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Dom Bosco tem 142 imóveis evacuados ou interditados; PJF anuncia obra na Rua José Claro Dia

Após deslizamento, moradores do Dom Bosco temem novas ocorrências

(Foto: Felipe Couri)

Após deslizamento, moradores do Dom Bosco temem novas ocorrências
(Foto: Felipe Couri)
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A Tribuna de Minas esteve no Bairro Dom Bosco, Zona Sul, na manhã da última quinta-feira (9), e encontrou moradores ainda afetados pelos desdobramentos do deslizamento de um barranco próximo ao portão sul da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Segundo a Prefeitura de Juiz de Fora, 142 unidades habitacionais em todo o bairro foram evacuadas ou interditadas. Nesta terça-feira (14), o Executivo também informou a assinatura de contrato para uma obra emergencial de contenção na Rua José Claro Dia, outro ponto de preocupação no Dom Bosco.

Desde o episódio, o bairro convive com casas evacuadas, vias interditadas, acúmulo de lixo e temor de novos deslizamentos. Na noite de 25 de fevereiro, depois das fortes chuvas que atingiram Juiz de Fora e deixaram 66 mortos no município, o barranco deslizou e atingiu a Avenida Itamar Franco.

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A insatisfação com a demora na resposta do poder público levou moradores a protestarem na noite de 7 de abril, quando residentes fecharam a Rua Vicente Beghelli e a Avenida Itamar Franco, próximo ao portão sul da UFJF. Nos cartazes, cobravam a liberação das ruas interditadas desde o fim de fevereiro e a adoção de medidas para reduzir os impactos enfrentados pela população.

Em nota, a Prefeitura de Juiz de Fora informou que a Defesa Civil mantém monitoramento contínuo na área, com vistorias presenciais e uso de drones. A Administração municipal também reforçou a orientação para que as famílias que receberem pedido de evacuação permaneçam fora dos imóveis enquanto persistir o risco.

Os efeitos das chuvas e dos deslizamentos, no entanto, se espalham por diferentes pontos do Dom Bosco e ajudam a dimensionar a situação enfrentada pelos moradores. É o caso da Rua José Claro Dia, onde o avanço da erosão também preocupa quem vive na região. A atualização anunciada pela Prefeitura se soma às demais frentes de preocupação relatadas pela população do bairro.

Rua José Claro Dia terá obra de contenção, diz PJF

(Foto: Felipe Couri)

Na Rua José Claro Dia, a situação segue preocupando os moradores. Metade da via está coberta por uma lona e cercada por tijolos colocados pelos próprios moradores, numa tentativa improvisada de conter o avanço da erosão e evitar que a rua ceda.

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Morador do bairro, Luiz Cláudio, que é cego, transita em meio às barricadas colocadas pelos populares. Segundo ele, parte da contenção existente hoje no local foi feita pelos próprios moradores, após sucessivas cobranças por uma intervenção do poder público.

“A Prefeitura veio aqui em 2020 e falou que ia arrumar a rua, que era uma vergonha aquela situação”, lembra. Segundo ele, sem a obra prometida, os próprios moradores fizeram intervenções para tentar conter o problema. “Aquela contenção ali quem fez foi o morador. Nós fizemos um muro e arrumamos a rua toda. Graças a Deus, aquela parte resistiu.”

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De acordo com Luiz Cláudio, outro trecho da via cedeu neste ano. “Agora, em 2026, caiu a outra parte da rua”, afirma.

Após o novo agravamento da situação, equipes da Defesa Civil passaram a visitar o local e emitiram documentos de interdição preventiva para diversas casas da rua. “A Defesa Civil está vindo desde ontem aqui, confirmando a interdição da rua e dando documento de interdição para as casas, dizendo que tem risco da rua descer”, relata.

Apesar das notificações, muitos moradores ainda permanecem nas residências. “A maioria está indo para casa de parente, mas tem gente que não está saindo. Eu mesmo não saio”, diz. Segundo ele, as casas mais próximas à área que continua cedendo foram as primeiras a ser evacuadas.

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Luiz Cláudio também citou o programa Periferia Viva ao cobrar uma solução definitiva para a rua. Segundo o morador, há expectativa de que recursos destinados ao bairro possam contemplar obras de contenção na região.

