
Juiz de Fora já ultrapassou a média histórica de chuva prevista para todo setembro, de acordo com Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). A cidade registrou, até as 9h da última segunda-feira (14), o acumulado de 93 milímetros (mm), enquanto a média histórica para o mês é de 57,8 mm. A diferença ocorre em um período que, segundo o órgão, tem apresentado comportamento mais chuvoso que o habitual e que ainda deve registrar precipitações nos próximos dias.
Com o cenário de chuva contínua, a Defesa Civil emitiu, nessa segunda, um alerta para o risco de o solo ficar encharcado e saturado, aumentando a possibilidade de deslizamentos. A orientação é observar sinais como estalos no solo, rachaduras em paredes, muros ou no chão e movimentações anormais do terreno. Em caso de sinais de deslizamento iminente, a recomendação é deixar imediatamente o local e acionar a Defesa Civil pelo telefone 199.
Para a climatologista Cássia Ferreira, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), esse início das chuvas pode estar associado ao El Niño, que já começou a exercer seus efeitos. “Nós últimos 20 anos, setembro tem sido bem seco, com muita incidência de queimadas, com a chegada das chuvas mais cedo, este quadro se modifica”, explica a especialista, que analisa o comportamento do tempo no município desde 1974.
De acordo com a professora, existe uma tendência de que o início da estação chuvosa na cidade comece na segunda quinzena de outubro. Porém, neste ano, o cenário foi outro. O fato das chuvas terem começado, de forma mais intensa e contínua, na primeira quinzena de setembro destoa, conforme Cássia. “Há muitos anos que não temos as chuvas iniciando em setembro.”
PJF anuncia plano, mas não divulga ações
No dia 31 de agosto, a prefeita Margarida Salomão (PT) havia anunciado em suas redes sociais que o Município estava elaborando um plano de ação para enfrentar o El Niño, estamos elaborando um plano de ação. De acordo com a gestora, o projeto seria divulgado nos próximos dias.
“Aproveito para ressaltar que as áreas interditadas devem continuar desocupadas, em defesa da vida. Mesmo sem fortes chuvas, nossas equipes têm monitorado deslizamentos, instabilidade do solo e risco iminente nas áreas vulneráveis. Portanto, se atentem aos alertas emitidos, respeitem as orientações da Defesa Civil e fiquem seguros”, acrescentou Margarida na publicação.
Quinze dias após a postagem, o jornal procurou a PJF para saber quando as ações seriam divulgadas. Em resposta, a Prefeitura informou que “vai fazer a divulgação do plano no momento oportuno”.
Efeitos do El Niño na cidade
Os possíveis efeitos do fenômeno já haviam sido apontados por especialistas ouvidos pela Tribuna. No Sudeste, o El Niño tende a favorecer temperaturas acima da média, com possibilidade de ondas de calor, além de períodos de seca e, em determinadas condições, chuvas mais intensas. Em Juiz de Fora, características como a concentração de áreas impermeabilizadas e a baixa cobertura vegetal em algumas regiões podem potencializar os impactos do calor, como explicou Cássia.
Também em entrevista à Tribuna, em junho, o professor Fabrício Alvim, do Departamento de Botânica da UFJF, já havia alertado que o El Niño poderia favorecer períodos de seca e queda da umidade do ar, aumentando o risco de incêndios, ao mesmo tempo em que poderia intensificar as chuvas. Segundo ele, a possibilidade de eventos extremos semelhantes aos registrados em fevereiro reforça a necessidade de preparação do município.
Em julho, o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) Jean Ometto também defendeu que a reconstrução de Juiz de Fora considere um novo cenário climático, com sistemas de alerta, melhorias na drenagem e medidas de redução de riscos. Segundo ele, embora não seja possível prever exatamente onde os efeitos de fenômenos como o El Niño serão mais intensos, é possível utilizar as projeções para orientar a preparação das cidades.

