O município vive uma escalada da violência, com o registro de 19 assassinatos até agora em 2012, o que daria pelo menos uma morte por semana. Tráfico de drogas, acerto de contas, rivalidade e vingança foram as principais causas apontadas para os homicídios este ano em Juiz de Fora. Levantamento feito pela Tribuna mostra que, em anos anteriores, muitos registros estavam relacionados a motivos fúteis e casos passionais. Já neste ano, as ocorrências apontam para maior agressividade e teor de crueldade dos autores. Entre a vítimas, cinco foram espancadas em via pública e morreram. Outras 13 vítimas foram executadas nas ruas por tiros disparados pelas costas ou na região da cabeça e uma foi morta a garrafada. Na contramão dos números, Juiz de Fora não tem programa de enfrentamento às mortes violentas e está, há oito anos, aguardando a implantação do principal projeto do Estado na área, o "Fica vivo".
Esta reportagem, com foco no crescimento deste tipo de crime, abre a série "Insegurança pública", que vai mostrar a criminalidade violenta no município, a necessidade de mais investimentos em projetos preventivos, a situação das forças de segurança e o quadro do sistema prisional. Especialistas fazem um alerta para o momento vivido e dizem que a situação é grave já que o Estado não teria uma política criminal clara, e as medidas improvisadas estariam contribuindo para agravar a situação.
Dos homicídios registrados até agora, a maioria aconteceu na região Leste. Na área, foram sete casos, contra cinco ao longo de todo o ano passado. Em seguida, aparece a região Sudeste (4), a Zona Sul (3) e a zona Nordeste (2). Nas demais áreas – Norte, Oeste e Centro -, foi registrado um homicídio em cada (ver quadro na capa). Os homens, sobretudo até 25 anos de idade, ainda são as maiores vítimas, como em 2011. Em 2010, 66% dos assassinados também eram do sexo masculino e tinham até 30 anos. Entre os crimes contabilizados pela Tribuna este ano, alguns óbitos aconteceram dias depois e, portanto, não aparecem nas estatísticas da Polícia Militar, que considera apenas as mortes ocorridas no local. Conforme a assessoria da corporação, de janeiro a março, foram somente seis assassinatos.
Jovens
Nas ocorrências, os jovens não aparecem só como vítimas, mas como causadores da violência, sobretudo aqueles entre 12 e 24 anos, foco do "Fica vivo". Na madrugada deste sábado, um homem de 30 anos foi morto a tiros próximo a um bar, no Bairro Grama, região Nordeste. Atingindo por dois disparos na região do tórax, ele morreu no local. A PM apontou dois suspeitos, entre eles um adolescente de 17 anos.
Mesmo assistindo ao aumento dos homicídios nos últimos anos, Juiz de Fora não foi contemplada com o programa. A promessa de implantação foi feita em 2006 pela Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), quando o índice de homicídios era de cerca de 35 casos/ano, mas, até hoje, com aumento de 48% dos casos (52 assassinatos em 2011), a cidade não é considerada prioridade.
Titular da Coordenadoria Especial de Políticas de Prevenção à Criminalidade, Talles Andrade de Souza informou que, para a implantação do programa, são observados quesitos técnicos e estatísticas de crimes violentos. "O ‘Fica vivo’ é um programa focal, que trabalha determinada faixa etária e determinado território, marcado, sobretudo, pelo tráfico e pela rivalidade histórica de bairros. E, em Juiz de Fora, até então, pelos estudos do colegiado, os homicídios aparecem difusos. Não estou dizendo que descartamos a implantação, não dá para descartar". adiantou o coordenador, que prometeu acompanhar de perto as estatísticas de homicídios entre os jovens de 12 a 24 anos. "Juiz de Fora já teve a perspectiva de ter o programa, entretanto, para esse ano, não mais. Em 2012, nossa prioridade tem sido Belo Horizonte e a Região Metropolitana. Esperamos retomar o fôlego para voltar a expandir no interior."
