“Celular em sala de aula? Nem pensar.” O uso de aparelhos tecnológicos era totalmente proibido pelos professores, mas, atualmente, esses instrumentos têm sido incorporados pelos docentes, que celebraram o Dia do Professor neste sábado (15). Ao passo que o uso dessas tecnologias podem configurar ferramentas positivas no processo de ensino-aprendizagem, recomendadas inclusive pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), dispositivos hiperconectados podem, na mesma medida, contribuir para ocasionar um prolongamento das atividades dos professores, gerando sobrecarga aos docentes que veem seu momento de trabalho ultrapassando o tempo em sala de aula e mesmo de preparação de disciplinas. Além disso, revela desigualdades entre o ensino público e privado.
A professora de língua portuguesa Ana Maria Bastos Firmino, 51, que durante a pandemia lecionou no Colégio de Aplicação João XXIII, relata que nesse período as tecnologias digitais cresceram. “No início, foram os e-mails com materiais para estudo e recebimento de atividades. Depois, vieram as reuniões através do ‘meet’ e de outras plataformas digitais, aulas on-line, aulas gravadas, palestras, cursos, atendimento de alunos, tudo à distância. Hoje, na rotina de docente, preciso tomar cuidado para não deixar minha vida de lado.”
Além da sobrecarga, a pandemia revelou grande desigualdade, como observa Dina Amara Meneses Faria, 47, professora de língua portuguesa da Escola Municipal Menelick de Carvalho e da Escola Estadual Delfim Moreira. “Nossos alunos não possuem condições de manter um bom plano de internet/dados e, em muitos casos, tínhamos mais de um estudante por família com apenas um celular. Computador ou notebook, poucos possuem.”
A geração de Ana Maria e Dina Faria, assim como a do professor de Geografia do IFSudeste, Ciro de Souza Vale, 50, não teve a internet presente em seu ensino médio. “Na minha época de estudante, fundamental e médio, o ensino era muito tradicional e o uso de tecnologia era muito tímido e não se falava ainda na internet. Apenas mais tarde, quando cursava o ensino superior, nos anos 1990, foi que a internet se popularizou, principalmente no final daquela década. Os próprios celulares não eram dotados de tantos recursos como nos dias atuais”, relata Ciro.
Apesar da internet já existir no ensino médio do professor de Física do colégio Cave, João Victor de Souza Machado, 27, ele conta que na época em que se formou, em 2012, o uso não era tão intenso como atualmente. “Lembro que as pesquisas já eram feitas na internet, mas nem se compara com o que é hoje. Naquela época, inclusive, era proibido usar qualquer aparelho eletrônico na sala de aula. Hoje, por outro lado, a gente já usa esses aparelhos como meio de pesquisa e aprofundamento que nos ajudam a complementar conteúdo em sala de aula.”
Inserção da tecnologia como demanda da BNCC
Mesmo sendo proibido utilizar celulares em sua época, o professor João Victor não tem problema nenhum em incorporar esses aparelhos em suas aulas para estimular o processo de aprendizado de seus alunos. “Na minha área, por exemplo, a gente usa muitas estatísticas, então eu peço para eles procurarem ali no mesmo momento, qual é o novo valor ou medida. Antigamente, uma atitude dessas nunca seria autorizada e, caso o aluno pegasse nesse tipo de aparelho em sala de aula, a coordenação tomaria e só entregaria com a presença dos responsáveis, causando todo um mal-estar.”
Ao contrário, hoje a inclusão da tecnologia é recomendação do Estado.
“A BNCC solicita a inserção de tecnologia. No nosso colégio, inclusive, foi criado um ‘Espaço maker’, que vai além da sala de aula, no qual o aluno trabalha criando projetos, desenhando, planejando e colocando a mão na massa. Por exemplo, como acender uma lâmpada apenas com a sua voz. Buscamos ensinar dando autonomia ao aluno, permitindo, dessa forma, que ele aprenda inovando. Lá é um verdadeiro parque tecnológico.”
“O ensino médio é muito focado no Enem e nos vestibulares, como o Pism, que permite com que os estudantes ingressem na universidade”, ressalta João Victor. “No entanto, a proposta da BNCC pede que existam itinerários com formações diferenciadas, como a de robótica, que eu ministro no Espaço maker”, destaca o professor.
Além da forte inserção da tecnologia nos processos de aprendizado, João Victor conta que os docentes atualmente precisam utilizar a internet fora da aula, seja para preparar aula, estudar ou para se comunicar com os alunos. “Há colegas que reclamam desse uso da internet fora de sala para resolver atividades escolares, mas para mim, que tenho uma idade próxima da deles (alunos) é bem tranquilo. O único cuidado que eu tomo é estabelecer um horário, eu não respondo fora de hora e nos finais de semana, para conseguir ter uma relação saudável.”
