
Aos 77 anos, o Padre Júlio Lancellotti recebeu o título de Professor Honoris Causa da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) na última quarta-feira (10). A mais alta honraria da instituição, proposta pela Faculdade de Serviço Social, foi concedida por sua atuação em defesa da população em situação de rua e no combate à fome.
Atualmente, Lancellotti é vigário episcopal para a Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo e pároco da Paróquia São Miguel Arcanjo, na capital paulista, onde desenvolve ações sociais. O padre tornou-se uma das principais referências brasileiras na defesa das pessoas em situação de vulnerabilidade.
Antes da cerimônia de outorga do título, realizada no Cine-Theatro Central, a Tribuna conversou com o padre Júlio Lancellotti. Durante a entrevista, o pároco falou sobre a dignidade das pessoas em situação de rua, a inclusão de grupos vulneráveis no ensino superior, a defesa dos direitos humanos e a necessidade de políticas públicas permanentes.
– Tribuna: Como o senhor compreende esse título concedido pela UFJF?
-Padre Júlio Lancelloti: Recebo com muita gratidão. Eu acredito que, na conjuntura em que a gente vive, é um ato de coragem da Universidade conceder esse título a uma pessoa como eu. Porque estou junto daqueles que não entram nas universidades e, às vezes, nem são estudados na sua realidade. Aqui a gente vê que essas pessoas têm um lugar. Quem está do lado dos rejeitados, vai ser rejeitado. Quem está do lado dos que são desprezados, vai ser desprezado também. Então, por isso é um ato de coragem da Universidade e de generosidade. E os desafios são os de uma sociedade que é aporofóbica, que não quer conviver com a pobreza que fabrica. E isso é dito pelo próprio Papa Francisco na Exaltação Apostólica Evangelical de que essa sociedade fabrica o descarte e não quer conviver com os pobres, não quer conviver com os descartados.
-Como o Poder Público pode transformar as condições da população em situação de rua?
-Eu acredito que a ação não é só do poder público. O poder público pode colaborar, mas tem suas características, é diferente de uma política de Estado. Muitas vezes nós vemos que as políticas públicas são de governo, não de Estado. Então, muda o governo, muda toda a política que estava estabelecida. Nós precisamos ter, e as universidades têm um papel importante também, que as políticas sejam de Estado, independente de qual seja o governo. E que nenhuma política seja de manipulação, mas sejam todas de garantia de direitos constitucionais, direitos sociais, direitos da dignidade humana, direitos humanos. Então, por exemplo, não pode ser de governo ter tortura ou não ter. É uma questão do Estado.
O Estado democrático de direito não admite a tortura, a desigualdade extrema que nós vivemos, a misoginia e a discriminação das mulheres. Isso é do Estado, não é um governo que vai fazer isso, as políticas públicas não são neutras. Agora, com a proximidade das eleições gerais, voltamos à discussão do rebaixamento da maioridade penal. Isso não é uma questão partidária, é uma questão que um governo muda e o outro não, é uma questão de Estado, uma cláusula pétrea da Constituição.
Não ser torturado é um direito que todos nós temos. Ninguém pode alterar a Declaração Universal dos Direitos Humanos ou as garantias individuais da Constituição e admitir no meu governo vai ter tortura. Nós vemos que, apesar de todo o ordenamento jurídico, ainda há os que toleram a tortura, elogiam a tortura, fazem apologia da tortura. Quer dizer, isto é inaceitável.
O Papa Leão novamente coloca isso. O Catecismo da Igreja Católica diz que, em qualquer circunstância, é inadmissível a pena de morte. No Catecismo da Igreja Católica está que é inadmissível, em qualquer circunstância, a pena de morte.
São posições que não dependem de uma política pública só e de um governo. É uma questão de Estado. Também é uma questão de direito fundamental não rejeitar os imigrantes. Então, que todos recebam a atenção de Deus. Como dizia o Papa Francisco, foi repetido pelo Papa Leão, a Igreja é para todos, todos, todos.
-Você lançou um livro, é uma figura presente não somente na igreja, mas também nas redes sociais. Como estas ferramentas digitais mudaram sua atuação na igreja e na luta pelos direitos humanos?
-Nada é neutro, não existe neutralidade em nada. Sempre e principalmente nessa conjuntura que nós estamos vivendo de tanta polarização, a sua palavra vai ser vista de uma maneira. Uma coisa é o que você diz, outra coisa é o que as pessoas ouvem. Você pode estar dizendo num sentido e as pessoas podem estar ouvindo num outro. Então, falar em um mundo assim é arriscado. Às vezes alguns dizem que é melhor se calar, mas na verdade o encorajamento do Evangelho é “se eu me calar, as pedras gritarão”.
