
Juiz de Fora vem experimentando sucessivos crescimentos nos números de homicídios nos últimos anos. Enquanto em 2009 o município teve 39 assassinatos, no ano passado, foram 52, um aumento de 33%. Este ano, já são 34 mortes violentas até agosto (ver quadro). Se a comparação for feita entre a realidade de 2006 e a de 2010, o salto de homicídios é maior, passando de 32 para 52, ou seja, 62,5% a mais. Dos homicídios noticiados pela Tribuna este ano, a maioria teve como palco a Zona Norte; foram 12 na maior região da cidade. Já a Zona Sudeste registrou seis casos, seguida de Leste (5) e Sul (4). Na Cidade Alta, foi apenas um caso.
O levantamento do jornal aponta ainda que os homens continuam sendo as maiores vítimas e as armas de fogo os principais instrumentos utilizados. Entre os mortos, a faixa etária que chama mais atenção é a de jovens até 25 anos. A vítima mais nova, um garoto de 14 anos, foi baleado junto com outros dois amigos em um escadão no Nossa Senhora Aparecida, na Zona Leste, em março. Já a mais velha foi uma idosa de 92 anos, encontrada com ferimentos na cabeça e sinais de estrangulamento em seu apartamento, no Centro. O crime ocorreu em abril, mês em que, na média, um homicídio foi registrado a cada três dias em Juiz de Fora. Outros casos que chamaram atenção foram do adolescente de 16 anos morto na Escola Estadual Estêvão de Oliveira, no Centro, em março, e das duas últimas vítimas de um serial killer suspeito de assassinar quatro mulheres entre o final do ano passado e o início desse ano.
A última vítima este ano, um homem de 26 anos, foi encontrada morta no campo de futebol do Bairro Cerâmica, Zona Norte, no dia 30 de agosto. O rapaz teria sido morto com golpes na cabeça, causados por um bloco de concreto.
Dados oficiais
Os dados sobre homicídios em Juiz de Fora divulgados oficialmente pela Fundação João Pinheiro (ver quadro), entidade ligada ao Governo do estado, divergem dos levantados pela Tribuna. O órgão estadual leva em conta apenas os boletins de ocorrência registrados como homicídio pela Polícia Militar, o que exclui os casos em que a vítima acaba morrendo horas ou dias após ser ferida ou então as ocorrências registradas como encontro de cadáver, mas que a Polícia Civil, após investigação, conclui que realmente se tratou de assassinato. Por isso, as estatísticas oficiais acabam não representando exatamente a realidade. Ainda assim, Juiz de Fora goza de uma posição confortável se comparada a outros municípios mineiros com mais de 250 mil habitantes. Conforme a Fundação João Pinheiro, a cidade é a única entre esses locais que mantém a taxa de homicídios abaixo de um caso a cada cem mil habitantes (ver quadro).
Tráfico motiva maioria dos casos
"Em termos absolutos, o número de homicídios na cidade não é grande. Mas, em termos relativos, parece que há um aumento nos casos. Isso é preocupante e reflete o acirramento do narcotráfico nas cidades do interior do Brasil", constata o coordenador do Centro de Pesquisas Estratégicas da UFJF, Ricardo Vélez Rodríguez. "As áreas onde acontecem a maior incidência de assassinatos são exatamente onde a polícia encontra mais problemas com drogas. E, com a democratização do crack e a chegada do óxi, a situação está piorando", completa o professor, ressaltando ainda que o grande número de mortes causadas por armas de fogo em Juiz de Fora reforça a tese que relaciona homicídios e tráfico de drogas.
O envolvimento cada vez maior da juventude com o crime e a organização de garotos em gangues, principalmente nas comunidades mais carentes, pode explicar o número de jovens mortos em Juiz de Fora. Até agora, quatro adolescentes foram assassinados. Outros dez mortos tinham entre 18 e 25 anos. Citando o grande número de mortes de jovens envolvidos no tráfico em cidades como Rio de Janeiro e outras localidades da América Latina, o professor alerta que as autoridades de Juiz de Fora devem ficar atentas para que a juventude local não faça parte de "uma geração que não sabe o que é morrer de velho".
