
Os olhos curiosos deixam claro que tudo é novidade. Depois de subir a trilha para o mirante do Morro do Imperador, 28 dinamarqueses admiraram Juiz de Fora de um de seus pontos mais altos. Os jovens entre 17 e 19 anos e dois professores são o quinto grupo a vir para o Brasil em um intercâmbio cultural e pedagógico, promovido através do convênio entre a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e a escola dinamarquesa Mariagerfjorg Gymnasium. A parceria promove anualmente a troca de experiências entre alunos do Colégio de Aplicação João XXIII e estudantes vindos da pequena cidade de Hobro, na Dinamarca. Enquanto 26 alunos dinamarqueses estiveram em Juiz de Fora para estudar por duas semanas, 25 alunos brasileiros também terão a oportunidade de viajar para a Dinamarca no segundo semestre desse ano para vivenciar outro tipo de ensino e conhecer o dia a dia dos estudantes dinamarqueses. O choque cultural e as descobertas são apenas uma parte de tudo o que esses jovens absorvem nessa experiência.
Entre os dias 1º e 11 de abril, uma comissão de professores brasileiros foi responsável por desenvolver atividades com o grupo, apresentando aspectos históricos, econômicos e políticos do Brasil. Uma delas foi uma viagem de dois dias à cidade histórica de Ouro Preto, Minas Gerais, que impressionou o estudante de 17 anos, Nicolai Nielsen. “Eu nunca tinha lido sobre Ouro Preto, então ver toda a história das minas e a quantidade de ouro nas igrejas foi maravilhoso. É realmente uma experiência incrível”. Outra surpresa foi o clima tropical bem diferente do constante inverno dinamarquês. “Eu sabia que estaria calor, mas fiquei surpreso com o quão alta a temperatura chegou. Alguns dias fez 28 graus, e isso é muito quente! Mas realmente gostei do clima. O que eu mais gostei foram as praias e o sol”, contou Nicolai.
Os jovens deram um destaque especial para a receptividade dos anfitriões. Cecilie Mathiesen, 18, conheceu os alunos brasileiros que viajaram para a Dinamarca em 2018, mas contou que ficou encantada com a acolhida na escola e na casa em que ficou hospedada. “As pessoas são muito gentis. A todo o momento querem saber se estou bem e se preciso de algo. Eu conheci alguns alunos ano passado, mas chegar aqui e ver como todos são, é muito especial”.
Crescimento para os dinamarqueses e também para uma escola inteira
Além da viagem e do contato com alunos do ensino médio, as atividades propostas pela comissão organizadora deste ano incluíram as crianças da escola. O professor de inglês e membro da comissão organizadora, Marco Aurélio Mendes, contou que o primeiro contato com as crianças aconteceu na chegada dos dinamarqueses ao colégio. “No dia em que chegaram, houve um problema, e nós nos adiantamos. Chegamos na escola no recreio das crianças do Fundamental 1. Foi um evento! A escola parou, as crianças enlouqueceram e pediram para eles irem nas salas de aula. Eles foram e cantaram músicas dinamarquesas típicas, contaram histórias… A vinda deles é um evento que envolve a escola inteira. São duas semanas em que vivemos uma atmosfera completamente diferenciada.”
Apesar de ser um grande acontecimento para os alunos do Colégio Aplicação João XXIII, a vinda dos estrangeiros já é um episódio esperado. “Já tem certa tradição essa vinda dinamarquesa, então os meninos vem se preparando de uma maneira bastante positiva. Na parte linguística, que é a que me diz respeito, houve um avanço gigantesco pelo fato dos alunos saberem que terão a possibilidade de contato com dinamarqueses e que poderão também, eventualmente, ir para Dinamarca”, contou Marco Aurélio. Além disso, ele ressaltou o caráter inclusivo dessa oportunidade. “O colégio é uma escola pública, e a entrada é por sorteio. Os alunos vêm de cenários econômicos bastante diferenciados, e a maioria esmagadora não tem acesso a cursos de inglês fora (do colégio), então eles realmente aprendem a língua na escola. Eles se esforçam, exigem dos professores porque eles querem realmente aprender o idioma para ter a oportunidade de interagir com esses meninos. E essa é a grande questão. Acho que nosso grande avanço, mais do que mandar os alunos para a Dinamarca, é recebê-los na escola e difundir essa perspectiva de mundo, abrir essa janela para uma escola inteira”.
