“Escolhi ser professora de língua portuguesa por vontade de ensinar o outro a aprender a ler e a escrever. O trabalho do professor é muito próximo ao do aluno, e é para a vida toda”, reflete Denise Pereira Rebello, 54 anos, professora de língua portuguesa que deu aulas na rede pública de ensino de Juiz de Fora por mais de 20 anos. Por ser apaixonada pelo ambiente escolar, Denise nunca o deixou: depois de se formar no ensino médio, em meados dos anos 1990, logo engatou nos estudos da licenciatura em Letras.
A atuação da professora dentro das salas de aula e nas escolas mudou. Há pouco mais de dois anos, Denise integra a Supervisão de Alfabetização e Recomposição de Aprendizagens, vinculada à Secretaria de Educação da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF). Ela também atua no Programa de Recomposição e Avanço da Aprendizagem, na Superintendência Regional de Ensino da Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais (SEE/MG). Atualmente, voltou a ser aluna, cursando o doutorado na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
A partir de suas experiências e reflexões, Denise compartilha um olhar não apenas sobre uma das profissões mais importantes e centrais da cultura humanista, como também sobre os desafios e as possibilidades da educação brasileira. No Brasil, o Dia do Professor é celebrado em 15 de outubro, data que remete ao decreto de Dom Pedro I, assinado em 1827, que instituiu o ensino das primeiras letras no país. Quase dois séculos depois, a valorização dos professores, o incentivo e o fomento à educação seguem entre os debates mais importantes do mundo contemporâneo.
Professora e o papel de constante aluna
Antes mesmo de se formar na licenciatura, Denise já dava aulas de língua portuguesa. Seu interesse pela disciplina vem de um olhar sobre as possibilidades que os diferentes usos da língua podem oferecer. A leitura, para ela, não é somente a atividade de decodificar as frases e as palavras, mas de interpretar, compreender, atuar criticamente diante do texto, seja oral ou escrito – o que considera uma grande diferença.
Em 1996, logo quando se graduou, teve seu primeiro emprego lecionando a disciplina no Colégio Academia, onde antes era aluna. “Sempre gostei de ler e sempre gostei da língua portuguesa.” Como leitora, ela conta ter sido marcada pelos clássicos da literatura brasileira e pelo escritor carioca Machado de Assis, como também pelo dramaturgo inglês William Shakespeare.
Para além da ficção e dos livros pedagógicos, Denise também ressalta a importância que a leitura de livros da doutrina espírita teve não apenas em sua formação como pessoa, mas também como professora. “Me ajudou a ver a educação de uma maneira integral. Vejo o aluno como uma alma que já traz experiências anteriores, e preciso ter um olhar sensível para estimular, acolher e escutar esse estudante.”
Entre as lembranças de sua aproximação com o espiritismo, Denise destaca o aprendizado com a médium Isabel Salomão de Campos, conhecida como “Dona Isabel”, da Comunidade Espírita Casa do Caminho, em Juiz de Fora, a quem considera sua professora. Ela também menciona a leitura do livro “Pedagogia Espírita”, do escritor e jornalista José Herculano Pires.
Como conta, assim como sua imersão na doutrina espírita, o início da carreira como professora foi de muito aprendizado. “Cada dia fica melhor, porque você vai adquirindo experiência. São sempre os mesmos desafios, de como lidar com o próximo, mas o início foi como uma confirmação do que eu queria.”
‘O professor é quem valoriza a sua profissão’
Em 2002, depois de alguns anos de experiência no outro lado da sala de aula, iniciou sua carreira na rede pública de ensino, tanto na municipal quanto estadual. “A escola é viva, cheia de alegria, nos dá muitas possibilidades, embora existam os desafios e as dificuldades, é um ambiente de crescimento”, defende.
Denise acredita que a postura do professora pode transformar a educação. “O professor é quem valoriza a sua profissão, não podemos esperar do outro.” Segundo ela, o professor deve mostrar o seu desejo em ensinar e, para isso, precisa criar estratégias para estimular o interesse e o aprendizado de seus alunos. Somente assim o estudante pode dar um outro sentido aos seus estudos, que não sejam somente sobre aplicação de regras, mas sobre usar o que aprendeu da melhor forma no seu dia a dia.
“Quando a gente parte do que o aluno gosta para chegar ao que ele ainda não conhece, faz mais sentido para o aluno e temos mais condições de estimular seu interesse”, explica a professora Denise.
‘O trabalho de incentivar a leitura’
Diante de uma queda do hábito de leitura no país e do aumento das distrações tecnológicas, a educadora defende que professores usem estratégias para apresentar a atividade de ler aos estudantes de uma forma prazerosa, criando rodas de conversa e leituras compartilhadas. “Sempre falo para os meus alunos que não precisamos gostar de tudo o que lemos, mas é importante conhecer, fazer leituras diferentes para entender o que gostamos. Precisa ser um trabalho mais leve, não ter aquela cobrança de leitura.”
Segundo a professora, que também é mãe, para além do ambiente escolar, também cabe aos pais e responsáveis incentivar seus filhos a lerem mais livros. “Alguns pais ficam no celular o tempo todo, e assim os filhos também vão ficar. Mas a família deve estimular, levando a criança ou o jovem em uma feira cultural, uma feira de livros, uma livraria ou uma biblioteca. O trabalho de incentivar a leitura não é só da escola, é uma parceria com a família. Acho que é mais um desinteresse social, que acaba refletindo na escola.”
‘Dentro e fora da sala de aula’
Hoje, mesmo desempenhando um outro cargo, Denise segue dentro das escolas e salas de aula. No acompanhamento da aprendizagem de estudantes da rede pública e das ações de recomposição, que buscam reduzir as lacunas de conhecimento dos alunos, ela conta que muito mudou na educação, mas os desafios seguem. A professora aponta que a pandemia trouxe muitos obstáculos e deixou consequências para o ensino e a aprendizagem.
“Alguns estudantes permanecem em defasagem porque estavam, por exemplo, na fase de alfabetização, mas não tiveram a intervenção necessária naquele momento. Depois, chegam ao quinto ou sexto ano sem terem consolidado habilidades básicas”, explica a educadora. Diante desse cenário, ela destaca a importância do acompanhamento próximo do professor e da adoção de estratégias pedagógicas que considerem as dificuldades de cada aluno e favoreçam o avanço na aprendizagem.
Por fim, a professora, que continua sendo uma aluna, aprendendo junto aos alunos ou professores que acompanha nas escolas ou em sua formação no doutorado na Faculdade de Educação da UFJF, acredita que o aprendizado deve ser um processo contínuo. Dentro e fora da sala de aula, para além dos espaços formais de ensino, há possibilidade de crescimento. “Tem muita coisa boa acontecendo, muitas pessoas dedicadas. O professor sempre vai ser muito necessário e importante.”
