
Flagrante de homem urinando em monumento
Patrimônio tombado do município e um dos principais símbolos de Juiz de Fora, o Parque Halfeld tem sido evitado por pessoas que eram assíduas frequentadoras por causa da degradação e do uso da área como ponto de tráfico e uso de drogas. Durante três semanas, a Tribuna acompanhou a movimentação no local em diversos horários e ouviu pessoas que já modificaram a rotina por se sentirem inseguras. Apesar da presença diária da Guarda Municipal, a reportagem observou cenas de uso de substância semelhante a maconha, prostituição e utilização da área como dormitório, banheiro e até mesmo área para lavar e estender roupas em varais improvisados. Durante os dias de monitoramento do jornal, os guardas mantiveram-se restritos ao trecho em frente à Câmara Municipal. As próprias autoridades responsáveis pela segurança reconhecem o uso do parque para práticas ilícitas, mas argumentam dificuldades para coibir os abusos.
O primeiro flagrante foi realizado no dia 27 de julho, por volta das 19h30. Dois homens e duas mulheres conversavam em um banco do parque, quando uma quinta pessoa se aproximou. Um deles foi até ao coreto, onde pegou algo e juntou-se novamente ao grupo. Em seguida, um cigarro foi aceso e oferecido a todos. Uma viatura da Polícia Militar entrou no parque, passou em frente a eles e foi embora.
Uma mãe, 40 anos, que levava os três filhos todas as manhãs ao parque deixou de frequentar o local: "Não vou mais por conta da sujeira, do mau cheiro e da degradação. No banco onde costumava tomar sol com as crianças, agora, frequentemente, estão pessoas fazendo uso de álcool logo de manhã." Um comerciante, que atua no parque há dez anos, diz saber da venda e do uso de maconha na parte mais próxima à Rua Santo Antônio. Ele denuncia também a prostituição. "Isso acontece há muitos anos. O pior é quando algumas garotas sentam nos bancos e são confundidas com as prostitutas. Sem contar o uso excessivo de álcool por frequentadores a qualquer hora do dia. Eles falam alto e gritam. Isso prejudica, e muito, a imagem que as pessoas têm do Parque Halfeld."
Drogas durante o dia
Atitudes suspeitas também são observadas durante as tardes. No dia 28 de julho, seis jovens conversavam abertamente sobre drogas em um banco na área central do parque. "Já estou com o bagulho aqui, vamos lá fumar?", disse um deles. Um dia depois, outro grupo estava sentado, no mesmo banco, consumindo um cigarro semelhante a maconha, já que o cheiro característico da droga podia ser sentido.
Na semana passada, a Tribuna voltou ao local. Às 17h30 da última quarta-feira, o mesmo homem, observado dias antes sentado no banco fumando cigarro semelhante à maconha, estava no parque, acompanhado novamente das duas mulheres. Desta vez, ele estava em uma das mesas utilizadas por idosos para jogar cartas e xadrez. Não demorou muito para dois jovens,com mochila nas costas, chegarem até eles. Após uma rápida conversa, os dois saíram em direção à Rua Santo Antônio. Ali mesmo, ao lado de uma banca de revistas, ambos sentaram e começaram a fumar maconha. Quem passava por perto sentia o cheiro do entorpecente. Uma senhora reclamou: "Mas que absurdo!" Depois de dez minutos, eles saíram, em direção ao Calçadão da Halfeld. Este mesmo homem podia ser encontrado no espaço na tarde de ontem. Ele se movimentava para todos os cantos, sempre de encontro a jovens, com uniformes escolares.
Outro comerciante, que trabalha há dois anos na área, conta que nunca viu o uso de drogas, mas é comum os clientes denunciarem o flagrante. "Geralmente percebo que os estudantes vão ao parque, pegam alguma coisa e sobem a Rua Marechal Deodoro, para cima da Igreja de São Sebastião." Ele ainda fala da falta de respeito com o espaço. "Mesmo com o banheiro, muitos urinam na grama e nas árvores. Alguns dias, o cheiro de fezes é insuportável."