E os jovens dinamarqueses também vivenciam experiências únicas no Brasil. Para o professor dinamarquês de Ciências Políticas e História, Christian Larsen, permitir que os alunos participem da rotina dos brasileiros amplia seus horizontes e os mostra o mundo globalizado. Além disso, ele relata que existem muitas diferenças entre as salas de aula brasileiras e dinamarquesas. “Acho que somos altamente digitais em nossa escola. Diariamente os estudantes usam computadores para tudo e em todas as aulas. É sempre uma maneira digital de ensinar. Essa é a maior diferença que percebemos entre as duas escolas.” Outro diferencial é o perfil dos alunos que vêm para o Brasil. A professora também de Ciências Políticas e História, Lisbeth Knudsen, explicou que o grupo é composto por alunos voltados para o curso de Ciências Políticas e Matemática. “Quando nossos alunos chegam ao ensino médio, eles escolhem disciplinas direcionadas ao que querem estudar na universidade. Então todos que escolhem cursar matérias na área de Ciências Políticas e Matemática devem vir ao Brasil viver essa experiência”.
Hospedados na casa de alunos brasileiros, a imersão cultural é um dos diferenciais do intercâmbio
Não só os alunos são contemplados com a troca de experiência com os intercambistas. Algumas famílias abriram as portas de suas casas para receber os dinamarqueses e integrá-los à rotina de vida brasileira. A seleção dos anfitriões é feita pelo Núcleo de Apoio Escolar (NAE) do Colégio de Aplicação João XXIII e avalia os recursos disponíveis para que os estudantes tenham uma estadia agradável na cidade. “São levados em conta dois critérios básicos. O aluno anfitrião precisa ter 16 anos ou mais, porque os dinamarqueses têm uma diferença do nosso ensino médio. São alunos mais velhos do que os nossos. Além disso, é preciso ter fluência na língua inglesa”, explicou a assistente social do NAE, Ana Vargas.
Há também uma análise a respeito da disponibilidade das famílias em receber e se relacionar com os hóspedes. A assistente social Aline Gomes, também integrante do NAE, explicou como é feita essa avaliação. “A gente faz um levantamento de qual suporte essa família pode oferecer em termos de transporte para escola, alimentação, cama, enfim, os recursos que têm disponíveis. Esse ano todas estavam aptas, então a gente selecionou através de um sorteio. Depois é convocada uma reunião para orientações gerais.” Dentre as recomendações das assistentes sociais, elas destacam que não é necessário que as famílias criem uma nova rotina para receber os alunos dinamarqueses. O objetivo é que os jovens participem e entendam a dinâmica dessa família como ela é.
Para os estudantes brasileiros que receberam por duas semanas os dinamarqueses, a experiência parece ter um valor ainda maior. Carolline Faria, 16 anos, está participando do processo seletivo para integrar o grupo de alunos brasileiros que vão para a Dinamarca e teve a ansiedade aumentada depois de receber uma estudante em sua casa. “Depois que eu os conheci (os dinamarqueses), a minha vontade de ir só aumentou. Cresceu a minha motivação pra reencontrá-los e conhecer na prática uma cultura diferente. Também acho que isso irá influenciar muito o meu currículo no futuro”. Além dos alunos, a experiência agrega conhecimento para os pais. “Minha mãe não fala inglês e meu pai fala um pouquinho, mas ensinei algumas coisas para eles, ela ensinou algumas coisas em dinamarquês, e aí a gente vai aprendendo. Ela trouxe algumas balas, algumas comidas pra gente experimentar, e tem algumas coisas muito diferentes”, contou Carolline.
