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Radares aplicam mais de 75 mil multas em Juiz de Fora em seis meses

Juiz de Fora terá novos radares aplicando multas a partir de terça; veja os locais

(Foto: Felipe Couri)

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Mariza José Guedes de Andrade dirige o dia todo para fazer entregas. Um dos trechos que ela mais passa recebeu um novo radar: na Avenida Barão do Rio Branco, na altura do número 4456, Bairro Bom Pastor, Zona Sul de Juiz de Fora, para fiscalizar o excesso de velocidade no sentido Centro/Bairro Cruzeiro do Sul, com limite de 50 km/h. Mariza acredita que a instalação foi positiva, apesar de avaliar que deveria ter sido implementada em trecho um pouco mais para baixo na rua. “Tem um cruzamento que frequentemente é cenário de acidentes, sobretudo envolvendo motocicletas. Também há muitos idosos na área, então fica mais perigoso. Como fica mais para cima, os veículos ainda passam em alta velocidade e só reduzem perto do radar – isso quando freiam.”

Em situação semelhante, Roberto Barroso é motorista e dirige por toda a cidade de Juiz de Fora ao longo do dia. Durante os diferentes itinerários, independentemente da região, uma coisa é certa: ele irá passar por radares no trajeto. Apesar de achar a fiscalização eletrônica necessária, a instalação em certos pontos gera questionamentos. “Ficamos na dúvida se a motivação foi, de fato, controlar o trânsito.”

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Radar localizado na Avenida Brasil, antes da entrada do Shopping Jardim Norte (Foto: Felipe Couri)

De uma das entradas da cidade, no Bairro Salvaterra, até a extensão da Zona Norte – e em todas as outras regiões -, Juiz de Fora tem 41 radares de trânsito em funcionamento atualmente, de acordo com a Prefeitura do município (PJF). Além disso, outros seis pontos de fiscalização estão em processo de remanejamento e ainda aguardam a aferição dos equipamentos pelo Inmetro para entrarem em operação. Ainda há 13 locais que já tiveram equipamentos instalados anteriormente. Esses pontos possuem a estrutura necessária para fiscalização, mas, no momento, estão inativos.

Só no primeiro semestre de 2026, foram registradas 113.637 multas em Juiz de Fora – 75.517 delas por radares, o que representa aproximadamente 66,46% do total, ou cerca de duas a cada três. As demais são aplicadas por agentes de trânsito. Conforme a PJF, foram arrecadados R$ 14.723.262,67, enquanto R$ 17.056.847,98 dos recursos foram aplicados em sinalização, engenharia de tráfego e de campo, policiamento e fiscalização, educação de trânsito e repasse ao Fundo Nacional de Segurança e Educação de Trânsito. Os números divergem porque podem incluir despesas de exercício anterior e restos a pagar.

A arrecadação e a aplicação dos recursos de multas em Juiz de Fora são divulgadas mensalmente no Portal da Transparência. Por lei, os recursos obtidos através de multas de trânsito só podem ser destinados a sinalização, engenharia de tráfego, educação para o trânsito, fiscalização e processamento de autuações. Quanto à instalação dos equipamentos, a Prefeitura diz que segue estudos técnicos da Secretaria de Mobilidade Urbana (SMU) e normas do Código de Trânsito Brasileiro, Conselho Nacional de Trânsito e Inmetro.

Questionamentos sobre quantidade

Há dois tipos de radar no município: os de velocidade e os mistos – que fiscalizam tanto a velocidade e como avanço de sinal vermelho ou parada sobre a faixa de pedestres em cruzamentos semaforizados. Em relação às localizações dos equipamentos, com as experiências já vividas no trânsito juiz-forano, Roberto questiona as instalações.

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“Por exemplo: tiraram equipamentos em frente ao Parque da Saudade e no Bairro Grama, que eram locais de necessidade. Por outro lado, colocaram um antes do Shopping Jardim Norte e outro na esquina da Américo Lobo com a Avenida Rio Branco – que já geram dúvidas. Tem o radar, a sinalização toda, mas se você vier no carro conversando com alguém, acaba esquecendo”, ressalta o motorista.

Só em 2025, Roberto foi multado cerca de cinco vezes por excesso de velocidade. Mesmo com os questionamentos e as penalizações sofridas, o motorista faz questão de destacar que não é contra a medida. “A implantação de radares é fundamental, mas não há necessidade de ter tantos em Juiz de Fora – nem tem espaço para isso. Tem um próximo ao Demlurb, de 40 km/h, antes do Bairro Vila Ideal. Deveria ter essa fiscalização em porta de escolas ou na Avenida Rio Branco.”

Durante itinerário por diferentes pontos da cidade, a Tribuna constatou que alguns radares contam com dificuldades de visualização da localização e sinalização. Enquanto uns ficam escondidos em meio a árvores e fios em postes, alguns pontos têm a sinalização horizontal de difícil percepção. Até mesmo a vertical pode ter acessibilidade dificultada: no caso de um dos equipamentos na Avenida Presidente Juscelino Kubitschek, a placa que indicava sua presença à frente estava virada, impossibilitando a leitura por parte dos motoristas.

