Ícone do site Tribuna de Minas

‘Aquela lama não sai’: Sofrimento de afetados pelas chuvas permanece um mês depois

‘Aquele barro não sai’: Sofrimento de afetados pelas chuvas permanece um mês depois
PUBLICIDADE

No dia 16 de dezembro de 2025, a Tribuna foi aos locais mais afetados pelas fortes chuvas, de mais de 100 milímetros, que atingiram Juiz de Fora no dia anterior. Na última quarta-feira (7), a reportagem voltou aos mesmos lugares e conversou com as mesmas pessoas para verificar qual é a situação atual.

Um mês depois, os relatos são de descaso do poder público, sensação de desamparo e um grande incômodo causado pelas medidas paliativas que estão longe de resolverem completamente os problemas mais recentes, quanto mais sanar diretamente as causas reais, presentes há tantos anos.

PUBLICIDADE

Pavimento provisório

A Avenida Doutor Moacyr Siqueira, no Bairro Jardim do Sol, havia sido completamente destruída. Duas placas com a informação “Atenção, pavimento provisório” permanecem desde aquele dia. Alguns carros desviam do grande buraco deixado no reparo, outros passam por cima e escancaram o desnível na via.

O aposentado Benedito Nugnezi de Jesus, 76 anos, mora pouco acima de onde começa o estrago, há mais de 40 anos. Para ele, “o incidente estava previsto”: “É uma coisa que eu jamais pensei que eles fossem mexer, porque toda vez que chovia forte, essa tampa levantava, e aí coitado de quem morava aí para baixo, estourava tudo. Então, a obra era necessária, na minha opinião, e foi bem executada”.

O comerciante Thiago Lopes, 41 anos, costuma passar pela rua cinco vezes por dia. Ele conta que o trecho ficou “um caos” enquanto esteve interditado. “A gente teve que passar pelo Campo do Sete, pelo São Benedito, pela Rua Goiás. O trânsito ficou horrível, ficou uma semana aí na confusão”, relembra. Quanto ao que pensa sobre o pavimento provisório, é taxativo: “Horrível, continua com buraco. Eles recapearam, mas continua ruim”.

A Tribuna voltou ao local nesta quarta-feira (14), e a rua permanece da mesma forma. 

PUBLICIDADE
(Foto: Felipe Couri)

‘Aquela lama não sai’

Na primeira visita à Avenida Garibaldi Campinhos, no Bairro Vitorino Braga, a Tribuna conversou com Kátia Rios. Dona de um brechó, naquele momento, ela jogava as roupas fora, na calçada, quando relatou a perda de 80% das mercadorias. 

“Foi terrível. Tinha momento que a gente começava a chorar de ver, ter que tirar tudo, e o barro não adianta. Lava as roupas, mas aquela lama, ela não sai”, lembra Douglas Thiago de Freitas, 30 anos, genro de Kátia, que atendeu a Tribuna no retorno.

PUBLICIDADE

“Além de a gente ter perdido as roupas, como trabalhamos por consignação, as pessoas que a gente iria pagar também tiveram prejuízo. A gente mede, mais ou menos, de R$ 5 a R$ 10 mil”, calcula. Com a doação de pessoas próximas e outras desconhecidas, eles conseguiram recomeçar.

Douglas mora logo ao lado do brechó e perdeu todos os móveis, mas também já os recuperou por meio doações. “Vou ser sincero”, responde, quando perguntado sobre o apoio da Prefeitura, “não teve”. “Eu não vi. Vi em alguns pontos o Cras (Centro de Referência de Assistência Social) ajudando muito. Mas, muitas das vezes, tinha que ir lá. Minha esposa recebe Bolsa Família, então, eu consegui pegar, mas quem não tinha, não tava conseguindo. Foi um apoio intermediário, não foi muita coisa. A gente esperava que a Prefeitura viria com mais força.”

Ele afirma que os pontos de coleta também geraram confusão para as pessoas, sendo que alguns não estaria repassando parte dos materiais. “Por fim, muitos moradores começaram a publicar na rede social para as pessoas irem direcionadas nas casas, em vez de deixar nos pontos.” E finaliza: “Nosso pedido é que eles tentem fazer a prevenção, agora é a questão que fica mais”.

