Consumo consciente é a palavra de ordem na casa do comerciante Márcio Lopes. Metade da residência foi construída com material de demolição. Ele garante que a madeira reutilizada tem mais de cem anos e que ainda vai durar outros 500. O fogão Cosmopolita, de quase 50 anos, não foi cotado para ser substituído por outro mais moderno. "Ele é novinho, é de primeira." Márcio usa apenas relógios antigos, que são automáticos. Para ele, os modernos ficam condicionados à durabilidade das baterias, que poluem o meio ambiente e, depois, não terão mais uso. "Vamos tentar salvar o planeta e guardar algo para nossos filhos e netos. Quanto menos destruir a natureza, melhor."
Em meio ao domínio do mercado consumidor nos dias atuais, aos 44 anos de idade, Márcio integra uma minoria quando o assunto é consumo consciente, visando à preservação ambiental, aos cuidados com a destinação do lixo e com o futuro do planeta. Diante de uma realidade de estímulo ao consumo, com uma economia que permite empréstimos a perder de vista para compra de móveis, eletrodomésticos, eletrônicos e carros, o que se percebe é o aumento acelerado das compras. "As pessoas não consomem apenas para satisfazer as suas necessidades mais básicas, mas, sim, consomem para satisfazer necessidades consideradas secundárias, com a finalidade de se autorrealizarem, se mostrarem socialmente. O alto nível da presença de eletrodomésticos, móveis e até mesmo carros no lixo do brasileiro é resultado da facilidade que este consumidor encontra em dar vazão a esse consumismo desenfreado", explica a pesquisadora do Grupo de Estudos em Marketing e Comportamento do Consumidor da Universidade Federal de Lavras (Ufla), Cintia Loos.
Com essa mudança de comportamento do consumidor, veio a geração sem precedente de lixo, composta de produtos de vida útil curta. Associado a isso, há também o descarte incorreto dos produtos. "Essa busca do indivíduo em saciar suas vontades e desejos de forma intensa gera o consumo indiscriminado de produtos e/ou serviços sem a preocupação dos resultados nocivos deste para a saúde ou para a natureza", relata a pesquisadora. Em terrenos e ruas da cidade são encontrados móveis, eletrodomésticos, carcaças de computador, geladeiras e outros eletrodomésticos, além de carros deteriorados, abandonados em locais públicos depois de perderem sua utilidade. "Se para consumir é preciso ter capital para tal, a facilidade do crédito para as classes menos favorecidas é um impulsionador de grande relevância para este processo. Para que consertar o velho se posso ter um novo facilmente? – esse é um questionamento que seguramente passa pela mente da nova classe C brasileira", afirma a pesquisadora do Grupo de Estudos em Marketing e Comportamento do Consumidor da Ufla, Kelly Carvalho.
Nos bota-foras
A coordenadora da Usina de Reciclagem de Lixo de Juiz de Fora, Vanilda Ribeiro, conta que, em meio ao material da coleta seletiva são enviados televisores, computadores, camas, armários, geladeiras e sofás. "Poucos desses materiais estão em bom estado. Geladeira, por exemplo, vendemos como sucata."
A Tribuna flagrou produtos deste tipo abandonados em bota-foras e ruas de bairros diversos. Só na Rua Major João Martins, na Vila Ozanan, região Sudeste, foram localizados dois sofás. Um deles sobre o passeio, na esquina com a Rua Sinval Correa, entre várias sacolas de lixo. Mais adiante, próximo à Avenida Doutor Fábio Nery, outro móvel estava no topo de um monte de areia, em um terreno usado para depósito irregular de lixo.
O Demlurb possui um serviço chamado "Cata treco", para o recolhimento desses materiais. Segundo a assessoria do órgão, a demanda ainda é pequena. O serviço precisa ser agendado (ver quadro).
Risco do despejo irregular de eletroeletrônicos
Diante da era da tecnologia, na qual as novidades de produtos eletrônicos ocorrem diariamente, o que não falta no lixo são esses materiais, desde pilhas e baterias até peças de computador. "O problema está no fato de estes bens, que já foram chamados de duráveis, serem hoje descartáveis, inclusive pelo apelo à compra de novos modelos cada vez mais sofisticados, uma necessidade criada pelo próprio desenvolvimento socioeconômico do país. Exemplificando: o consumidor brasileiro troca de Smartphone a cada 16 meses em média", comenta a pesquisadora do Programa Ibero-Americano de Ciencia y Tecnologia para el Desarrollo (Cyted), Gelda Lhamas.