No âmbito do Novo PAC, a Câmara Municipal aprovou, em 12 de dezembro de 2025, a contratação de mais de R$ 300 milhões em empréstimos pela Prefeitura de Juiz de Fora. Desse total, R$ 39,7 milhões foram vinculados ao programa Periferia Viva, com previsão de intervenções como obras de drenagem, calçamento, esgotamento sanitário, melhorias viárias e escadões no Dom Bosco.

Em nota, a Prefeitura de Juiz de Fora afirmou que o município teve um projeto selecionado no âmbito do programa Periferia Viva, com previsão de obras de contenção, requalificação viária, drenagem, saneamento e reurbanização do bairro, dependendo da aprovação do plano de trabalho.

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Nesta terça-feira (14), a Prefeitura informou a assinatura de três contratos para obras emergenciais de contenção em áreas atingidas pelas chuvas de fevereiro, nos bairros Dom Bosco, Carlos Chagas e Bonfim. No Dom Bosco, a intervenção prevista é na Rua José Claro Dia. Segundo o Executivo, as obras serão executadas com recursos da Defesa Civil Nacional e têm prazo de conclusão até dezembro deste ano. O investimento total nas três frentes é de cerca de R$ 3,5 milhões, sendo a maior parte destinada à obra no Dom Bosco.

Coleta restrita afeta moradores na parte alta do Dom Bosco

A sensação de abandono também é compartilhada por quem vive na parte alta do bairro. Na Rua Silvério da Silveira, a interrupção da coleta de lixo tem deixado sacos acumulados próximos às casas e ampliado a queixa dos moradores sobre a falta de assistência.

A aposentada Maria Santé Tereza, de 76 anos, diz que a situação se arrasta há semanas. “Menino, vou te falar, o pobre já tem sacrifício de comprar o material pra fazer uma casa… Se você for olhar a condição da rua, você vai ver como a gente tá vivendo”, afirma. “As contas vêm direitinho, né? A água, luz, iluminação… mas o lixo tá aí.”

(Foto: Felipe Couri)

Segundo ela, o caminhão de coleta deixou de subir até o local. Com isso, moradores passaram a ter de levar os sacos até outro ponto da via ou pagar alguém para fazer o transporte. “Eu tenho 76 anos, meu marido 80. Como a gente vai ficar descendo para levar lixo a pé? Eu tenho problema nas pernas”, relata.

Em nota, a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) informou que a Rua Silvério da Silveira permanece parcialmente interditada por orientação da Defesa Civil. Segundo o Executivo, a medida busca preservar a segurança dos moradores e também das equipes de serviço e, por isso, a coleta de lixo precisou ser reorganizada.

Com a mudança, a coleta passou a ser feita apenas até o início da via, próximo à igreja, onde foi instalado um contêiner para receber os descartes. Segundo a Prefeitura, a normalização integral do serviço depende da liberação da área, enquanto outras alternativas seguem em análise. A distância entre o novo ponto de coleta e a casa da aposentada Maria Santé Tereza é, segundo o Google Maps, de aproximadamente 550 metros em um trecho de descida. Ainda conforme o aplicativo, o trajeto a pé leva cerca de 9 minutos, o que representa 18 minutos entre ida e volta.

Maria conta que, recentemente, após o protesto dos moradores, equipes da Defesa Civil voltaram ao local. “A Defesa Civil esteve ontem (quarta-feira) nas casas, depois do protesto dos moradores. Vêm, ficam rodando por aí. Meu filho, coitado, queria que a gente saísse de casa. Mas vou sair de casa para onde? Eles não dão informação. Como você vai largar sua casa? Vai ficar onde? A gente vive na insegurança.”

Em nota, a PJF informou que a Defesa Civil “mantém monitoramento contínuo no local, com vistorias presenciais e uso de drones”. Segundo o Executivo, 16 imóveis na Rua Silvério da Silveira seguem interditados. Em todo o bairro, 142 unidades habitacionais foram evacuadas ou interditadas. A Prefeitura também reforçou a orientação para que as famílias que forem orientadas a deixar suas casas permaneçam fora dos imóveis enquanto persistir o risco.

Auxílios

A moradora também critica a dificuldade para conseguir informações sobre possíveis auxílios. “Tem que fazer cadastro disso, daquilo, é muito difícil, a gente não consegue ter informação direito. Meu marido foi lá, ficou o dia inteiro no Diga, ninguém tem informação de nada.”