Aumento da tecnologia escancara desigualdade
A doutora em educação e docente da Faculdade de Comunicação da UFJF Janaina Nunes observou, a partir de sua pesquisa realizada no projeto de extensão “Entre-telas”, que nas instituições privadas existe toda uma capacitação organizada pela escola, que funciona de cima para baixo. “Isto é, a direção compra recursos e forma os professores para trabalharem com os materiais adquiridos. Logo, o docente que se adequa vai bem naquela escola e segue; já quem não se encaixa, acaba saindo.”
No ensino público há mais falhas. “Seja pela falta de manutenção dos equipamentos, presença de técnico que cuide desses programas, ausência de um laboratório especializado com softwares gratuitos, entre outras dificuldades que a escola pública enfrenta para conseguir aplicar essas tecnologias. Ou seja, por mais que haja cursos, a inserção de tecnologias dentro da escola vai do protagonismo de cada professor, porque a instituição pública tem muitos outros desafios, como a questão da inclusão.”
Dina Faria, professora em escola municipal e estadual, afirma que está em curso um grande corte de verbas e um apagão de políticas públicas para educação por parte do Governo federal. “Ainda assim, espera-se que o professor seja capaz de usar as tecnologias, apesar das verbas para equipar as escolas não acompanharem as cobranças, ao contrário: muito do que usamos de tecnologia foi comprado com o nosso dinheiro e as muitas demandas não deixam sobrar tempo para as formações continuadas.”
Modelo tradicional x pós-pandemia
Com a eclosão da pandemia, os professores enfrentaram uma grande sobrecarga com as ferramentas tecnológicas, como observa o psicólogo e professor Fred Alvim. “Não ficou apenas no momento do estresse de ter que se adaptar a uma nova condição que foi exposta na pandemia, isso acabou se estendendo. No entanto, a identidade do professor não foi totalmente ressignificada, gerando uma incorporação do que veio da pandemia e do que já sabiam anteriormente. Isto é, os professores estão conjugando o modelo tradicional com o que aprenderam na pandemia, enfrentando, assim, uma maior jornada de trabalho.”
Diante disso, o psicólogo chama atenção para os cuidados que os professores precisam ter para não transformar o trabalho em um estresse constante que gere danos para a saúde mental. “A gente precisa criar medidas de controle, por meio de técnicas como o ‘mindfulness’, que é uma projeção cognitiva. Ou seja, aprender a controlar sua carga de pensamentos, de modo que você consiga disponibilizar maior atenção para o seu foco do momento, afinal não conseguimos absorver tudo aquilo que recebemos de estímulos.”
A professora Ana Maria Firmino, que atualmente leciona no IFSuldeminas, campus de Pouso Alegre, conta que com o intuito de não deixar o seu trabalho invadir o seu momento de lazer prefere não passar o seu WhatsApp aos alunos. “Justamente porque algumas pessoas não respeitam o tempo que precisamos para descansar, estar com a família e os amigos, desligar da correria e da pressão do cotidiano.” Apesar de evitar essa forma de contato, Ana Maria se coloca à disposição de seus estudantes por e-mail. “Eles enviam mensagens a qualquer hora do dia, da noite ou da madrugada. Então, sim, converso com meus alunos por e-mail e através de outras plataformas a que temos acesso.”
Tecnologia não é garantia de qualidade
Apesar de todos os pontos positivos que as ferramentas tecnológicas podem trazer para o processo de ensino-aprendizagem, isso não quer dizer que a tecnologia é sinônimo de qualidade, como observa o professor Ciro Vale. “A tecnologia pode ser uma ferramenta que auxilia o professor, mas deve ser vista com cuidado. Existe uma cobrança profunda para que os docentes sejam cada vez mais tecnológicos e vivam cada conquista da era moderna. A questão que me pergunto é se a tecnologia, sendo utilizada sem uma reflexão daquilo que está sendo contextualizado pelo professor, tem sentido. Não adianta o power point mais bem produzido, o aplicativo mais moderno e a aula mais pirotécnica se não existe uma profundidade naquilo que está sendo discutido.”
Além da demanda que os professores recebem de inserir tecnologia em suas aulas, os estudantes acabam recorrendo aos youtubers e influenciadores digitais que têm uma presença grande na internet em vários ramos, como no dos conhecimentos, mesmo esses muitas vezes não tendo a formação necessária para discorrer sobre determinados assuntos. “Com isso, muitos pesquisadores, intelectuais e filósofos têm os seus estudos esquecidos”, destaca Ciro.
“Logo, hoje, essa mesma sociedade que consome tanta modernidade também se caracteriza pela efemeridade. Prova disso é o atual estado de insanidade da sociedade brasileira e as mazelas que acometem o país e que põem em risco nossa democracia com ataques à ciência, à democracia e à civilidade. Isso mostra de uma vez por todas que só a tecnologia não irá nos salvar de nossa ignorância. O remédio para isso é o contínuo conhecimento e que requer o aprofundamento e o revisionismo da história desse país.”