A Tribuna flagrou peças diversas de computador amontoadas em bota-foras na Vila Ideal e em Nova Benfica. O lixo eletrônico, entretanto, requer atenção porque possui componentes tóxicos, como mercúrio, chumbo, fósforo e cádmio, que podem contaminar o solo e a água, causando danos à saúde das pessoas. "Uma solução interessante é reciclar esse lixo até o último parafuso, como é feito no Centro de Descarte e Reuso de Resíduos de Informática (Cedir/USP), onde são desmontadas toneladas de equipamentos. Essas peças, que vão desde cobiçadas placas com fios de ouro até parafusos, serão utilizadas em computadores remanufaturados ou vendidas para empresas de reciclagem de materiais específicos", relata Gelda.
Entretanto, muitas vezes, a destinação incorreta desses materiais ocorre por falta de conhecimento do local ideal de despejo. Em Juiz de Fora, a empresa Ambiente Limpo, localizada no Poço Rico, Zona Sudeste, por meio de doação, recebe materiais eletrônicos diversos (ver quadro). A empresa também recolhe esses produtos em casa, sem custo ao usuário. De acordo com o diretor-executivo André Carvalho, as doações são principalmente de peças de computador, como monitores, gabinetes, teclado e mouse. A Ambiente Limpo também recebe eletrodomésticos. Entretanto, para esses produtos não há o recolhimento na residência. "Cada peça do produto é separada. No computador, por exemplo, tem a placa, o ferro, o alumínio. Nas geladeiras, tem o motor e o plástico. Cada item é destinado para uma indústria", afirma André.
Carros ficam à mercê do tempo
O consumo desenfreado chega a alcançar inclusive produtos de alto valor aquisitivo, como é o caso dos automóveis. Diante das ofertas facilitadoras de novas aquisições, muitos carros, já em situações precárias, são abandonados nas ruas ao invés da realização do reparo. "Acredito que, quando os donos veem que o conserto é oneroso, acabam desistindo, abandonando o veículo. Uma vez, um cliente deixou um carro aqui na oficina. Acabei vendendo as peças", conta o mecânico João Dias.
A ação coloca em risco a vida da população, uma vez que muitos deles, já transformados em carcaças, viram criadouros do mosquito da dengue, atraindo roedores e ainda servindo de esconderijo para pessoas suspeitas. A Tribuna circulou por vários bairros e encontrou muitos carros deixados por longos períodos nas vias. Na Rua Santa Terezinha, no bairro de mesmo nome, Zona Nordeste, há veículos nestas condições até nas calçadas. Em frente ao número 650, um Fusca toma conta do passeio, impedindo a passagem de pedestres. Segundo a comunidade, ele está no local há muito tempo, o que pode ser constatado pela grossa camada de poeira. Na mesma rua, próximo à unidade da Cesama, há um Gol e um Escort, em local onde é proibido ficar estacionado. Os vidros das portas dos carros estão quebrados e os pneus, vazios. Mais à frente, uma Kombi chama atenção. O veículo não tem motor, está sem rodas, não há vidros e, no lugar do banco do motorista, há um sofá.
Já na Cidade Alta, o problema pode ser constatado na Avenida Eugênio do Nascimento, Bairro Aeroporto. Há mais de um mês, quem passa pelo local encontra um Fiesta estacionado dia e noite no mesmo local, próximo à entrada do Estádio Municipal. Ao lado do Fiesta, há um Marea, que não apresenta as rodas dianteiras.
Remoção
De acordo com a assessoria de comunicação da Secretaria de Atividades Urbanas (SAU), responsável por esse tipo de fiscalização, o abandono de veículos é considerado conspurcação, provocando uma série de problemas em relação à limpeza e à salubridade das ruas. A pasta mantém vistoria rotineira e também atua a partir de denúncias, que podem ser feitas pelo telefone 3690-7507.
Necessidade de medidas preventivas
Para a pesquisadora do Grupo de Estudos em Marketing e Comportamento do Consumidor da Universidade Federal de Lavras (Ufla), Cintia Loos, estimular o consumo sustentável (ver quadro) é uma das saídas para evitar o descarte de bens que poderiam ser reaproveitados. "O número de consumidores que se preocupa com a questão ambiental ainda é muito tímido, o que não quer dizer que não esteja em crescimento. A mídia e as escolas têm um papel fundamental nesse processo de conscientização do consumidor, que deve ser exposto constantemente a campanhas que estimulem a mudança de comportamento."
A pesquisadora do Programa Ibero-Americano de Ciencia y Tecnologia para el Desarrollo (Cyted), Gelda Lhamas, concorda que a mudança de hábito é uma oportunidade de inverter o quadro de produção deste novo lixo. Mas ela visualiza que isto está longe de acontecer. "É praticamente impossível reconduzir as pessoas ao seu antigo patamar de consumo. Pouco menos de 5% da população mundial defendem o não consumo." Diante deste quadro, ela aponta a importância da participação do Governo. "É o Poder Público que tem que atuar, com medidas preventivas, contribuindo para que certos tipos de consumo passem a ser dispensáveis. E então, partiríamos para programas de reciclagem consistentes."