O aumento dos homicídios locais nos últimos anos reflete o que o Mapa da Violência 2010 – Anatomia dos Homicídios no Brasil – chama de "interiorização da violência". O estudo, produzido pelo Instituto Sangari em parceria com o Ministério da Justiça, concluiu que a violência homicida vem aumentando nas cidades do interior brasileiro, enquanto diminui nas capitais e regiões metropolitanas.
Quase todos apurados
O titular da 3ª Delegacia de Polícia Civil, responsável pela Zona Norte, Rodolfo Rolli, confirma que a maioria dos 12 homicídios ocorridos na área tem como pano de fundo o tráfico. Rolli garante que cerca de 90% desses crimes já estão apurados, com autoria apontada e suspeitos presos. "Também já pedi oito mandados de prisão para pessoas suspeitas de envolvimento em homicídios. Estou aguardando apenas a Justiça expedi-los."
A maioria das investigações dos seis assassinatos registrados na região Sudeste também está concluída, segundo o titular da 6ª Delegacia, Carlos Eduardo Rodrigues. "A repressão da polícia serve de exemplo para que outras pessoas desistam de cometer crimes", diz. "A meta de apreensão de armas, proposta pelo Governo estadual às polícias, é outra forma de diminuir homicídios, assim como o combate ao tráfico também ajuda a reduzir a criminalidade violenta."
Como a Polícia Civil trabalha principalmente com provas testemunhais e evidências colhidas nas investigações, o delegado lembra que a população tem contribuído, abastecendo a instituição com informações, mesmo que de forma sigilosa, através do Disque-Denúncia Unificado (181).
Aposta em projetos sociais
As duas regiões da cidade que mais registram homicídios são foco de projetos sociais com o objetivo de melhorar a infraestrutura e, assim, reduzir índices de criminalidade. Pelo menos essa é a aposta do Governo estadual ao levar o "Travessia bairro" para a Vila Olavo Costa, na Zona Sudeste, e da Prefeitura ao implantar o "Ambiente de paz" no mesmo bairro, além de contemplar Benfica e Santa Cruz, na Zona Norte. Por enquanto, pouca coisa efetivamente foi feita, mas a promessa é que só a Vila Olavo Costa receba R$ 3,6 milhões em investimentos estaduais do "Travessia bairro", a serem aplicados em melhoria dos acessos e das calçadas, construção de banheiros, instalação de piso em residências, ligações de água e nomeação de ruas, além do incremento do Centro de Referência de Assistência Social (Cras), entre outras ações. As intervenções devem começar até o final do ano.
O mesmo bairro vai sediar uma base comunitária da PM, na Rua Filonilia Carlota de Jesus, onde já funcionou um posto policial. A estrutura será construída dentro do programa municipal "Ambiente de paz", orçado em R$ 430 mil e que vai erguer bases para serem ocupadas por policiais militares também em Benfica, Santa Cruz e São Benedito, nos moldes das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). A Prefeitura já expediu a ordem de serviço para que a empresa responsável comece a construção das duas primeiras bases, em Benfica e Santa Cruz, orçadas em R$ 193 mil. A contar do dia 1º de setembro, as obras devem durar 120 dias. Além dos postos policiais, estão sendo executadas ações de melhoria do asfalto, iluminação e outras intervenções estruturais nos bairros contemplados pelo programa.
Fica Vivo!
Já o projeto estadual que visa justamente a diminuir o número de homicídios ainda não tem data para ser implantado em Juiz de Fora. A assessoria de comunicação da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds) informou que o secretário Lafayette Andrada ainda estuda a implantação do "Fica vivo!" no município. Presente em 12 cidades de Minas, incluindo Belo Horizonte, Governador Valadares, Ipatinga, Montes Claros, Uberlândia e Uberaba, o programa foi criado em 2003 e objetiva intervir na realidade social antes que o crime aconteça. O projeto faz acompanhamento especializado e oferece oficinas culturais, esportivas, profissionalizantes e de lazer para jovens de 12 a 24 anos em situação de risco social e residentes em áreas que concentram indicadores elevados de homicídio. Nas áreas onde foi implantado, o "Fica vivo!" conseguiu reduzir em até 50% o número de assassinatos.