A responsabilidade pela segurança do patrimônio é da Guarda Municipal. No entanto, em nenhum dos dias de observação os agentes foram encontrados guardas no interior do parque. Eles se limitaram a ficar no espaço em frente à Câmara Municipal. Além disso, nenhum agente foi visto no local após as 19h30. Também a Polícia Militar, que tem um Posto de Observação e Vigilância (POV) na área, mas voltado para a Avenida Rio Branco, foi vista apenas no entorno algumas vezes.
‘Frequentador precisa denunciar’
Conforme a assessora de comunicação do 2º Batalhão da Polícia Militar (BPM), capitão Kátia Moraes, os problemas no Parque Halfeld são de conhecimento da corporação, mas ela salienta a dificuldade em identificar os infratores. "Precisamos que a população denuncie estas irregularidades. Infelizmente, quando o policial chega a um local, os infratores se escondem, e esta é a mesma dificuldade encontrada pela Guarda Municipal." A recomendação é que, ao perceber atitudes suspeitas, as pessoas liguem para o disque denúncia unificado, o 181, já que o denunciante não é identificado.
Segundo a capitão, a responsabilidade pela manutenção e segurança dos parques do município é da Guarda Municipal. "Mesmo assim, trabalhamos em conjunto. A PM tem um posto de observação em frente, e faz abordagens periódicas."
De acordo com o chefe da Guarda Municipal de Juiz de Fora, major José Mendes da Silva, o uso de maconha no espaço já foi identificado pelos guardas no parque, inclusive com registro de ocorrências. No entanto, ele afirma que o tráfico nunca foi observado. "Acreditamos que isso acontece sim, mas durante a madrugada, quando os guardas já foram embora."
Perguntado sobre a conduta dos agentes, já que não foram encontrados circulando pelo interior do espaço, ele disse desconhecer o problema, mas enfatizou que vai tomar providências. "Vou orientá-los a circularem mais."
Atualmente, dois guardas atuam na área a cada turno, permanecendo no local, segundo Mendes, entre 7h e 23h. Mas, durante a madrugada, o medo prevalece. Uma aposentada de 75 diz já ter sido abordada por suspeitos no parque por volta da meia-noite. "Estava com uma amiga, e começaram a nos seguir, pedindo dinheiro. Nós que somos idosas, nos sentimentos mais vulneráveis."
‘Cidadão precisa sentir segurança para voltar ao local’
Pessoas deitadas sobre os canteiros e estendendo roupas no coreto e nos bancos também são atitudes facilmente flagradas no Parque Halfeld. Para o presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), núcleo Juiz de Fora, Marcos Olender, uma solução para o Parque Halfeld e outras praças da cidade é a maior utilização dos espaços pelo Poder Público, inclusive durante as noites. Segundo ele, o cidadão necessita ter a sensação de segurança para voltar a frequentar o local e, consequentemente, inibir a prática de atos ilícitos. "O público precisa ser atraído. Na Europa, por exemplo, os parques são usados durante todo o dia, até mesmo para as refeições."
Uma moradora, de 43 anos, que vive há 15 em um condomínio próximo, acha que a solução seria colocar grades no entorno e fechar o espaço durante as madrugadas. Mas Olender não concorda, explicando que o espaço público precisa ser livre. "Se aumentar a segurança e melhorar a iluminação, a vadiagem diminui, e os infratores somem."
Outro morador, 82 anos, que vive há 20 naquela região, opina que a segurança do entorno está cada vez pior. "Um porteiro que trabalha aqui perto já foi assaltado e agredido na madrugada, horário que não há qualquer segurança disponível. Quando eu era síndico, e coloquei grades no meu prédio, fui ameaçado por estas pessoas, pois não era mais possível dormir em nosso jardim. A verdade é que o Parque Halfeld está abandonado."