Estatísticas não mostram realidade
Além dos homicídios crescentes, há uma "avalanche" de tentativas de assassinatos. Só entre o último sábado (7) e a quarta-feira (11), cinco homens sofreram tentativas de homicídio. Na madrugada da última quarta-feira, a vítima, 36 anos, foi atingida por dois tiros no Bairro Santa Rita, Zona Leste. No dia anterior, um jovem de 20 anos foi baleado no Distrito Industrial. Na madrugada de domingo, outro homem, 26, havia sido esfaqueado em um ponto de ônibus na Rua Benjamin Constant, Centro. Ele foi surpreendido por dois ocupantes de uma motocicleta. Na mesma data, um garoto, 14, foi alvejado por dois jovens em uma moto após desembarcar de um ônibus na Avenida JK, em Benfica. Já na noite de sábado, um rapaz, 18, foi alvo de tiros no Monte Castelo. O atirador teria saído de um Monza e efetuado dois disparos em sua direção.
Os dados revelam que a cidade está se tornando cada vez mais violenta, mesmo assim, ainda aparece nas pesquisas realizadas pelo Estado como um dos municípios que mantém a taxa de homicídios abaixo de um caso a cada cem mil habitantes. A assessoria organizacional da 4ª Região da Polícia Militar informou que, comparando-se a taxa de homicídios por cem mil habitantes nos municípios de Minas Gerais com população acima de 150 mil habitantes, Juiz Fora ocupa a 13ª posição.
Como a Tribuna já mostrou em matérias anteriores, há dois fatores para explicar a situação. O primeiro é que são considerados para homicídios somente os casos em que a vítima morreu na hora ou durante o atendimento da ocorrência. O segundo fator seria o registro das ocorrências. Muitas vezes, o que seria um homicídio ou tentativa de assassinato, é registrado como lesão corporal, fato que vem sendo noticiado não só pela imprensa local, mas em todo o estado, nos últimos meses.
‘Fica vivo’: implantação só na promessa
O programa "Fica vivo" seria a alternativa para tentar minimizar as mortes violentas no município, funcionando sobre dois eixos de atuação: intervenção estratégica dos órgãos de defesa social e proteção social. O primeiro tem como responsabilidade o planejamento e a coordenação de uma repressão qualificada e eficiente. Já o eixo da proteção social se constitui a partir de ações de atendimento e de trabalho em rede. Pelo programa, "oficineiros" são contratados para atuar nas localidades mais perigosas e ficam responsáveis por oferecer atividades culturais, para retirar os jovens da criminalidade.
Voltado para o público entre 12 e 24 anos de idade, em alguns municípios, o projeto alcançou redução de 50% da criminalidade violenta, conforme a Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds). Atualmente são 27 núcleos do "Fica vivo" no estado, sendo seis no interior: Montes Claros (2), Governador Valadares (1), Uberaba (1), Uberlândia (1), Ipatinga (1). A alegação da Seds é que os municípios que receberam os núcleos apresentam índice de assassinatos por cem mil habitantes maior do que o de Juiz de Fora.
Para o município, a promessa de implantação do projeto se arrasta por oito anos. Mas há seis anos, a Tribuna acompanhou a visita da então superintendente de Prevenção à Criminalidade da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), Márcia Cristina Alves, e noticiou a novidade que trazia para a cidade: até o final de 2007, JF teria um núcleo em funcionamento. Porém, um ano depois, a Seds voltou atrás e informou que não iria implementar o programa.
Já no início do ano passado, o então secretário de estado de Defesa Social, Lafayette Andrada, em entrevista exclusiva à Tribuna, garantiu que o "Fica vivo" seria trazido para a cidade no mesmo ano. Entretanto, o compromisso não foi cumprido.
Entre as promessas de implantação do programa na cidade, o Núcleo de Estudos sobre Violência e Políticas de Controle Social da UFJF realizou, a pedido da Seds, um diagnóstico da criminalidade violenta entre 2007 e 2008. Para o cientista social e coordenador da pesquisa à época, André Moysés Gaio, passou da hora de a cidade ter o projeto. "Estamos muito preocupados com essa violência, sobretudo a aplicada nos atos cometidos por esses jovens. O município também precisa intervir para termos o projeto na cidade."
