
Proteção após assaltos a estabelecimentos
Senhor João, de 67 anos, passa 11 horas do seu dia atrás das grades, mas ele não cumpre pena em unidade prisional. Proprietário de um salão de cabeleireiro no Bairro Santa Luzia, na Zona Sul, ele corta o cabelo de seus clientes como se estivesse em uma cela, já que instalou grades na entrada do seu estabelecimento. Prática largamente utilizada em grandes centros, como Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador, este tipo de modelo de prevenção começa a se tornar comum nos bairros de Juiz de Fora. Devido ao clima de medo e insegurança das comunidades nas quais estão inseridos, muitos comerciantes e profissionais de outras categorias estão vendendo produtos e oferecendo seus serviços através de grades. De acordo com dados da 4ª Região de Polícia Militar (RPM), o registro de casos de arrombamentos, roubos e assaltos à mão armada contra estabelecimentos comerciais cresceu cerca de 20% nesse ano, em Juiz de Fora. De janeiro a setembro de 2013, foram 151 ocorrências envolvendo padarias, mercearias, farmácias, joalherias, casas lotéricas e demais estabelecimentos do ramo comercial, enquanto, no mesmo período de 2012, o acumulado ficou em 125 registros. Nessa quarta-feira (16), mais uma mercearia foi alvo de ladrões, que dispararam um tiro dentro do estabelecimento e outros dois na rua, no Bairro Arco-íris, na Zona Sul, no início da tarde.
O aumento dos crimes motiva a população a encontrar soluções para se sentir mais segura. No caso de "seu" João, como é chamado o cabeleireiro de Santa Luzia, a instalação das barreiras na entrada do salão aconteceu depois que o profissional foi assaltado durante o dia. Segundo ele, duas mulheres invadiram o imóvel, provocaram um quebra-quebra, danificando equipamentos. Elas roubaram R$ 170 e fugiram. "Quando aconteceu, a rua estava cheia, e elas não tiveram o menor constrangimento em cometer o assalto. As duas ainda entraram em luta corporal comigo. Foi uma situação horrorosa, e me senti muito vulnerável. Chamei a polícia, que só chegou aqui depois de 40 minutos", relatou o cabeleireiro, lembrando que o caso aconteceu em fevereiro deste ano, época em que colocou as grades.
Segundo ele, os clientes não estranharam quando tiveram que passar a cortar o cabelo como se estivessem presos. "Os fregueses acham que estou agindo corretamente. Mas às vezes sou zombado. Algumas pessoas perguntam: Quer um cigarrinho aí? Com se eu estivesse na cadeia", diverte-se o profissional. Mas ele pondera que, com as grades, sente-se mais seguro. "Porém já disseram que, se alguém chegar com um revólver e apontar para mim entre as barras de ferro, não terei como escapar. Eu sempre respondo: assim não tem jeito, porque, até dentro da minha casa, isso pode acontecer. Eu estou preso, e os bandidos estão soltos. Infelizmente, a gente tem que fazer isso. Há muitos jovens tomados pelas drogas, que são capazes de qualquer coisa."
Enquanto era entrevistado, "seu" João cortava o cabelo de Mauro Alves, 52. O cliente, de mais de 20 anos, aprova a decisão do cabeleireiro. "Ele está certo em se prevenir. São vários casos de roubos e arrombamentos no bairro. Tem uma padaria que já fez a mesma coisa por conta da insegurança." No início de setembro, a onda de furtos e arrombamentos no Santa Luzia fez comerciantes e moradores se reunirem com representantes da Polícia Militar, solicitando mais patrulhamento na área. Na ocasião, a Associação de Moradores apresentou dados a respeito de 30 ocorrências de crimes contra estabelecimentos comerciais registradas entre junho e agosto.
‘Antes que virasse vítima, preferi me prevenir’
Do outro lado da cidade, na Zona Norte, não é diferente. No Bairro Jardim Natal, o dono de um mercadinho instalou grades na frente do estabelecimento há quase um ano. Os fregueses são atendidos através das barras. A medida, segundo ele, tem sido positiva. "Nunca fui assaltado. Mas começou a ter muitos arrombamentos e assaltos ao comércio aqui da região. Muitas lojas tiveram a porta de aço arrombada. Antes que também virasse vítima, preferi me prevenir", diz o proprietário Sebastião Teixeira, 57 anos, lembrando que, além da grade do lado de fora, há uma porta de aço que fecha junto à grade. "É um jeito que encontrei de me sentir seguro, já que trabalho das 6h às 21h."
Diante da rivalidade com o bairro vizinho Jóquei Clube, que tem resultado em mortos e feridos, moradores e comerciantes do Jardim Natal se dizem acuados. Os dois bairros juntos, segundo levantamento realizado pela Tribuna, concentraram 30% das 71 tentativas de homicídio registradas na Zona Norte, de janeiro a julho de 2013. Para o comerciante, que atua há 28 anos no ponto, o cenário é preocupante. "Nunca foi assim. Tenho pensado em mudar de ramo, pois dá para desaminar. Graças a Deus nunca fui assaltado, e as grades inibem quem está mal intencionado. Mas se chegar alguém armado aqui, não terei muito a fazer. Essa é a nossa realidade, pois sei que essa molecada está andando armada. Não sei como conseguem revólver com tanta facilidade", questiona o proprietário.
