existentes, há risco de que isso não ocorra. Temos projeto de dar continuidade aos estudos, com a intenção de refinar a busca e identificação da espécie no parque." A dificuldade, conforme os pesquisadores, é conseguir manter um trabalho duradouro na área.

 

 

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Qualquer perda, grande impacto

De acordo com o biólogo e mestre em biologia animal Leandro Santana Moreira, por ser uma das espécies mais ameaçadas de extinção no mundo, qualquer perda representa grande impacto. "Foi observado que uma fêmea pode gerar aproximadamente oito filhotes durante a vida. A morte de uma fêmea eletrocutada, como aconteceu recentemente na Serra do Brigadeiro, traz prejuízos incalculáveis." Por isso, os pesquisadores que elaboraram o relatório pretendem acionar o Ministério Público (MP) caso nenhuma medida seja tomada.

A boa notícia, conforme o gerente do Parque Estadual da Serra do Brigadeiro, José Roberto Mendes de Oliveira, é que a Cemig já iniciou a substituição da rede elétrica na parte central da unidade, onde fica a sede administrativa. De acordo com a Cemig, serão investidos R$ 80 mil para converter 350 metros da rede de distribuição rural convencional para a protegida, com inserção de seis postes e retirada de 500 metros de "cabo nu", além da implantação de 610 metros de cabo protegido e de outros 17 postes na estrada existente. A rede protegida evita o choque pelo toque acidental.

No entanto, os pesquisadores também apontam que a rede elétrica instalada na porção Norte do parque, na área da Fazenda do Brigadeiro, também apresenta propensão de impactar a fauna. Esta rede é de responsabilidade da Energisa, mas, segundo a assessoria da companhia, nenhuma demanda foi repassada pela administração do parque. Ainda conforme a Energisa, o gerente do parque informou que não há registro de morte de macacos muriquis eletrocutados na área de responsabilidade da companhia e que os problemas foram evidenciados somente em local cuja rede elétrica é da Cemig. "Por precaução, orientamos o senhor José Roberto a enviar um ofício à Energisa detalhando a situação e solicitando a substituição da rede existente, visando a evitar problemas futuros; a empresa analisará o pedido."

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O biólogo, doutor em ecologia e professor da Universidade de Goiás Fabiano Rodrigues de Melo considera ser emergencial que medidas eficientes sejam tomadas. "Qualquer gestor deve trabalhar com prevenção. E, ainda que não haja registro específico de morte nas linhas da Fazenda do Brigadeiro, é um risco iminente, já que a população tem demanda por espaço e, à medida que for ocupando o território, aumenta a chance de acidentes. Não podemos perder nenhum muriqui." A pesquisa de pós-doutorado desenvolvida pelo professor atualmente nos Estados Unidos é justamente simular as chances de sobrevivência dos muriquis da Serra do Brigadeiro nos próximos cem anos. À Tribuna, José Roberto informou que a substituição é de interesse da administração. "O ideal é ter toda a rede protegida, e esperamos conseguir isso aos poucos. Pretendemos incluir na revisão do plano de manejo. As redes antigas foram instaladas antes de a área ser transformada em parque, em 1996, por isso não havia essa preocupação. O novo cabeamento já tem esse propósito."

 

Desafio

Conforme o gerente, a dimensão do parque é um dos desafios, além da necessidade de conscientização das comunidades do entorno. Segundo ele, trabalhos educativos têm sido desenvolvidos, além da atuação dos 38 funcionários no sentido de garantir a preservação da unidade. A criação de gado e os cachorros de estimação nas residências em volta do parque representam preocupação, já que não é raro que eles alcancem as matas e ameacem os animais silvestres.

 

 

Candidato a mascote olímpico

Conhecidos pelo comportamento social, especialmente pelos abraços intensos, os muriquis não competem por fêmeas nem por alimentos, como ocorre com outras espécies de primatas. Além da ameaça de extinção, essa foi uma das características que incentivaram a candidatura do animal à mascote das Olimpíadas de 2016.

"A ideia surgiu em 2009, quando já não aguentava mais receber ‘não’ de empresas quando apresentava algum projeto de conservação para os muriquis no Rio de Janeiro. A maioria dos empresários nem os conhecia. Fundei a Ecoatlântica para tentar captar recursos para a preservação dos muriquis. Quando o Rio estava se candidatando para sediar os Jogos Olímpicos, tive a ideia de transformar o primata em candidato a mascote deste megaevento. O muriqui cai como uma luva como mascote de um evento em uma cidade acolhedora, de gente boa e simpática. Tem movimentos plásticos, muito próximos de um atleta. E mais: caso seja eleito, será o primeiro mascote da história olímpica a estar associado à defesa da biodiversidade. Nada mais justo que isso ocorra na primeira vez em que o evento é realizado no país mais biodiverso do mundo", defende a veterinária e presidente da Fundação Ecoatlântica, Paula Breves.

Paula também integra o grupo gestor do Plano de Ação Nacional para Conservação dos Muriquis, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, e esclarece que existe um projeto previsto para começar em 2014 no Rio de Janeiro com a intenção de identificar quantas são e onde estão as populações remanescentes, assim como as características ecológicas e as ameaças a que estão sujeitas, para elaborar um plano de ação estratégico no estado que siga os preceitos do plano nacional. Conforme os pesquisadores de Minas Gerais, o ideal é que o estado promovesse ação semelhante.

 

Áreas para preservação ambiental

Além do Parque Estadual da Serra do Brigadeiro, outros locais que possuem quantidade significativa de muriquis no estado são o Parque Nacional do Caparaó, o Parque Estadual do Rio Doce e a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Feliciano Miguel Abdala. A RPPN, aliás, fica em Caratinga e divide com o parque estadual a dianteira no ranking dos espaços que concentram maior número de muriquis. Estima-se que 334 vivam no local. O relatório sobre a eletrocussão também registra a presença de muriquis na Reserva do Ibitipoca (especificamente na Mata do Luna), no entorno do Parque Estadual do Ibitipoca. No entanto, estima-se a existência de apenas quatro machos, representando situação de extinção genética.

Um espaço que tem desenvolvido iniciativa importante de preservação é a RPPN Mata do Sossego, em Simonésia. Por meio do projeto "Muriquis", desenvolvido pela Fundação Biodiversitas e coordenado pela bióloga e mestre em biologia animal Fernanda Tabacow, é feito o monitoramento e conservação de um grupo de muriquis da Mata do Sossego. "O fato de um único grupo, com cerca de 40 indivíduos, habitar a área aponta esta população como prioritária para o monitoramento, uma vez que possivelmente estará sujeita aos efeitos dos problemas demográficos e ambientais imprevisíveis, além da perda da diversidade genética. Por isso, esta população necessitará de manejo ativo para sua sobrevivência em longo prazo. O sucesso irá depender do conhecimento detalhado. Sendo assim, o monitoramento em médio e longo prazo e os dados de ecologia, comportamento e demografia que estão sendo coletados no estudo vão ajudar a prever situações de risco futuras, como o declínio populacional", explica Fernanda.

Confira o documentário "Entre Montanhas e Muriquis" e o vídeo da Campanha Muriqui 2016.

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