
O baixo volume de chuvas observado entre janeiro e outubro deste ano, período em que o acumulado foi de apenas 56,8% do esperado de acordo com a média histórica do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), poderá refletir no abastecimento da cidade nos próximos meses. Isso porque a Represa de João Penido, de onde sai metade da água necessária para suprir as necessidades da população, está com apenas 22% de sua capacidade e, caso as precipitações continuem muito aquém do esperado, ela poderá atingir um nível crítico até o fim de janeiro, segundo a Cesama. Se isso acontecer, o município não poderá suprir a demanda deixada com a recém-inaugurada Chapéu D’Uvas, que deve operar até março com menos da metade de sua capacidade total em razão das obras de ampliação da estação de tratamento que a atende. O sinal de alerta está ligado e, de acordo com a companhia, as previsões meteorológicas desta semana serão essenciais para avaliar possíveis novas estratégias. Uma delas prevê diminuir a captação para intensificar o rodízio do abastecimento. Fato é que precipitações de poucos dias, como as observadas na última semana, não alteram o quadro preocupante.
Conforme o diretor de Desenvolvimento e Expansão da Cesama, Marcelo Mello do Amaral, as próximas chuvas precisam ser contínuas, com acumulado próximo ou superior à média histórica. Mas em novembro, que deveria chover algo em torno de 191 milímetros, o acumulado até a noite de sexta-feira era somente de 53,6 milímetros, o que significa 28% da média. Em outubro, mesmo com a soma dos mesmos 53,6 milímetros (47% do esperado), o armazenamento da João Penido declinou mais de 10%.
Atualmente, para não faltar água em nenhum lar, é necessária vazão de 1.500 litros por segundo. João Penido opera com índice entre 750 e 800 litros por segundo, e São Pedro com aproximadamente 90, apesar de também não estar conseguindo reservar recurso. Chapéu D’Uvas, que depois das obras poderá fornecer até 900 litros de água por segundo, hoje entrega 325 porque a estação de tratamento que a atende ainda está sendo ampliada. O restante necessário, cerca de 375 litros por segundo, é captado do Ribeirão do Espírito Santo, manancial de passagem, que também está com vazão aquém da esperada para esta época do ano (ver quadro).
Poucas frentes frias
Para Cássia Ferreira, do laboratório de Climatologia da UFJF, é difícil afirmar uma razão para o baixo volume de chuvas na região Sudeste do Brasil este ano. O fato é que as massas de ar quente e seco, que inviabilizam a formação de nuvens, estão cada vez mais frequentes. Este bloqueio impede as aproximações das frentes frias e a umidade vinda da chamada Zona de Convergência do Atlântico Sul, que propicia o aumento da umidade e as tempestades. “O ano todo está atípico, e todas as previsões feitas até o momento estão furadas. Fato é que, historicamente, são improváveis dois anos atípicos consecutivos. Mas viemos com poucas chuvas do último período, e esta situação está se repetindo. Então talvez nem chuvas dentro da normal, nos próximos meses, serão suficientes para a recuperação dos nossos mananciais. O uso racional precisa ser mantido, porque não teremos reabastecimento imediato dos nossos reservatórios. Isso ocorreria em um processo de médio a longo prazo. A população precisa entender que o problema não está solucionado se chover. A economia é necessária.”
Previsão não tranquiliza
Conforme o meteorologista Ruibran dos Reis, diretor regional do Instituto Climatempo, novembro deverá terminar com acumulado entre 40% e 50% da média histórica na cidade, enquanto dezembro deverá ter chuvas 40% acima da média. Em janeiro, o volume também deverá ser 10% maior, mas, em fevereiro e março, a tendência é de níveis novamente fora da normalidade, com aproximadamente 50% do esperado. “No total, este período deverá ter chuvas entre 30% a 40% abaixo do esperado. Em 2007, o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, na sigla em inglês) já informava que a variabilidade do clima seria muito grande daqui em diante. Ou seja, teremos alguns anos com muitas e outros com poucas chuvas. E isso é explicado principalmente pelas mudanças climáticas em razão do aquecimento global. A expectativa é que, nos próximos anos, os índices de precipitações e temperatura sejam muito fora do habitual. E, por conta disso, estou prevendo que 2015 será um ano ainda mais seco.”
Não é possível estimar impacto da seca deste ano
Mesmo que chova dentro da média histórica até março, o que não é provável, a Represa João Penido não deverá atingir o nível máximo de acúmulo d’água para os meses de estiagem em 2015. Porém o diretor de Desenvolvimento e Expansão da Cesama, Marcelo Mello do Amaral, afirma que será pouco provável a necessidade de adoção de novos rodízios na cidade no próximo período, embora afirme que a situação ainda será preocupante. A estimativa é que o início pleno da operação da Barragem de Chapéu D’uvas como manancial de abastecimento, que deverá ocorrer em março, favoreça a preservação dos outros mananciais. Outra obra importante em andamento é da Subadutora de São Pedro, que permitirá transportar grandes volumes de água para a Cidade Alta, evitando desabastecimento se a represa do bairro esvaziar.