Ele conta que, apesar da instalação do equipamento, já flagrou um garoto tentando subir na grade para furtar um produto da sua mercearia. "Mas ele viu que percebi e saiu correndo", afirmou Sebastião, acrescentando que, quando nota que o clima está mais tenso, abre apenas uma portinha no meio da grade por onde atende os fregueses, que já nem estranham a atitude. "É uma inversão de valores. A gente que é de bem é que precisa ficar atrás das grades. É um absurdo", pondera. Na rua, apesar de as pessoas não gostarem de dar entrevista por medo de represálias, um residente comentou sobre o sentimento de medo. "As gangues estão soltas. Brigas, tiroteios e mortes já viraram rotina aqui. Muitas vezes, uma pessoa leva tiro por nada, por causa de R$ 5. Eles entram nas casas e nas lojas para furtar pequenas coisas para comprar crack. Então, tem que ter grade em tudo. Na minha casa, todas as janelas já têm, e as portas foram reforçadas", contou um aposentado, que preferiu o sigilo do nome.
Medida tomada após três roubos
Na Zona Sudeste, a proprietária de uma pequena mercearia no Bairro de Lourdes, também atende seus fregueses pela grade. Sentada no seu banquinho de madeira, atrás da barreira de ferro, Benedita Moreira, 51, conta que já foi assaltada três vezes e não quer mais passar pela mesma situação. Há cinco anos, a loja da irmã dela, no mesmo bairro, foi assaltada. Naquela época, conforme a comerciante, houve uma onda de crimes contra estabelecimentos comerciais cujas proprietárias eram mulheres. "Desde esse tempo, comecei a trabalhar com grades. Mas antes ficava aberta, e as pessoas podiam entrar na loja. Porém, há dois anos, fui assaltada e, então, resolvi atender somente através das grades", contou a mulher, lembrando que tomou a decisão depois de ter a loja invadida pela última vez. Na ocasião, o bandido estava com revólver. De acordo com ela, ele chegou e anunciou o assalto, empurrando-a para o fundo do estabelecimento. "Eu estava sozinha e não deu para chamar ninguém. Tentei até gritar, mas fui ameaçada. Ele disse que, se eu gritasse, atiraria."
Ela ainda acrescentou que, nesse mesmo episódio, antes de entrar na loja, o criminoso usou uma criança para cometer o crime. "O menino entrou e começou a me distrair, perguntando o preço das mercadorias. Foi quando o ladrão chegou apontando a arma para mim. É uma situação horrível sentir sua vida em risco. Por isso, optei pelas grades." Segundo Benedita, no início, quando começou a atender através da proteção metálica, os fregueses se incomodavam. "Trabalho com muito miudeza. Era fácil de entrar e furtar. Perdi alguns fregueses, mas, pelo menos, não tenho mais problema de furto." A proprietária afirma que recebeu inúmeras críticas. "Na época, as pessoas não gostaram. Mas agora todos já se acostumaram e sabem que é uma medida de segurança, já que a criminalidade no bairro é grande. "O pior problema aqui é o consumo de crack. Os jovens estão viciados nessa pedra. Sob o efeito dela, eles são capazes de tudo. Por isso, é melhor me precaver", diz a comerciante.
Especialista critica política criminal
Para o coordenador do Núcleo de Estudos sobre Violência e Políticas de Controle Social da UFJF, o cientista social André Moises Gaio, o surgimento de estratégias de autoproteção é incentivado pela Polícia Militar em panfletos e pronunciamentos. Entretanto, ele observa que a política criminal em Minas Gerais e em outros estados confere à vítima metade da culpa em relação a sua vitimização. "Isto porque ela (a polícia) considera indispensável que os cidadãos invistam em grades, cercas elétricas, alarmes, contratação de segurança e etc. Quando você faz um boletim de ocorrência, uma das primeiras perguntas é sobre qual é o aparato de segurança de que dispõe e, quando a vítima afirma não possuir qualquer equipamento, ela é vista como alguém que estimula o evento criminoso. É um absurdo, mas é a realidade", afirma o cientista. Ele ainda cita um caso exemplar ocorrido no Bairro São Pedro, na Cidade Alta, quando comerciantes se reuniram com a polícia a fim de discutir estratégias de policiamento. "Vários comerciantes disseram que os conselhos recebidos eram: contratem seguranças, comprem câmeras porque não temos efetivo suficiente para garantir a segurança de toda Cidade Alta. Ou o cidadão compromete sua renda comprando os equipamentos mencionados ou deve contar com a sorte. Esta é a lógica", conclui o pesquisador.
Capitão Jean Amaral, assessor de comunicação do 27º Batalhão de Polícia Militar, afirma que a adoção de medidas de autoproteção por parte dos comerciantes é benéfica e funciona como mais um instrumento de garantia de mais segurança. "Não vemos essa situação como transmissão de responsabilidade ou de competência. Dependendo do ambiente onde o comerciante está inserido, deve sim adotar essas medidas. Veja por exemplo o caso das agências bancárias que instalam diversos equipamentos. Os postos de combustíveis também já funcionam com ponto de apoio da PM. Essas estratégias dependem do contexto do tipo de comércio e do ambiente e sempre funcionam para o bem do proprietário e de todos. É uma ação que se soma ao trabalho feito pela PM e que é muito bem-vinda", avalia o militar, acrescentando que os criminosos procuram as vítimas em potencial, que são aquelas que não adotam medidas de segurança. O oficial ainda orienta que todo estabelecimento comercial deve tomar medidas de precaução, evitando expor produtos do lado de fora, manter o caixa em local de difícil acesso e sempre estar em contato com policiais que atuam no seu bairro, a fim de trocar informações e sugestões para melhorar a segurança da área.