PUBLICIDADE

‘Peço a Deus que não chova de novo’

Bem próximo ao brechó, mora Ana, aposentada. A casa ainda está toda fora de ordem, com móveis avariados espalhados pelos cômodos, pisos quebrados e paredes manchadas. As roupas no armário ainda levam a marca marrom que mostra a altura de cerca de 1,5m que a água atingiu naquele dia. “O que dá para lavar, a gente está lavando. O que não dá, a gente está jogando fora”, diz.

“A minha mãe está chorando muito, ela quer voltar, quer as coisas dela”. Com 91 anos, precisou ser carregada no colo para a casa da vizinha, no andar de cima, onde permanece até hoje.

A resposta sobre o apoio da Prefeitura é “nenhum”. “A Defesa Civil veio aqui, trouxe um colchão de solteiro, um travesseiro, um lençol, uma fronha, um cobertorzinho, uma cesta básica e um kit higiênico. Depois eles voltaram, e eu perguntei se iam ajudar a gente só com isso. Eles falaram que a finalidade da Defesa Civil é ver se a pessoa está em local de risco, se precisa de aluguel social, não ajudar com bens materiais.”

PUBLICIDADE

Ela é mais uma que conta com a ajuda de amigos. O pedreiro que trabalhava na casa no momento da visita, além de fazer um preço em conta pelo serviço, levou um tanto de roupas para a esposa lavar, de boa vontade. A vizinha de cima também lavou um tanto. A igreja distribuiu material de limpeza e marmitex.

“Minto”, corrige-se, “para não dizer que a Prefeitura não ajudou, o Cras ofereceu uma psicóloga para a minha mãe. Conversou com ela, ela chorou muito, disse que queria voltar ,e a psicóloga me falou para arrumar a casa o mais rápido que eu puder, mas a gente vai de acordo com o que a gente pode.”.

Já com o rosto molhado pelas lágrimas, Ana desabafa: “Eu só peço a Deus que não chova de novo nesse período, até eu trazer minha mãe de volta para casa, porque ela é a minha preocupação maior”.

<
>
(Foto: Felipe Couri)

‘Vai esperar uma família inteira morrer?’

A casa de Linamara de Oliveira, na Rua Diva Garcia, no Bairro Linhares, teve os pisos todos quebrados pela pressão da água que passava nas manilhas subterrâneas e foi interditada poucas horas depois da primeira visita da Tribuna. No retorno da reportagem, ela ainda estava sem saber o que fazer. “A Defesa Civil falou que ia voltar e não voltou. E na hora que eu procuro o boletim, não está liberado ainda, sendo que era em 15 dias. Quando eu ligo para lá, a única informação que eu tenho é para entrar no Prefeitura Ágil e olhar, mas não tem nada”, afirma.

Lina relata que recebeu uma assistente social, para ver se estavam precisando de algo. A avaliação foi de que poderiam dar uma ajuda de custo para alugar outro imóvel, temporariamente, no valor de R$ 900. Explicando que o valor é insuficiente, ela optou por ficar na casa da mãe, e é mais uma que reclama da saudade de casa.

Na porta dela, passa uma recém-implementada ciclofaixa. “Está linda a ciclofaixa. Mas, na hora de cuidar do saneamento básico, não está cuidando. (…) Aconteceu em 2018, e agora de novo, e nada foi feito. Eles não mexeram no córrego, não mexeram em nada. Aí o pessoal, não só aqui, como lá para trás do Linhares, vive nessa frustração. Chove um pouquinho mais forte, a gente já fica em pânico.”

O relato segue em tom de indignação. “Vai esperar de novo? Ou vai esperar alguma coisa mais drástica, uma família inteira morrer?”, questiona.

