
Uma das principais vias da Cidade Alta, a Avenida Presidente Costa e Silva, no Bairro São Pedro, continua liderando o ranking de infrações de trânsito em bairros da cidade, mesmo após campanha realizada pela Settra, em abril, para conscientizar os condutores. Entre março e maio, foram 325 multas, sendo 222 por estacionamento em pontos de ônibus (ver quadro). Outro fator alarmante é o acumulado de registros nos primeiros cinco meses do ano, que já somam 659 infrações, quase o dobro do registrado em todo 2012, que foi de 331.
Entre abril e maio, segundo o levantamento da Settra referente à campanha, a avenida apresentou um leve declínio no número de multas, passando de 142 para 113, porém, os flagrantes ainda são comuns na via. Nos meses de junho e julho, a Tribuna esteve várias vezes na Costa e Silva, em diferentes horários, e constatou que as principais irregularidades apontadas no relatório ainda são cometidas. Além das baias destinadas à parada de coletivos estarem repletas de carros e caminhões, outros veículos também insistem em estacionar em desacordo com a regulamentação específica. Outro flagrante comum é a execução de conversões e manobras em locais proibidos.
Para o mestre em engenharia de transporte José Luiz Britto Bastos, o grande problema na Costa e Silva ainda é a cultura da população. "O estacionamento irregular acontece em qualquer lugar, embora haja consciência das infrações pelas pessoas, elas continuam cometendo os mesmos erros. Conhecem as normas, mas fazem propositalmente, achando que não existe punição", explica. Ainda conforme o especialista, outro fator que resulta em mais irregularidades são os valores cobrados por cada multa que, na visão dele, são irrisórios.
De acordo com o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), as multas por estacionamento irregular, por exemplo, podem variar de leve a gravíssima, resultando na perda de três a sete pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e multa de R$ 53,20 a R$ 191,54. "É preciso atualizar os valores, pois a conscientização só se dará quando começar a mexer no bolso. Ainda falta educação."
Na visão do chefe do Departamento de Fiscalização do Transporte e Trânsito da Settra, Paulo Perón, as irregularidades continuam a ser cometidas na Costa e Silva devido ao imediatismo e a pressa dos condutores. "A situação se potencializa ainda mais por conta do comércio da região. A necessidade de se resolver tudo rápido, aliado ao fluxo intenso de veículos na avenida e à falta de atenção na sinalização, faz com que o estacionamento se torne em um ato de infração. É preciso maior conscientização, que não é um trabalho imediato, e sim de médio a longo prazo", explica.
‘Mau costume dos moradores’
"O que ocorre na Avenida Costa e Silva é o mau costume e a resistência em aceitar as mudanças ocorridas na via. Não existe problema quanto a estrutura, mas ao comportamento das pessoas", comenta o mestre em engenharia de transporte José Luiz Britto Bastos. Para ele, é preciso que a comunidade da Cidade Alta altere sua forma de pensar. No entanto, o coro dos comerciantes é outro. "A obra foi excelente em termos de estrutura e organização do trânsito, mas se esqueceram do comércio. A Costa e Silva precisa ser uma via de trânsito lento para melhor atender aos lojistas e consumidores", comenta o dono de um hortifrúti, Ronaldo Gomes Frizeiro, 33 anos.
Para a proprietária de uma padaria na Costa e Silva, Marcilene Aparecida Coelho, 40, a falta de vagas de estacionamento para os clientes contribuiu na queda de 30% nas vendas de seu estabelecimento. "Eles reclamam que não tem mais aonde parar o carro."
"O tamanho dos pontos de ônibus ficou exagerado e, com isso, existem poucas vagas para estacionamento. Em frente a alguns estabelecimentos, colocaram vagas que permitem o motorista ficar com o pisca-alerta ligado por dez minutos, mas não resolvem o problema. Outra reclamação é a respeito dos retornos na via, com mais de dois quilômetros de distância um do outro", ressalta o dono de um armarinho, Sérgio Carvalho, 46.
"Tudo o que é novidade traz consigo um problema", defende o dono de uma farmácia, Cláudio Badaró, 42. Segundo ele, após o término da obra, não sentiu grande impactos, mas notou muita resistência por parte das pessoas. "Percebo que hoje muitos respeitam por medo, mas não vejo cobrança. Acho que o mesmo investimento que tivemos na Costa e Silva deveria haver em outras vias", comenta.
Reduções e aumentos
A campanha realizada pela Settra na Avenida Costa Silva, no São Pedro, para conscientizar os motoristas, foi estendida para outros bairros onde há intenso fluxo de carros devido a existência de centros comerciais: Santa Luzia, Bandeirantes, Benfica e Santa Terezinha. Na Avenida Ibitiguaia, em Santa Luzia, Zona Sul, o resultado foi positivo. O número de irregularidades passou de 62 em abril para oito em maio.
No entanto, outros bairros apresentaram o efeito contrário, ou seja, o aumento no número de infrações. Na Avenida Rui Barbosa, em Santa Terezinha, região Nordeste, por exemplo, os 11 registros de abril passaram para 20 em maio. O mesmo aconteceu na Rua Martins Barbosa, em Benfica, Zona Norte, de três para nove.
Nestas vias, conforme explica o chefe do Departamento de Fiscalização do Transporte e Trânsito da Settra, Paulo Perón, as disparidades se deram pelo efeito das ações perante a população. "Em Santa Luzia, por exemplo, as pessoas passaram a ficar mais atentas à fiscalização. Já em Benfica e em Santa Terezinha, muitos motoristas ainda continuam a cometer as mesmas infrações, como deixar o carro estacionado onde é permitido apenas parar por alguns minutos com o pisca-alerta ligado", explica.
A campanha foi realizada entre os dias 15 e 19 de abril, inicialmente, de forma educativa. Os veículos estacionados em locais proibidos receberam um adesivo com os seguintes dizeres: "Atenção. Você está cometendo uma infração de trânsito por estacionamento irregular. Respeitar as leis é garantir qualidade de vida para todos". A segunda etapa consistiu na autuação dos veículos infratores.