Internacionalização em todos os níveis
O Programa de Intercâmbio Internacional do Colégio de Aplicação João XXIII é mais um passo em direção à internacionalização da UFJF. A diretora de relações internacionais da UFJF, Bárbara Daibert, acredita que essa oportunidade seja um diferencial na educação básica desses alunos. “A internacionalização da universidade tem que acontecer com alunos de graduação, pós-graduação, professores, técnicos e também com a nossa escola de aplicação, que é o Colégio João XXIII. Além disso, a presença desses dinamarqueses faz com que o processo alcance as famílias dos nossos alunos. E o edital para que os estudantes do João XXIII façam mobilidade já está aberto também. A ida para a Dinamarca engrandece, além dos alunos, os professores, que entram e contato com um sistema de ensino modelo em vários aspectos para o mundo.”
A estudante Anna Cecília Innocencio, 17 anos, compôs o grupo de brasileiros que viajou para a Dinamarca em 2018. Para ela, as mudanças pessoais e os amigos são para a vida toda. “Foi uma coisa incrível que mudou o meu jeito, minha maturidade e o meu inglês também. Minha visão de mundo mudou, e eu criei muitos laços.” Além disso, o capital cultural e a consciência de mundo são presentes que a experiência proporciona. “Você descobre muito mais do que já sabe sobre a cultura, a vivência deles, como eles são com os amigos… E é um choque entre os dois mundos porque a gente tem uma impressão de mundo na cabeça e eles têm outra. É muito legal juntar isso”, contou Anna.
Para a diretora geral do João XXIII, Eliete Verbena, o retorno dos alunos após a mobilidade traz muitos pontos positivos também para quem não viajou. “Embora a gente não consiga mandar todos os alunos, esse grupo que participa do intercâmbio traz um retorno dessa experiência para o colégio. Então, quem não participa efetivamente da ida à Dinamarca tem contato a partir de intervenções.” Segundo Eliete, os alunos preparam uma série de apresentações sobre o que viveram e exibem para o colégio. “E os alunos contemplados têm um compromisso com o processo. Eles têm compromisso no retorno de compartilhar essa experiência com as turmas, com os diferentes segmentos que a escola tem: no ensino regular e a educação de jovens e adultos”, explicou Eliete.
O processo seletivo para formar o grupo de 25 alunos que viajará no segundo semestre desse ano já está acontecendo. Os candidatos devem ter média de Rendimento Escolar igual ou superior à média de aprovação na instituição, além de ter sido aprovado, com aproveitamento mínimo de 70%, no exame de proficiência em língua inglesa efetuado pelo João XXIII. São oferecidas pela UFJF, 10 bolsas de estudos no valor de US$ 1.500 (um mil e quinhentos dólares americanos) cada uma e no processo de distribuição é levada em conta a condição socioeconômica do aluno. “As bolsas são distribuídas para os alunos de condição econômica menos favorável. Existem algumas vagas sem bolsa, mas a oportunidade só é possível via esse convênio da Universidade Federal de Juiz de Fora com a escola Mariagerfjorg Gymnasium, da Dinamarca”.
Eliete afirma ainda que a escola pretende ampliar o projeto de mobilidade acadêmica para outros países cujos idiomas são oferecidos na grade curricular dos alunos. “Na avaliação do programa de 2018, a equipe percebeu a necessidade de ampliar os países de destino, para atender a língua espanhola e o francês, que são oferecidos pela escola também. A ideia é ampliar para outras possibilidades, trazendo experiências diversificadas para os alunos.” E a diretora ainda reforça o esforço coletivo para que o programa continue acontecendo. “Eu tenho que destacar que a proposta é da escola. Se a escola e as famílias não abraçassem, o projeto não aconteceria. O mérito não é da gestão, é da escola.”