Quanto à isenção do IPTU para os afetados, afirma que não é bem da forma como foi divulgado. “Eu liguei para lá. Eu entro com o pedido de isenção, vai vir o boleto, e eu tenho que continuar pagando até ser definido que eu tive a isenção. Aí, as parcelas que eu paguei, vou ter até um ano para ser ressarcida”, diz. “E não é todo ele que está isento não, a taxa do Demlurb a gente tem que pagar.” Ela ainda acrescenta que não pode haver débitos.

“Eu sei que são efeitos da natureza, eu sei que vai ter problema. Só que se a Prefeitura não ajudar, só vai piorar a situação. A gente paga imposto alto, só ficar fazendo enfeites de Natal não dá. É lindo, mas eu prefiro que tenha um córrego e uma infraestrutura decentes. Eu sei que está tendo evolução, mas tem que ser mais rápido”, finaliza.

(Foto: Felipe Couri)

‘Uma covardia eles não darem uma satisfação’

Na Rua Francisco Faria, no Bairro Bonfim, a garagem de Paulo Brás, 65 anos, caiu num córrego, junto com a via. “Não apareceu ninguém aqui, as últimas pessoas que apareceram aqui foram vocês”, se refere à primeira ida da Tribuna.

A Defesa Civil foi no dia, um mês atrás, e informou que ele podia continuar acessando a casa. Fora isso, “ninguém apareceu para dar uma justificativa”. “Não por causa da minha garagem, mas porque a rua que caiu está fazendo muita falta para todos nós.” 

Luiz Henrique tem um hortifruti em frente à casa há cerca de um ano. Com a falta da rua, afirma que o rendimento do negócio caiu R$ 2 mil por semana, indo para a quarta semana. “Afetou demais, porque ficou muito longe. Nosso público tem uma idade mais avançada, então para a pessoa dar a volta lá na frente – que dá mais ou menos uns 300, 400 metros – é completamente inviável”, principalmente os moradores do Bairro Bairu, que fica do lado de lá da fenda. 

Para carros, só dando a volta pelo Bairro Manoel Honório. “E o nosso produto tem um peso. A gente faz muita entrega para aquele lado, então é um custo maior para poder entregar a mercadoria”, acrescenta na conta. “Comércio tem muitos altos e baixos, mas essa baixa que a gente teve foi numa época que vende muito, que é final de ano, e a gente sentiu demais”.

Segundo ele, os profissionais que foram trabalhar na reconstrução do lugar, com retroescavadeira e caminhão – observados pela Tribuna da primeira vez – não aparecem desde a semana do Natal, quando isolaram a rua com tapumes metálicos. Nesta quarta (14), a Tribuna constatou, mais uma vez, o cenário inalterado.

Já na garagem de Paulo, que era a “guarda” da casa, fechada até em cima, ele próprio foi quem teve que colocar os tapumes, ainda temendo pela segurança do imóvel. “Eu não tenho nem como fazer um orçamento para reconstruir, se eles não arrumarem a rua.” Aposentado, ele faz trabalhos ocasionais de carreto e está guardando o carro em um estacionamento no Bairro Santa Rita.

“Cadê a Defesa Civil?”, questiona, “cadê os vereadores que vira e mexe usaram minha garagem para fazer propaganda, tirar retrato do córrego? Nem os que moram por aqui aparecem. É o caminho deles, passam aqui todo dia”.

“Tá certo, foi no final do ano, todo mundo tem o direito de passear. Mas quem está no prejuízo não conta com esse tipo de coisa. Eu tenho que comer todo dia, eu tenho que trabalhar todo dia (…) Eu estou achando uma covardia eles não darem uma satisfação”.

(Foto: Felipe Couri)

PJF afirma que ‘segue mobilizada nas respostas às chuvas’

Em resposta aos questionamentos dos moradores, a PJF afirma que “segue mobilizada na resposta às chuvas intensas que atingiram o município em dezembro” e destaca as ações realizadas desde então. Leia a nota na íntegra:

“A Prefeitura de Juiz de Fora segue mobilizada na resposta às chuvas intensas que atingiram o município em dezembro e reitera o compromisso com a escuta ativa e o acolhimento das famílias afetadas. A Situação de Emergência, decretada no dia 16 daquele mês, permitiu a ampliação das ações de assistência e recuperação nos territórios impactados.

