Mediante a constatação de que as chuvas extremas têm sido cada vez mais frequentes, inclusive em Juiz de Fora e cidades próximas, as pesquisadoras Gabrielle Pires, professora do Departamento de Engenharia Agrícola, e Bianca Cortez, engenheira civil e mestranda, ambas da Universidade Federal de Viçosa (UFV), criaram novos parâmetros para projetos de engenharia em infraestrutura urbana que levam em conta as mudanças climáticas.
De acordo com Gabrielle, que foi orientadora do projeto de mestrado de Bianca sobre o tema, a motivação para esses estudos foi justamente perceber a frequência maior de eventos extremos e dos desastres que eles geram nas cidades – assim como aconteceu, ainda este ano, em Petrópolis. “Chuvas extremas que ocorriam uma vez a cada 50 anos, muitas vezes voltam a ocorrer em um período bem menor que esse”, explica. Como esse evento geralmente é acompanhado por perdas de vidas humanas, prejuízos econômicos e danos estruturais, as pesquisadoras consideraram importante representar essa alteração “dentro de um modelo não estacionário”.
A ideia era que, a partir da criação dos novos parâmetros, fosse possível ajudar na compreensão desses eventos e contribuir para evitar futuros desastres. “A principal diferença dos cálculos que consideram a mudança climática é que não assumimos que o clima está estável, ou que os eventos extremos ocorram com uma frequência similar àquela com que eles ocorriam há muitos anos atrás”, explica Gabrielle. Os parâmetros pensados pelas pesquisadoras capturam a intensificação desses eventos, permitindo que os projetos de infraestrutura possam se atualizar com o tempo, levando em conta os dados atualizados da mudança climática.
Para a pesquisadora, a importância disso é bem clara: “o Poder Público e os projetistas precisam considerar esses novos cálculos porque, ao longo do tempo, as infraestruturas urbanas estão ficando cada vez menos seguras”. Ela exemplifica que, se uma estrutura de engenharia foi feita para suportar uma chuva extrema uma vez a cada 50 anos, e essa chuva agora acontece de forma mais frequente, “o nível de segurança da obra é diferente da segurança que foi objetivo do projeto”. Quanto mais frequentes são esses eventos extremos, menos seguras são essas obras e essas infraestruturas, explica.
Conforme as pesquisadoras, a metodologia é inovadora justamente porque ainda não havia parâmetros no Brasil que orientassem os cálculos levando em conta as novas condições climáticas. A ideia é que, além de auxiliar engenheiros projetistas no futuro, o método também consiga possibilitar que a Defesa Civil calcule os riscos iminentes de desastres em áreas consideradas de risco nos centros urbanos.
Populações mais pobres tendem a ser mais atingidas
Para Gabrielle, é nítido que as populações mais vulneráveis estão mais expostas a esses riscos e são também aquelas que sofrem os piores danos. Para ela, no entanto, levar em conta as mudanças climáticas é apenas “uma peça do quebra-cabeça para ajudar a orientar a segurança das obras e todo o ambiente urbano”.
A professora explica que a informação climática visa a auxiliar, mas não carrega, em si, a solução completa. “A forma como a gente, em geral, usa o ambiente urbano, impermeabilizando muitas áreas e diminuindo as áreas de captação, pode intensificar ainda mais os efeitos danosos provocados pelas chuvas extremas”, diz.
Em Minas Gerais, foram mais de três mil desabrigados com as chuvas do começo do ano – sendo que, somente em Juiz de Fora, são 130 áreas de risco identificadas pela Defesa Civil. Os riscos das obras já existentes é objeto de desdobramento dos estudos. A pesquisadora Bianca, avançando na área, busca justamente avaliar a ameaça de desastres, focando em infraestruturas já existentes, especialmente na cidade de Belo Horizonte.

