Superação. Esta é a melhor palavra para começar a contar a história de I., de 5 anos. Uma semana após comemorar seu 4º aniversário, em maio do ano passado, o menino alegre foi atingido por um tiro na cabeça, quando estava no colo da mãe, no Parque das Águas, Zona Norte. O projétil acertou seu olho esquerdo e transfixou a cabeça. Ele parou de enxergar, de falar e de andar. I. enfrentou cinco meses dentro do CTI, oito cirurgias, duas meningites e todas as limitações que lhe foram impostas. Há um ano e três meses ele reaprende a viver. "O que o fez voltar foi o amor que o cercou por todos os lados", contou a avó materna, Maria da Aparecida Silva, 42 anos, que tem a guarda provisória da criança.
Na última terça-feira, a Tribuna foi até a casa onde o menino e a avó moram. Depois de deixar o hospital, no dia 18 de outubro passado, a criança voltou para o conjunto habitacional onde foi alvejada. Com passos ainda cambaleantes, de quem deixou a cadeira de rodas há dois meses, o garoto apaixonado pelo Flamengo nos recebeu com um sorriso na porta da casa, ao lado da avó. Nem de longe ele parecia uma criança cuja violência poderia ter roubado a vida. Carinhoso, beijou, abraçou e, com o toque firme das mãos que viraram seus olhos, conheceu a equipe de reportagem e mostrou sua pequena residência. Sua independência impressiona: ele vai ao banheiro sozinho, troca de roupa e anda livremente pela casa, pois sabe exatamente onde fica cada cômodo.
No dia 20 de maio de 2013, Maria Aparecida trabalhava no serviço de limpeza do Pronto Atendimento Infantil (PAI) quando recebeu a notícia de que seu neto havia sido baleado. Quem a avisou disse que o garoto não teria resistido ao ferimento na cabeça. Fazia alguns meses que o menino morava no residencial com a avó, e exatos sete dias que a família havia comemorado com um pequeno bolo seu aniversário. "Já havia alguns dias que estava tendo brigas de gangues aqui, já tinha tido tiro, facada. Por conta disso, eu ainda tentei levar o menino para a casa da minha irmã, mas ele quis ficar com a mãe. Quando fiquei sabendo, comecei a falar com Deus, só pedia para Ele não me tirar meu neto, que me devolvesse ele do jeito que ficasse e que eu iria cuidar dele com todo amor", contou.
A mãe teve um ferimento superficial no peito e hoje não tem convivência com o filho. No mesmo episódio, Neilson Candido de Oliveira Filho, 19, morreu após ser alvejado no abdômen. Ele estava na rua, junto com a mãe e a criança, quando foi baleado. Quatro jovens – um de 20 anos, outro de 21 e dois de 22 – foram presos suspeitos de envolvimento no caso.
Luta pela vida
I. precisou esperar até conseguir um hospital equipado para fazer o procedimento cirúrgico. Segundo a avó, ele foi levado para a Upa São Pedro, passou pelo Hospital de Pronto Socorro (HPS), para só depois ir para a Santa Casa, onde foi operado e ficou por cinco meses. A criança chegou a ser desenganada pela medicina, mas a avó diz que nunca perdeu a esperança. "Além das cirurgias, ele precisou fazer drenagens no cérebro, colocou sondas para se alimentar, cateter no peito e hoje vive com duas válvulas na cabeça. Os médicos falaram que eu teria que montar um CTI em casa para levá-lo embora, mas não foi preciso."
O garoto voltou para a Zona Norte sem andar, sem falar, totalmente cego do olho esquerdo – de forma irreversível – e enxergando apenas vultos com o direito. Para levar o neto à fisioterapia e à fonoaudiologia, a avó descia com o menino na cadeira de rodas a rua íngreme onde moram para pegar o ônibus, na maioria das vezes lotado, segundo Aparecida. "Por conta dessa dificuldade, comecei a carregá-lo no colo. Ele mal se mexia na cama, e eu tinha que adivinhar quando tinha fome. Foi como se ele tivesse nascido de novo e reaprendesse tudo." Para se dedicar ao neto, a avó precisou largar o emprego de faxineira. Os dois passaram a viver com um salário mínimo que a criança recebe da Lei Orgânica da Assistência Social (Loas). "Queria muito voltar a trabalhar. O dinheiro é muito pouco, ele precisa se alimentar de três em três horas, e às vezes não tem comida", disse.
Mesmo com todos os obstáculos, os resultados foram surgindo. I. começou a se comunicar melhor e a dar os primeiros passos. Hoje já frequenta a escola e brinca como qualquer outra criança de sua idade. Aparecida o estimula a fazer atividades rotineiras sozinho para que ele possa ter uma vida normal. A esperança dela é que o garoto consiga recuperar parte da visão do olho direito. Passado o período mais difícil, a faxineira agora acalenta o desejo de que o menino possa voltar a conviver com o irmão mais novo, que hoje mora com o pai. "Ele não pode mais estar com a mãe, que voltou para as drogas. Ficar perto do irmão seria muito importante para ele. Gostaria que o pai deixasse que eles tivessem essa convivência."
O menino que optou pela vida se despediu da equipe dançando, jogando bola e brincando com um carrinho. "Ele sempre foi serelepe. Ver seu sorriso, apesar de tudo, é o que me dá forças para viver, nada o aborrece. Quando me abraça e me beija, ele me quebra no meio. É um guerreiro, é a minha vitória", disse a avó emocionada.
