
Paisagem de Juiz de Fora foi transformada ontem pela névoa seca, considerada típica da estiagem
Fogo chegou próximo à BR-267, na altura do Floresta, atrapalhando visibilidade de motoristas
Há 45 anos a cidade de Juiz de Fora não via um calor tão forte quanto o de ontem. Durante a tarde, a estação do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), instalada no Campus da UFJF, registrou o patamar de 36,2 graus. O dia entrou para a história como a segunda maior temperatura máxima já ocorrida na cidade. A sensação de calor foi agravada pela falta de ventos e baixa umidade relativa do ar, que esteve novamente em estado de alerta. O resultado disso foi uma névoa seca que pairou sobre o céu da cidade durante todo o dia causada, principalmente, pelo alto número de incêndios. Somente ontem, foram contabilizadas 20 ocorrências até às 18h, e os Bombeiros só conseguiram atender metade delas. Em um dos casos, na BR-267, o fogo consumiu cerca de três quilômetros de vegetação.
O cenário preocupa devido à realidade de escassez dos mananciais, conforme matéria divulgada ontem pela Tribuna. Sem previsão de chuva forte, com o calorão e o consumo em alta, a Cesama pede a colaboração da população para evitar um possível racionamento. A expectativa é de que a barragem de Chapéu D’Uvas comece a operar definitivamente hoje na cidade, mas o fôlego não será suficiente para repor a água perdida nas represas por enquanto.
A última vez que houve situação semelhante de calor em Juiz de Fora foi no verão de 1969, quando a estação da praça do Bairro Mariano Procópio registrou a mesma temperatura de 36,2 graus no dia 17 de fevereiro. A maior de todas elas ocorreu em 6 de dezembro de 1923, quando os termômetros chegaram a 37,4 graus. Na segunda-feira, a cidade já havia registrado o dia mais quente do ano, com os termômetros chegando a 34,4 graus.
Poeira e fumaça
A névoa seca que dominou o céu da cidade intrigou os juiz-foranos e rendeu publicações de fotos e comentários de internautas nas redes sociais, questionando o significado daquela paisagem. Segundo o Inmet, o fenômeno é causado pela suspensão de partículas de poeira fina e fumaça no ar. Invisíveis a olho nu, as partículas reduzem a visibilidade e são numerosas o suficiente para causar o aspecto opaco no ar.
De acordo com o meteorologista do 5º Distrito do Inmet, Cléber Souza, a névoa seca é típica da estiagem. “A massa de ar quente e seco que está sobre o estado ficou mais intensa nos últimos dias. Sem nenhuma umidade, a névoa fica ainda mais visível, principalmente no amanhecer e entardecer. Isto provoca o visual avermelhado do sol. Além disso, com o alto índice de radiação solar, não há formação de nuvens”.
Ele acrescenta que a umidade em todo o estado está em torno dos 15%, sendo que, em algumas cidades do Norte de Minas, este índice chegou a 10%, considerado estado de emergência. Em Juiz de Fora, este número ficou em 18%, o menor registrado em todo o ano. Há a possibilidade de chuva isolada na Zona da Mata hoje, mas, segundo o meteorologista, não existe aproximação de frente fria. Previsão real de chuva apenas para semana que vem.
Cuidados
A professora do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFJF e especialista em poluição ambiental, Aline Procópio, orienta que são necessários cuidados especiais dada a baixa umidade do ar e consequente névoa seca. “Grupos de risco, como idosos e crianças, precisam ter atenção redobrada, já que, com esta situação, cresce o número de doenças cardiorrespiratórias. É importante também manter os ambientes umidificados, seja com vaporizadores, toalhas molhadas ou bacias com água. Recomenda-se evitar atividades físicas entre 10h e 16h.”
Focos de incêndio sobrecarregam Corpo de Bombeiros
Minas Gerais é o estado com maior registro de queimadas no país. De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em 48 horas, foram contabilizados 765 casos no estado, quase um terço de todos as ocorrências no Brasil (2.762). Em Juiz de Fora, o Corpo de Bombeiros está tendo dificuldade para atender todas as demandas. Ontem, das 20 ocorrências, somente a metade tinha sido atendida até às 18h. Desde o início do ano, foram 836 focos de incêndio na cidade.
Na tarde de ontem, houve uma ocorrência grave na BR-267, próximo ao Bairro Floresta, onde o fogo consumiu cerca de três quilômetros de vegetação. Segundo moradores, o incêndio teve início por volta do meio-dia. Os focos se alastraram pela vegetação, e as labaredas atingiram dois metros de altura. O incêndio chegou próximo à estrada, obrigando motoristas a reduzirem a velocidade para atravessar o trecho, na altura do km 85. “É comum as pessoas fazerem incêndio aqui, eles passam e jogam resto de cigarro, outros ateiam fogo no mato. É criminoso. A gente não tem mais medo, todo ano é assim”, disse uma moradora.
Situação parecida foi constatada na estrada União e Indústria. Por volta das 15h, o fogo em vegetação, próximo ao km 94, sentido Bairro Floresta, projetou uma cortina de fumaça na pista, comprometendo a visibilidade do trecho.
De acordo com o assessor organizacional do 4º Batalhão de Bombeiros Militar (4ºBBM), capitão Marcos Santiago, a corporação tem se desdobrado para atender os chamados. “Não temos condições de estar simultaneamente em vários pontos, como é o caso dos últimos dias. As ocorrências demandam tempo, e estamos fazendo uma triagem para chegar àqueles locais que realmente estão ameaçando residências, ou que tem uma vegetação mais rica. Há uma demanda reprimida, já que não temos viaturas nem recursos humanos para atender tudo, mesmo reunindo todos os esforços.” Ao todo, o 4ºBBM atende 144 municípios, com quartéis em Juiz de Fora, Ubá, Barbacena, Muriaé, São João del-Rei e Conselheiro Lafaiete. O batalhão possui atualmente 511 militares e 87 viaturas.
Crime ambiental
A professora do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFJF, Aline Procópio, explica que a situação está preocupante, já que a névoa vista ontem na cidade é formada por partículas provenientes, principalmente, das queimadas. “O número de incêndios na cidade está assombroso, e sua redução é fundamental para a melhoria na qualidade do ar. A população precisa se conscientizar a respeito do assunto e parar de realizar queimadas de fundo de quintal. Muitas vezes, elas não sabem que estão cometendo um crime ambiental. Se a situação continuar desta forma, será necessária a intensificação de campanhas de conscientização.”

