
Caminhão precisa atingir a contramão em trecho estreito em perímetro urbano (Leonardo Costa/01-08-16)
Cento e cinquenta e cinco anos após ter sido inaugurada, a Estrada União e Indústria, no trecho de aproximadamente dez quilômetros, entre Juiz de Fora e Matias Barbosa, não se adequou à realidade de tráfego do século XXI. Apesar de a rodovia BR-040 permitir o deslocamento com menos tempo e mais segurança, a LMG-874, como a estrada é denominada atualmente, ainda é a única opção de muitos e preferência de outros. Algumas hipóteses para isso são o fato de ela não ter pedágio e nem a fiscalização com radares fixos da Polícia Rodoviária Federal (PRF). O resultado é o significativo número de acidentes no trecho, sendo oito apenas entre janeiro e julho deste ano, culminando em 14 vítimas e dois óbitos. Em todo o ano passado foram 16 acidentes, com 13 vítimas e duas mortes, de acordo com estatística fornecida pelo 1º Pelotão da 4ª Companhia Independente de Meio Ambiente e Trânsito Rodoviário (4ª Cia.Ind.Mat.). A Tribuna esteve no trecho em agosto e constatou falta de infraestrutura e abusos, principalmente dos caminhoneiros. No segmento da União e Indústria dentro do perímetro urbano, entre a Vila Ideal e o Retiro, Zona Sudeste, a imprudência também é realidade. A diferença é que este segmento, que coincide com a BR-267, é mais utilizado como via de trânsito local, além de ser porta de entrada da cidade.
Com uma faixa de rolamento em cada sentido e praticamente nenhum espaço seguro de ultrapassagem, a União e Indústria se tornou sinônimo de perigo. No acidente com vítima fatal mais recente, em julho, um motociclista de 26 anos perdeu a vida após seu veículo chocar-se com a lateral esquerda de uma caminhonete, próximo a Cedofeita, em Matias Barbosa, na altura do km 6. Antes dele, em maio, uma mulher, 33, veio a óbito após seu veículo bater de frente com outro, que seguia na direção contrária. Tais ocorrências são somadas a outras situações de perigo, como quedas de árvores e desmoronamentos de barrancos, típicos da estação chuvosa. Em janeiro deste ano, uma pedra grande e duas menores rolaram sobre o asfalto, na altura da Usina de Marmelos. Na ocasião, a pista no sentido Matias Barbosa precisou ficar parcialmente interditada.
O crescimento do número de habitações no entorno da estrada também pode ser considerado preocupante, e já é difícil identificar onde uma cidade termina e a outra começa. Prova disso é o grande movimento de pedestres, muitos atravessando em pontos perigosos e outros andando em áreas sem qualquer segurança, já que o acostamento está coberto pela vegetação. O mesmo perigo sofre quem percorre o trecho de bicicleta.
Ultrapassagens irregulares
No dia em que a Tribuna esteve na estrada, uma segunda-feira, um caminhoneiro que seguia na direção Matias Barbosa/Juiz de Fora cometeu uma série de abusos e infrações, como ultrapassar automóveis sobre faixa contínua e entrar em curvas fechadas na contramão. Ultrapassagens irregulares, aliás, são recorrentes no segmento. “Sobram abusos, de todas as maneiras. Só viajo por ela porque não tenho condições de pagar o pedágio todas as vezes que preciso ir a Simão Pereira (cidade que fica após Matias Barbosa). É uma opção pela economia, pois sei que, infelizmente, não é a mais segura. Falta manutenção e fiscalização”, disse o representante comercial Wagner Pires, 44.
