
Sob comoção, gritos e revolta o corpo de Karina Samuel Valle, 23 anos, foi sepultado, na tarde desta quarta-feira (17), no Cemitério Municipal. Estiveram no velório familiares e amigos da jovem, que teve sua vida interrompida com uma faca cravada em seu peito pelo próprio companheiro, com quem mantinha um relacionamento de, aproximadamente, três anos. O medo da morte era frequente entre familiares da vítima, mas parentes afirmaram que ela entendia que o suspeito havia melhorado seu comportamento. Nos últimos tempos, “eles estavam bem”, assim definiu a irmã de Karina, que preferiu não ter o nome divulgado. Sentada no chão e ainda sem acreditar no crime bárbaro, ela conversou com a reportagem. “A gente tinha medo de ela ser morta. O Rômulo era possessivo. No início do ano, ele já tinha tentado se matar por não aceitar o fim do namoro. Foi perto da nossa casa. Ele entrou na frente do ônibus. Isso tudo por ciúme”, contou.
O casal veio de Leopoldina e residia em Benfica, na Zona Norte de Juiz de Fora, há menos de um ano. Naquela cidade, eles viveram por dois anos e, desde o início do relacionamento, há relatos de agressão . “Eles brigavam muito. Mas ele pedia para voltar, e ela aceitava. Nestes últimos tempos, eles estavam vivendo bem. Desde que se mudaram para Juiz de Fora, estava mais calmo, recebia o salário e dava tudo na mão dela”, contou a mulher, informando que atualmente o cunhado trabalhava como pedreiro. “Ele não conseguia parar em emprego. Às vezes, saía umas cinco vezes para vigiar minha irmã e ter certeza que ela estava em casa. Desde domingo, eles vinham discutindo por ciúmes e, na terça, ele cortou a boca dele com gilete também por ciúmes. Ontem (terça-feira), a gente não sabe o que aconteceu. Foi uma tragédia.”
A morte de Karina foi comunicada à família pela sogra, que foi a pessoa que encontrou a vítima caída no chão ensanguentada e com a faca ainda em seu corpo. Ainda segundo a irmã, a mãe de Rômulo já havia advertido a jovem para que se distanciasse do filho, pois temia o pior.
Vítima não reclamava das agressões
Apesar do histórico de agressões sofridas por Karina, ela não costumava contar à família a violência cometida pelo companheiro. Segundo parentes, em três anos de convivência, poucas vezes, a jovem relatou com detalhes os episódios vividos com Rômulo. Ela apenas fazia críticas ao seu comportamento e, quando isso acontecia, a irmã, o cunhado e até mesmo sua mãe a orientavam a fim de ter cuidado com ele. Entretanto, apesar de ser considerada “guerreira”, a jovem tinha medo de por fim ao relacionamento. “A Karina tinha que ter colocado um limite. No Ano-novo, ela foi arrastada por ele pelas ruas de Leopoldina e teve o braço quebrado. Mesmo assim, ela nunca reclamava”, contou a irmã.
Escritos com batom são deixados em banheiro onde jovem foi morta
Escritos com batom foram encontrados pela Polícia Militar espalhados pela parede do banheiro onde a jovem Karina Samuel Valle foi assassinada a facadas pelo próprio companheiro, 28, na tarde de terça-feira. A vítima de provável crime de feminicídio – quando a mulher é morta por razões da condição do sexo feminino – foi encontrada com a faca cravada no peito, caída no banheiro da residência onde o casal morava, na Rua Vereador Ignácio Halfeld, por volta das 17h. Menos de três horas depois, o suspeito, Rômulo Silva Moreira, morreu atropelado por trem às margens da Avenida JK.
O inquérito que vai investigar o aparente caso de feminicídio seguido de suicídio deverá ser instaurado pela Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher. De acordo com informações do boletim de ocorrência registrado pela PM, a própria mãe de Rômulo, 45, foi quem encontrou Karina, após o filho ir até a residência dela, no pavimento superior. Nesse último encontro, ele entregou seu celular, dizendo que havia feito uma “tragédia”. Em seguida, deu um abraço na mãe, afirmando que iria embora, sem informar para onde. O destino final foi a linha férrea, na passagem de nível próximo ao Distrito Industrial.
A mulher acabou descobrindo o assassinato da nora ao decidir procurar pelo filho em casa. A vítima apresentava lesões na boca e múltiplas facadas no tórax, onde permanecia cravada a arma. O Samu foi acionado e constatou o óbito. Ainda conforme a PM, entre os escritos de batom pela parede do banheiro estavam nomes, frases incompletas e uma seta indicando o corpo no chão.
A Perícia da Polícia Civil realizou os levantamentos no local, e o corpo foi encaminhado para necropsia no Instituto Médico Legal (IML).
Atropelado por trem
O acidente na via férrea foi informado à PM por populares que usam a passarela na região de Benfica. Eles disseram à equipe policial que havia o corpo de um homem com as mesmas características do suspeito de matar Karina, caído na linha férrea, com a perna amputada. Um vizinho teria reconhecido o cadáver, mas nenhum parente compareceu ao local, porque apenas a mãe de Rômulo seria residente em Juiz de Fora. Ela precisou ser hospitalizada, pois passou mal ao saber do falecimento do filho. Rômulo foi sepultado no município de Leopoldina.
