A figura do mártir em pedaços e todo o conjunto que o cerca instigam a criatividade. O flerte que começou sob os olhos cerrados de Tiradentes e rememorado anos depois num encontro rápido ao redor do lago. O homem que, sufocado pela urbe, retorna, em pensamento, ao Museu Mariano Procópio, lugar de celebrações na infância. Dando continuidade à série "O Museu é nosso", a Tribuna fez um convite a escritores, professores, jornalistas e atores que tenham ligação com a instituição para fazer uma crônica ambientada no prédio histórico ou em seu parque. Até 22 de dezembro, sempre aos domingos, um texto será publicado, obedecendo a ordem alfabética de seus autores.
Nas 11 crônicas escritas, prevalece o tom memorialístico. Mesmo aquelas que tiveram na ficção sua matéria-prima, a sensação de nostalgia se fez presente. Em muitas delas, as suntuosas jabuticabeiras, aos pés das quais garotos e garotas viveram momentos marcantes, também estão lá. Os famosos passeios à construção secular, ao lado de amigos e professores, não ficaram de fora.
Embora tenha desenvolvido uma relação mais próxima com Juiz de Fora somente a partir de 2004, o professor e escritor Alexandre Faria se rendeu ao projeto e abre hoje a série de crônicas. Por meio da ficção, sua personagem feminina revela a delicada relação do homem com a cidade. "Todo mundo de Juiz de Fora me vê muito como o cara do Rio. Então, quis brincar um pouco com isso. Quis mostrar o descaso que acontece com a cidade e com o museu. Falo da cidade que vivemos e trabalhamos, da calçada quebrada, do semáforo que não funciona, da rua mal planejada", diz Alexandre.
Fechado definitivamente em 2008, o Museu Mariano Procópio clama por ajuda, conforme aponta o tradutor Luiz Sérgio Henriques em "Ainda que tarde…". "Quando se fala da defesa de um museu, que tem importância simbólica e sentimental, a emoção aflora. Ele não podia estar fechado nunca. Não sei de quem é a culpa, se é do Governo ou da iniciativa privada, mas a situação é escandalosa. Essas instituições deveriam ser um polo de cultura vivo e não meros depósitos de obras de arte. Que isso seja pungente, que os jardins sejam retomados, que as portas sejam abertas aos namorados e às crianças. Que ele seja da cidade", espera Luiz Sérgio, um dos organizadores das obras de Gramsci e vice-presidente da Fundação Astrojildo Pereira.
Ainda colaboram com a iniciativa a memorialista Rachel Jardim, os escritores André Capilé, Danilo Lovisi, Tiago Rattes, Maria Helena Sleutjes, Iacyr Anderson Freitas e Gessica Soares, o ator Samir Hauaji, além do jornalista e professor Rodrigo Barbosa, recém-indicado ao Prêmio São Paulo de Literatura.
Sensível ao município e a tudo que nele foi erguido, além de portadora de uma linguagem simples e saudosista, Rachel Jardim não aguardou mais que um dia para recitar a crônica (sem qualquer intimidade com as novas tecnologias, prontificou-se a manuscrever o texto e depois ditá-lo ao telefone para a equipe do Caderno Dois). Do outro lado da linha, uma voz, já denunciando os 86 anos de idade, compara o jardim do Mariano Procópio ao que "Deus plantou na cidade do Éden". "É muito importante contribuir com Juiz de Fora. Ela significa muito para mim", afirmou a escritora.
Para abraçar o desafio de transpor para o papel a história imaginada, alguns precisaram se deslocar de seu espaço habitual. Cada um colocou seu estilo, ora simples, ora rebuscado, algumas vezes crítico, outras sarcástico. "A prosa não é exatamente um terreno que frequento com muita segurança e desenvoltura. É sempre um exercício diferente. Muitas vezes, escapar do registro poético é me frustrar", entrega o autor de "Rapace" e integrante do Eco-performances Poéticas André Capilé, responsável por "Fábula andina e um diálogo".
"Foi uma experiência que colocou em mim um pouco do menino que fui. Enquanto escrevia, fui realmente me lembrando que a crônica não tem obrigação com a formalidade, deixei a escrita correr solta. Vivi um pouco daquilo. Abriu portas para a minha criatividade. Foi uma liberdade, a mesma que o personagem pede", explica o ator Samir Hauaji, que escreveu "Amanhã".
Com o anseio de bradar de volta o espaço onde um dia fez "guerra de mamona" com os colegas, mas também construiu um novo olhar sobre a instituição em uma cadeira de universidade, o historiador Tiago Rattes finaliza a série, representando o desejo acalentado por sua geração. "O tema ‘O museu é nosso’ é muito oportuno, é uma causa efetivamente da cidade. Infelizmente, as crianças de hoje não tiveram a mesma oportunidade que eu. Quando sentei para escrever, passou pela minha cabeça como o Mariano Procópio está presente na minha vida, antes mesmo de eu entender o sentido real do que é um museu. Lá nunca foi um espaço solene para mim. Fui ficando mais velho e o descobri por um outro ângulo, mas sem esquecer que era o lugar onde eu ia brincar."