Polícia diz que via não é rota de fuga
A Estrada União e Indústria, dentro e no entorno de Juiz de Fora, tem responsabilidades distintas. No trecho entre a Vila Ideal e o Retiro, por exemplo, a manutenção é feita pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), com competência de fiscalização do Pelotão de Policiamento de Trânsito da Polícia Militar (PPtran). A partir deste ponto, em direção a Bicas, passa a ser jurisdição do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), com fiscalização da Polícia Rodoviária Federal (PRF). Para Matias Barbosa, o controle é da Polícia Militar Rodoviária, com responsabilidade estrutural do Departamento de Estradas de Rodagem de Minas Gerais (DER/MG).
Sobre os problemas constatados no trecho, o DER/MG informou que técnicos do departamento fizeram vistorias na região de Juiz de Fora. A previsão é que, a partir de setembro, tenham início trabalhos rotineiros de conservação, o que inclui a roçada, cujo objetivo é melhorar a “visibilidade das placas de sinalização e acesso às áreas destinadas para paradas emergenciais”. No entanto, reiterou que o trecho, projetado na década de 1860, “segue paralelo ao curso do Rio Paraibuna, o que torna seu traçado sinuoso e não contemplado com acostamentos adequados ao fluxo de bicicletas e pedestres”.
O comandante do Pelotão de Trânsito da Polícia Militar Rodoviária, tenente Jader Augusto de Oliveira, reforça que a estrada tem fluxo intenso de veículos, tanto de carros como de caminhões, e a corporação se faz presente no intuito de coibir abusos. Segundo ele, os trabalhos são necessários para mostrar que a LMG-874 não é uma rota de fuga e desvios. “Fazemos muitas operações, de repressão às drogas, fiscalização de veículos, além de trabalhos integrados com o DER, o Ipem (Instituto de Metrologia e Qualidade do Estado de MG), para a questão dos tacógrafos, e o IMA (Instituto Mineiro de Agropecuária).
De acordo com ele, as imprudências mais comuns na estrada são ultrapassagem em local proibido, falta do uso de cinto de segurança e falta de licenciamento veicular. Também é recorrente a identificação de condutores inabilitados e de veículos em mau estado de conservação. Sobre a população do entorno, ele reforça que a patrulha de prevenção atua de forma contínua, promovendo ações educativas, principalmente nas escolas. “Orientamos ainda aqueles que andam com carroças e cavalos, falando da necessidade de serem vistos pelos outros veículos.”
Fluxo intenso de caminhões e carretas
No segmento dentro do perímetro urbano de Juiz de Fora, a Estrada União e Indústria é a rodovia BR-267. A situação é crítica, principalmente, no acesso entre a Vila Ideal e o Bairro Retiro, Zona Sudeste, em razão do traçado estreito e sinuoso associado ao grande volume de caminhões e carretas. Isso porque aqueles que chegam ao município, a partir da estrada, precisam usar este acesso para atingir a Avenida Brasil. E a demanda é grande, afinal a BR-267, neste ponto, segue até a BR-116, em Leopoldina, uma das principais estradas do país, responsável por ligar a região Sudeste ao Nordeste brasileiro. O outro caminho possível, que passa pelos bairros Santo Antônio e Lourdes, não permite tráfego de veículos pesados.
Em setembro do ano passado, uma carreta carregada com 21 toneladas de biscoito tombou em uma curva, na altura do Bairro Niterói. Um ponto de ônibus ficou destruído com o impacto, e, felizmente, não havia pedestres no local no momento da batida. Já em dezembro, na Vila Ideal, duas pessoas ficaram feridas e presas às ferragens após a batida de frente entre um micro-ônibus e uma picape.
Até o trevo de acesso a Matias Barbosa, a estrada é de competência do Pelotão de Policiamento de Trânsito da Polícia Militar (PPtran). De acordo com o tenente Rodrigo Oliveira, comandante do pelotão, operações são realizadas naquela área com frequência. “Temos como foco evitar a entrada de produtos ilícitos em nossa cidade, além de fiscalizar documentos do veículo e do condutor.” O comandante ressalta que, naquele trecho, os acidentes tendem a ser mais graves, sendo os mais comuns os provocados por ultrapassagem irregular e saída de pista.