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Novos radares em Juiz de Fora

A Prefeitura informou que, em 2026, não houve ampliação do número de equipamentos, mas sim a redistribuição de pontos, com base em estudos técnicos da Secretaria de Mobilidade Urbana; já em 2025, a fiscalização foi ampliada em seis pontos sensíveis. “A revisão dos locais é contínua e considera a dinâmica urbana, sendo todos os pontos, como a Rua Santo Antônio (no Centro), avaliados tecnicamente para definir a medida mais adequada”, afirma a PJF.

Além disso, foi ressaltado que estudos conduzidos pela secretaria apontaram redução de infrações e melhora no comportamento dos motoristas nos locais anteriores, o que permitiu a transferência do monitoramento para outras vias. “A definição dos locais foi feita com base em estudos técnicos de trânsito realizados pela SMU, considerando índices de acidentes, volume de tráfego e necessidades de ordenamento viário. A medida também leva em conta demandas da população por ações voltadas à redução de velocidade e à organização do tráfego.”

O equipamento recentemente instalado no Bom Pastor, por exemplo, já gerou impacto. Apesar de, conforme reforça o Município, o radar não estar em funcionamento, os motoristas já desaceleram para passar por ele. Por ser um trecho de subida, a dinâmica interfere no tráfego de veículos de grande porte, como ônibus e caminhões, que precisam frear na subida – conforme presenciado pela reportagem.

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Entre janeiro e abril de 2026, Juiz de Fora registrou mais de 2,3 mil acidente de trânsito, segundo o Painel de Acidentes da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp-MG). O HPS atendeu quase 1,7 mil vítimas no mesmo período. A Tribuna questionou os locais de maior incidência de ocorrências, mas não obteve resposta.

Moradora acredita que radar no Bom Pastor deveria ter localização diferente. (Foto: Felipe Couri)

‘Falta campanha de conscientização para educação no trânsito’, aponta especialista

Apesar da repercussão negativa por parte da população em instalação de radares e uma possível “indústria da multa”, o engenheiro, arquiteto e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Fabio Lima reitera que os equipamentos estão entre os mecanismos e ações possíveis para manter a segurança do trânsito. “Eles inibem a velocidade pois os condutores têm a certeza de que a multa será aplicada, no caso de terem sido registrados. Se seguissem os limites e respeitassem a sinalização, os dispositivos não seriam necessários.”

Além disso, estão regulamentados e atrelados às políticas públicas relacionadas com a mobilidade urbana para a redução da velocidade, diminuição da imprudência e evitar a distração.

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“O que percebemos no cotidiano, e Juiz de Fora mostra isso, são situações de velocidades excessivas, que revelam a ansiedade e a afobação dos condutores dos veículos motorizados, sejam eles associados ao transporte público ou privado. Se os radares são vistos pela população como ligados a uma ‘indústria de arrecadação’, essa questão deve ser levada ao Conselho Municipal de Transportes e Trânsito (CMTT), vinculado à Secretaria de Mobilidade Urbana”, analisa.

O que falta na cidade, ainda na visão de Fabio, é uma campanha de conscientização contínua para educação no trânsito – incluindo o ensino fundamental, médio e o ensino superior, além da extensão para as comunidades -, o que a coloca como um direito de todos e constitui dever prioritário da parte da Administração pública. “A velocidade dos veículos motorizados é um fator de risco para pedestres e ciclistas e para os próprios condutores desses veículos, pelos acidentes gerados, alguns com perda de vidas ou traumas físicos, com fraturas e lesões graves, e mesmo danos psicológicos”, reforça.

Além dos pontos de fiscalização eletrônica, outras medidas são instaladas como mecanismos para aumentar a segurança no trânsito. O professor da UFJF lembra das faixas de travessia em nível, popularmente conhecidas como lombadas. “Essas também, juntamente com as ondulações fazem com que a velocidade seja reduzida de maneira obrigatória.” Rotatórias e estreitamentos de vias também inibem a velocidade.

Mesmo com as possibilidades, Fabio defende que a fiscalização deve ser intensificada, pois o número de veículos motorizados aumenta a cada ano. “A sinalização vertical e horizontal implementada nas zonas diversificadas da cidade permite também a redução da velocidade, mas dependem da conscientização geral, que está relacionada às campanhas.”

Necessários, mas pontuais

Embora ressalte a importância da presença de radares nas diferentes vias da cidade, Fabio acrescenta que a medida é pontual, já que antes e depois as velocidades máximas permitidas nos trechos seguem sendo extrapoladas. Para o professor, os dispositivos visam também amenizar as precariedades relacionadas ao sistema viário urbano para a segurança dos pedestres e ciclistas, mas as outras medidas também devem ser utilizadas para a diminuição da velocidade de maneira geral na cidade e o aumento da segurança, o que gera repercussões em todos os níveis.

“A redução dos atendimentos nos hospitais e os traumas físicos e psicológicos gerados e, no extremo, não termos a perda de vidas pela velocidade, imprudência ou distração.” Por fim, Fabio comenta que, pela afobação e ansiedade dos condutores, ao pensar apenas no deslocamento e na chegada o mais rápido possível, sem levar em conta as consequências da imprudência, a tendência é a de que dispositivos como os radares aumentem, muito além dos 41 pontos de fiscalização eletrônica atuais, para a segurança de pedestres e ciclistas.

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