
Os bingos clandestinos continuam a funcionar sem qualquer tipo de coerção em Juiz de Fora. Em janeiro, a Tribuna denunciou que salões alugados estavam sendo usados para a prática ilegal. Na época, durante dois meses, a reportagem acompanhou cinco bingos realizados em diversas regiões da cidade. A Polícia Civil foi informada dos casos, e uma equipe da 3ª Delegacia Distrital chegou a apreender materiais do jogo em um salão no Bairro Fábrica, na Zona Norte. Em depoimento à então titular da delegacia, Mariana Veiga, os responsáveis alegaram que o bingo era beneficente e oferecia prêmios em dinheiro, porém de baixo valor. Duas pessoas foram condenadas a prestar serviços comunitários, e o local deixou de receber o jogo de azar. No entanto, segundo relato dos próprios frequentadores, os bingos em outros bairros voltaram a funcionar ou nem mesmo deixaram de ser organizados após a publicação da reportagem. Na última semana, a Tribuna retornou a esses locais e constatou que, de fato, não houve qualquer repressão à exploração do jogo, e pelo menos três bingos continuam atuando livremente.
No principal espaço de bingos da cidade, num amplo salão de um clube no Centro, as reuniões acontecem durante quatro vezes por semana e atraem dezenas – muitas vezes centenas – de jogadores, em sua maioria mulheres acima dos 50 anos. Após a denúncia da Tribuna, em janeiro, o bingo fechou as portas temporariamente, mas reabriu poucas semanas depois. Hoje a jogatina funciona em esquema semelhante, mas o portão de acesso permanece quase sempre trancado com chave, sendo a entrada dos jogadores controlada por um homem.
As cartelas, que antes custavam R$ 0,50, foram reajustadas para R$ 0,70. Embora o valor unitário seja baixo, dificilmente uma jogadora acompanha o bingo com menos de 30 cartelas a cada dia; algumas recorrem a quase cem cartões. A aparente ingenuidade dos bingos – cartelas marcadas com milho, bolas sorteadas em globo manual e instalações simples dos salões – contrasta com os prêmios pagos, cujo valor pode chegar a R$ 2 mil em uma única noite.
Já no Bandeirantes, na região Nordeste, pelo menos dois bingos estariam sendo realizados. O primeiro em um bar, aos sábados, e o outro três vezes por semana, num salão próximo à praça principal do bairro. Como os dias de bingo nesse local são intercalados com o explorado no Centro, dezenas de idosas frequentam os dois salões, dedicando-se aos jogos às vezes sete dias por semana. No início do ano, quando a Tribuna conversou com algumas jogadoras, muitas informaram gastar até R$ 30 por dia. Uma frequentadora disse que precisou deixar de ir ao bingo temporariamente para conseguir comprar um móvel de cozinha.
Após a publicação da reportagem de janeiro, o jornal recebeu ligações de frequentadoras atribuindo ao bingo a única diversão disponível para elas. Ainda assim, a Associação Brasileira dos Bingos (Abrabin) confirma não haver brecha na lei para que os jogos funcionem no país.
Delegadas prometem investigação
Diante da informação da Tribuna de que o bingo no Centro reabriu as portas, a titular da 7ª Delegacia Distrital, Ângela Fellet, informou que vai realizar as diligências necessárias para checar a denúncia e identificar os responsáveis pelo jogo de azar. "Por envolver grande quantidade de dinheiro, vamos averiguar a situação." A delegacia já vinha realizando investigações desde o ano passado. Como o bingo deixou de ser feito logo após a primeira reportagem da Tribuna, as averiguações da polícia haviam sido temporariamente suspensas. Ainda conforme a delegada, o clube que aluga as instalações para a realização do bingo não tem responsabilidade legal sobre a infração.
Já a titular da 4ª Delegacia Distrital, responsável pela região do Bandeirantes, delegada Sheila Pedrosa de Melo Oliveira, que assumiu o cargo há poucos meses, disse não ter conhecimento sobre os jogos no bairro. Ela também garantiu que vai proceder a investigação para identificar os suspeitos, seguindo a recomendação da chefia do 4º Departamento de Polícia Civil em combater qualquer tipo de exploração de jogo de azar na cidade.
Como não é tipificado como crime, apenas uma contravenção penal, os responsáveis pelos bingos podem ser interrogados pela Polícia Civil e responder no Juizado Especial.

