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Mudanças no Enem dividem especialistas

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Criado em 1998, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) passou por diversas transformações até os dias de hoje, que vão desde a organização das questões até a forma de utilização dos resultados. Entre as principais mudanças, está o uso da prova essencialmente como instrumento de seleção para o ingresso no ensino superior. Atualmente, este recurso já é adotado por todas as 59 universidades federais brasileiras, pelo menos em parte de seus processos seletivos. Outro marco na história da avaliação foi o uso como pré-requisito para o acesso a iniciativas do Governo federal como o Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies), o Programa Universidade Para Todos (ProUni), e o Sistema de Seleção Unificada (Sisu). A prova também é empregada como recurso de avaliação da qualidade de escolas e em substituição ao certificado de conclusão do nível médio (ver quadro).Para os especialistas, toda esta trajetória vem provocando impactos na educação nacional, de maneira nem sempre avaliada como positiva.

Perda de foco

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Segundo a doutora em educação Maria Inês Fini, que compôs a equipe de criação do Enem e participou de sua elaboração até 2002, o exame atual destoa completamente da proposta inicial. "O exame foi criado para ser um sistema de avaliação individual e virou uma prova de seleção para instituições, um processo para excluir pessoas, como o vestibular já era." Para o pró-reitor de graduação da UFJF, Eduardo Magrone, ainda é cedo para avaliar o Enem, apesar de já haver sinais que apontam para um resultado positivo. "A preocupação dos candidatos deixou de ser o que está na apostila para se tornar a interpretação e assimilação dos textos e ideias. É um ganho tímido, mas favorável", opina.

Em relação à criação do Sisu, Magrone aponta que um dos fatores construtivos foi o aumento do número de candidatos por vaga disputada. "O aluno tem que competir mais para entrar e, consequentemente, se preparar mais." O Sisu é um sistema informatizado, criado pelo Ministério da Educação (MEC), em que os estudantes são avaliados de acordo com a nota obtida no Enem. Os candidatos podem consultar as vagas disponíveis em um site, pesquisar as instituições e os seus respectivos cursos participantes e tentar o ingresso a partir da quantidade de pontos obtidos. Alguns estabelecimentos de ensino adotam notas mínimas para a inscrição em determinados cursos.

Críticas

A utilização do Enem como termômetro da qualidade do ensino médio nacional vem sendo amplamente criticada. Para Maria Inês Fini, diversas outras variáveis precisariam ser incluídas para que um diagnóstico coerente pudesse ser traçado. "É preciso investigar questões como a formação e a carreira dos professores, o nível socioeconômico dos alunos e seu acesso a bens culturais. Além disso, a maior parte das instituições não tem um número de alunos que seja, de fato, uma amostra representativa, o que causa discrepância nos resultados finais." O diretor-geral do Meta, José Mário Brunelli, também defende este argumento, citando a realidade juiz-forana. "Muitos alunos que têm um desempenho bom no Pism optam por não fazer o Enem", revela.

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Conteúdo do ensino médio dirigido e com limitações

Quando implementado, em 1998, o Enem possuía 63 questões interdisciplinares de múltipla escolha, sem divisão por matéria, e uma redação, sendo realizado em um dia. Desde 2009, os inscritos são submetidos a dois dias de provas, em que respondem a 180 questões divididas em quatro grandes áreas de conhecimento, além da redação.

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Para a tutora do Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação (Caed) Regina Meirelles, um dos maiores problemas da moldagem do ensino médio a partir da premissas do Enem é a possibilidade de conteúdos determinantes para a formação dos estudantes estarem sendo excluídos do currículo, em favor do que o exame solicita. "O aluno acaba sendo treinado para responder um tipo de questão, o que mata a criatividade e coíbe o raciocínio livre. Uma das piores consequências disso é a criação de uma geração de adultos carentes de um conhecimento mais amplo do mundo, da cidadania e da vida."

Para Maria Inês, o Enem, como é realizado atualmente, "tem a cara do vestibular tradicional." "É uma fórmula que prega que quanto mais se pergunta ao aluno, mais chances existem de saber sobre seu conhecimento, quando, na verdade, a preocupação deve ser sobre o quê e como se pergunta", opina.

 

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Preparação para exame impacta nível superior

Atualmente, o Enem é válido como primeira fase do vestibular da UFJF e, ainda, como forma de ingresso para os bacharelados em ciências humanas, artes e design e ciências exatas, por meio do Sisu.

A formação que o exame vem possibilitando é destacada por especialistas. "O Enem não é e não será solução para os problemas da educação brasileira, mas, a longo prazo, ele pode ser o primeiro passo para que os alunos cheguem às universidades com uma formação intelectual mais humana e menos enciclopédica", pontua o pró-reitor de graduação da UFJF, Eduardo Magrone.

Para o diretor-geral do Cave, Lawrence Gomes, este tipo de formação não é mérito da preparação para o Enem, mas da evolução natural do modelo educativo. "O excesso de academicismo e de questões pouco práticas já vinha sendo combatido pelas escolas e cursinhos há anos."

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O Sisu também tem sido criticado e apontado como possível responsável por eventuais quedas de qualidade no perfil dos que chegam à universidade. Para o doutor em educação e chefe do Departamento de Educação da Faculdade de Educação da UFJF, André Silva Martins, ele funciona como uma bolsa de valores. "O aluno confere sua cotação diariamente e pode escolher em que instituição entrar, com a possibilidade de alterar sua opção inúmeras vezes. Isso é perigoso, porque as universidades e carreiras podem acabar sendo escolhidas pela facilidade de ingresso e não por aptidão ou proficiência de ensino", questiona.

 

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