De forma preventiva, a Defesa Civil emitiu alerta à população antes da chegada da tempestade. Com o início das chuvas, houve resposta imediata, com monitoramento contínuo pela Sala de Situação e atuação em campo. Também foi ativada a Sala de Situação Integrada, em parceria com o Corpo de Bombeiros, o que garantiu maior agilidade no direcionamento das equipes e no atendimento às ocorrências.

Em até três dias após o evento, a Prefeitura, por meio da Defesa Civil, recebeu e iniciou a distribuição de donativos, como cestas básicas, colchões, kits dormitório, kits de higiene, kits de limpeza e lonas, em articulação com a Coordenadoria Estadual de Defesa Civil. O órgão também produziu o levantamento dos locais atingidos, que foi encaminhado à Secretaria da Fazenda para subsidiar a análise dos pedidos de isenção do IPTU.

O processo para solicitação de isenção exige documentação específica para garantir a legalidade e segurança do benefício. O contribuinte pode apresentar uma Reclamação Contra o Lançamento (RCL), que suspende o pagamento enquanto o pedido estiver sob análise. Importante destacar que apenas pessoas sem débitos com a Fazenda Pública podem receber o benefício, como em qualquer benefício fiscal. A taxa de coleta de resíduos sólidos (Demlurb) e a Contribuição para Iluminação Pública (CIPS) não estão incluídas na isenção. Dúvidas podem ser esclarecidas e o pedido pode ser feito com auxílio do Diga (Departamento de Informação Geral e Atendimento). Já a Cesama está autorizada, de forma excepcional, a realizar a cobrança com base na média dos últimos 12 meses para os imóveis atingidos, em razão do aumento do consumo de água para limpeza e recuperação.

Moradores das regiões incluídas no decreto de emergência também têm direito ao Saque Calamidade do FGTS, autorizado pela Caixa Econômica Federal. O benefício pode ser solicitado até o dia 18 de março de 2026, exclusivamente pelo aplicativo FGTS, com depósito direto em conta. A medida representa um importante apoio federal às famílias juiz-foranas em momento de dificuldade.

A atuação da assistência social também permanece ativa. As equipes dos CRAS Vitorino Braga e Linhares, junto à Defesa Civil, visitaram as famílias atingidas, identificaram as necessidades emergenciais e continuam prestando atendimento, inclusive com orientação sobre documentos perdidos. O CRAS Vitorino Braga mantém colchões doados pelo SESC disponíveis para as famílias que necessitam, e ambos os equipamentos seguem funcionando normalmente.

Em relação às obras, no Jardim do Sol, a intervenção no trecho entre a Avenida Doutor Moacyr Siqueira e a Rua Manoel Joaquim Tavares foi finalizada. O segmento que sofreu desgaste recebeu pavimento provisório, que será refeito de forma definitiva após o período de chuvas. Na Rua Professor Francisco Faria, no Bonfim, a Secretaria de Obras executou a ligação provisória da rede de drenagem ao córrego, evitando o agravamento da erosão. O local foi isolado e coberto com lona, e os projetos de reconstrução da via já estão em andamento.

Por fim, as regiões do Vitorino Braga e do Linhares, que demandam obras de maior porte, serão contempladas com ações propostas pelo Plano Municipal de Drenagem, atualmente em elaboração. O plano tem como objetivo diagnosticar a situação de toda a cidade e propor soluções estruturais para minimizar os impactos das chuvas. Enquanto isso, continuam sendo realizadas ações permanentes como limpeza e desassoreamento de córregos, desobstrução de redes e serviços solicitados via Gabinete de Ação e Diálogo Comunitário, pelo telefone e WhatsApp (32) 3690-7241.

A Prefeitura reforça que os pedidos de relatórios podem ser formalizados pela plataforma Prefeitura Ágil, onde todas as orientações e documentos exigidos estão disponíveis de forma transparente. Seguimos trabalhando ao lado da população, apresentando respostas seguras e efetivas para este momento de reconstrução.”

Sair da versão mobile