Anos viajando para consultoria em análise de sistemas e métodos, criei um hobby. Coleciono cidades. No início, visitava os museus das cidades aonde ia, mas depois os deixei pra lá. Só as cidades são museus de si. Os museus, pelo contrário, são cidades alheias, mosaicos de expropriações ou espólio de excêntricos que, doados às prefeituras, tornam-se o ônus da História. Ir a um museu é perder-se da cidade que se visita. Por isso, os museus devem ser o patrimônio primeiro dos cidadãos, dos que por fatal natalidade não podem fazer o uso que um estranho faz de seu lugar. Deviam coibir a entrada de turistas nos museus e estimular que os nativos, desde a infância, aprendessem a sair da cidade através deles. Mas é justamente o contrário o que fazem. Na minha cidade, por exemplo, tem um museu só com réplicas – vê se pode! – de Pedro Américo, filho célebre do local. Mas não é só no Brejo Paraibano que isso acontece. Vale o mesmo para o 221-B de Baker Street, London. Usam os museus como iscas para cidades.
Busco nas cidades o que nelas não se consegue apreender pelo sistema e pelo método. Quero experimentar o entrelaçamento bruxuleante das existências humanas. Toda cidade é cristal e chama. Busco a chama. E quando decido entrar em algum museu, faço-o por um fetiche especial, uma obra ou personagem específica que lá estejam e que me provocam a curiosidade.
Alexandre Faria – Escritor e professor de literatura da UFJF, publicou os livros de poesias "Venta não" (Texto Território/Funalfa, 2013) e "Lágrima palhaça" (Aquela Editora, 2012), o romance "Anacrônicas" )7 Letras, 2005) e a coletânea de ensaios "Literatura de subtração" (Papel Virtual, 1999)