Atualmente, a PJF oferece o Auxílio Calamidade Municipal, no valor de R$ 800, destinado a públicos específicos, conforme critérios socioeconômicos e atualização do CadÚnico até 9 de janeiro de 2026. Já o Auxílio Reconstrução e o Minha Casa Minha Vida – Compra Assistida são benefícios do governo Federal, com dados enviados pela Prefeitura para cadastro e análise da União, explica o Executivo.

Rua Silvério da Silveira convive com lixo e interdições (Foto: Felipe Couri)

Moradores aguardam por solução

A poucos metros das casas do outro lado da rua, o terreno instável mantém o clima de apreensão entre os moradores da área afetada pelo deslizamento. Nos fundos de algumas residências, o barranco que cedeu meses atrás segue visível. Para tentar conter o avanço da erosão e evitar a infiltração da água da chuva, os próprios moradores colocaram uma lona sobre o terreno.

Um outro morador do bairro, que preferiu não ser identificado na matéria, vive em uma das casas da região e afirma que a presença da Defesa Civil ainda não foi acompanhada de respostas concretas para quem permanece no local. “A Defesa Civil vem, mas não dá solução para a situação.” Ele também questiona a interrupção da coleta de lixo na rua. “Sobe caminhão de bebida, caminhão de material de construção, sobe ônibus… e não sobe caminhão de lixo. Se não cabe o (caminhão) grande, por que não mandam um menor?”

Assim como outros moradores da área, Maria José de Souza, de 63 anos, voltou a conviver com a possibilidade de deixar a própria casa. Depois de sair do imóvel por causa das chuvas de fevereiro e passar um período na casa de uma das filhas, ela havia retornado havia cerca de uma semana, quando recebeu nova orientação para evacuar a residência.

“Vou ter que evacuar de novo. A Defesa Civil esteve aqui e mandou a gente sair”, relata. “Eu já tinha saído antes daquela chuva, tinha ido para a casa da minha filha. Voltei semana passada, fiquei aqui, aí ontem eles vieram pedir pra gente sair.”

Sem definição sobre o futuro da área, Maria José diz viver um constante “vai e vem”. “Esse vai e vem é péssimo. A gente gosta de ter o cantinho da gente. Mas como a gente fica em uma casa se você não tem segurança?”

Ao deixar o imóvel mais uma vez, ela deverá voltar para a casa da filha, no Bairro Jóquei Club, na Zona Norte. Sem renda para arcar com aluguel, afirma depender da ajuda da família e do Bolsa Família para atravessar a situação. “Ainda bem que eu tenho meus filhos. Se eu não tivesse, ia pra onde? Ia ficar na rua?” Ela completa: “Eu recebo R$ 600 reais de Bolsa Família. Como eu vou pagar aluguel com esse dinheiro? Água, luz, aluguel, gás, comida, remédio, como é que faz?”

A moradora conta ainda que a casa onde vive hoje foi construída há quatro anos com ajuda de familiares e de uma mobilização liderada pelo filho. “Meu irmão, meu cunhado e os meus meninos que construíram a casa pra mim”, conta. “Meu filho, que trabalha em uma instituição de ensino, se juntou a alunos e professores, arrecadou dinheiro e conseguiu fazer minha casinha. A alegria do pobre dura pouco.”

Ela também relata medo em relação ao terreno e diz que já procurou atendimento em órgãos municipais em busca de uma solução. “Eu já tenho meu nome lá no CRAS, no DIGA. Minha amiga foi comigo à prefeitura, à Defesa Civil, e eu deixei meu nome lá”, relata.

Enquanto aguarda uma solução, ela se entristece com o que vê do lado de fora da própria casa. “As pessoas vêm aqui e jogam lixo atrás. Descartam resto de material. Eu fico até com medo de ir aí. Às vezes, eles aproveitam que a gente está dormindo para descartar as coisas no nosso terreno. Com a falta do caminhão de lixo, a situação ficou pior.”

Apesar da insegurança, Maria José afirma que tenta se apegar à esperança para enfrentar a incerteza. “A vida é o mais importante. Eu sonhava em ter a minha casinha de laje. Graças a Deus eu tive. Agora a gente não pode perder a fé nem a esperança. Alguma coisa Deus vai fazer por nós.”

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