Com isso, no cenário mais alarmante estimado, que leva em consideração acumulado de chuvas igual ao observado este ano, em outubro próximo, João Penido ainda teria quase a metade do volume máximo possível de acumular, de acordo com projeções da Cesama. Por ser menor, a Represa de São Pedro deverá recuperar o volume de água, que hoje está próximo de zero, assim como a própria Chapéu D’Uvas, que atualmente está com cerca de 37%, com tendência à estabilização. A explicação é que o recurso que chega na represa recém-inaugurada é muito maior que a própria capacidade dela de armazená-lo e, historicamente, todos os anos é necessário desfazer-se de parte do líquido, despejando-o no Rio Paraibuna.
Na opinião do professor do Departamento de Geociência da UFJF, Pedro Machado, especialista em recursos hídricos e autor de uma tese de doutorado sobre Chapéu D’Uvas, é difícil estimar como o novo manancial se comportará em 2015, já que será o primeiro ano no qual ele terá a função de regular o nível do Rio Paraibuna e ainda contribuir para o abastecimento da cidade. No entanto, ele afirma que o recurso a ser retirado para consumo é pequeno, se comparado ao seu potencial de armazenamento. Segundo a Cesama, saem do manancial de cinco mil a 20 mil litros de água por segundo para o Rio Paraibuna, enquanto a captação para consumo será de, no máximo, 900 litros por segundo.
“Precisamos atravessar este período para saber o impacto de uma seca como essa. Mas o fato é que estamos mais uma vez apagando incêndio, e isso remete ao problema da falta de planejamento e gestão. Ou seja, na época da estiagem, a imprensa divulga a falta de água, enquanto, no período das chuvas, são comuns os pontos de alagamentos e as quedas de barrancos. Já sabemos as consequências, o que muda a cada ano é a intensidade destes eventos”, afirmou Pedro. O especialista também explicou que Chapéu D’Uvas não pode ter a capacidade máxima de água armazenada, justamente porque uma de suas funções é de regulação do rio. Ou seja, se chover muito, a barragem evita enchentes em Juiz de Fora, enquanto, quando chove pouco, ela garante que o leito não fique completamente seco.
Lei municipal depende de sanção
Embora o rodízio no abastecimento tenha reduzido o consumo no município em cerca de 6% até o momento, a população ainda desperdiça água. Um projeto de lei aprovado na Câmara Municipal, em 20 de outubro, de autoria do vereador Antônio Aguiar (PMDB), tem como objetivo punir, com advertência e multa, o cidadão que utilizar o recurso tratado para lavagem de calçadas e fachadas com mangueiras em períodos nos quais os níveis dos mananciais estiverem críticos. No entanto, a nova conduta ainda não foi sancionada pelo Executivo. “Nosso objetivo é conscientizar a todos de que o recurso é finito e precisa ser preservado. A escassez de água este ano não é uma exclusividade de Juiz de Fora e chama atenção o fato de estar ocorrendo na região Sudeste, onde há grandes mananciais e estações. Mesmo sem a aprovação do Executivo, encaminhei para a Cesama, no fim do mês, o pedido de avaliação para que, por meio de decreto, haja proibição do uso da mangueira para lavar calçada neste período. No entanto, ainda não tivemos retorno”, disse o vereador.
Segundo o diretor-presidente da Cesama, André Borges de Souza, apesar de a companhia ser favorável à lei, existe um empecilho para sua aplicabilidade de ordem trabalhista. Isso porque não existe hoje, no quadro de funcionários, aqueles com atribuição de fiscalizar leis. “E alterar este atributo não é algo simples. Respondemos então ao Executivo com uma sugestão para que esta norma ficasse a cargo da fiscalização da Secretaria de Atividades Urbanas, embora saibamos que a pasta teria dificuldades por conta do efetivo.” Sobre a questão, a Prefeitura informou, em nota, que “está se organizando para operacionalizar a execução da lei em questão”. Detalhes e prazos não foram divulgados.
Mesmo sem a entrada em vigor da lei, Antônio Aguiar percebe que as pessoas já estão se conscientizando sobre o problema. “Vejo movimentação, principalmente nas redes sociais. Resta saber se, ao melhorar os níveis das represas e acabando o racionamento, as pessoas vão continuar adotando medidas que evitem o desperdício.”
Para o vereador, uma das saídas esperadas para os próximos anos seria o incentivo à reutilização da água. Porém, ele não entende que seria válida, no momento, uma lei para determinar isso. “Lei é só quando não vemos mudança de postura da população. O que queremos mesmo é despertar o interesse sobre as possibilidades. Seria importante alguma iniciativa do ramo da construção civil, com a elaboração de projetos que contemplem a instalação de reservatórios para captação de água das chuvas para uso interno de condomínios, por exemplo. O que vejo hoje é que já existe o clamor popular, e as pessoas não toleram mais atitudes que não tenham a visão da coletividade.”
