
O serviço de coleta urbana de Juiz de Fora apresenta hoje falhas, com o descumprimento de dias e horários preestabelecidos e coleta seletiva insatisfatória, além de juiz-foranos que não se preocupam com o destino do próprio lixo produzido e que depositam o material em locais e horários inadequados. O resultado é a cidade suja e o desperdício de cerca de 130 toneladas de recicláveis por dia. A Tribuna percorreu diversas regiões para saber como tem sido realizado o serviço de coleta e para verificar como é a relação do cidadão com o lixo. Em vários pontos, há reclamações de que o caminhão de coleta passa com atrasos. Em outros, há denúncias de depósitos irregulares feitos pela própria comunidade.
Moradora do Bairro Granbery, na região Central, a artista plástica Rachel Gouvêa de Rezende acredita que a falta de regularidade na coleta convencional e também na seletiva acaba contribuindo para que o cidadão perca a referência dos horários. "O que tenho percebido é que a coleta está muito irregular, principalmente de alguns meses para cá. Há dias que o caminhão passa antes das 10h, em outros, somente às 16h. Você não sabe nem a que horas colocar o lixo para fora. Tento colocá-lo na rua perto do horário da coleta para evitar que animais revirem o lixo. Mas, sem previsão, fica inviável. Há umas duas semanas, o Demlurb não passou na terça-feira e nem no sábado. Às vezes, coloco os sacos na rua, o caminhão não passa e tenho que voltar com eles para dentro. Também separo o lixo, mas, muitas vezes, é o caminhão normal que leva, o que não adianta. Os catadores até ajudam, mas deixam um rastro de sujeira, que vai para os bueiros, que entopem, trazem a água parada e depois a dengue. É um ciclo e, por isso, a questão do lixo deve ser repensada."
No São Mateus, Zona Sul, também há reclamações. "Um dia o caminhão passa de manhã, em outro à tarde, até de noite passa, mas não tem horário certo. Trabalho aqui há oito anos, e a coleta nunca foi tão irregular. Como o colégio dá acesso para duas ruas, a Padre Café e a Luiz Detsi, prefiro colocar os sacos voltados para a Padre Café, pois, na rua de trás, não passa. Mesmo assim, fico sem saber a que horas colocar", afirma a faxineira de um curso de inglês na Rua Padre Café. A secretária do mesmo curso Rosângela Alonso fala sobre a situação na Luiz Detsi. "O lixo era para ter passado ontem de manhã (dia 28 de junho), mas agora só na quinta(dia 30). Os moradores reclamam muito, porque o lixo fica na calçada, atraindo animais."
Residente na via, a dona de casa Inês de Oliveira conta que uma das alegações do Demlurb é a rua ser sem saída, dificultando a passagem do caminhão. "Às vezes, acumula lixo de dois dias. O problema é que estão aparecendo ratos."
Fora do horário
No Jardim Glória, na região Central, a percepção dos moradores e comerciantes é a mesma: a irregularidade colabora para a sujeira. "Não tem hora certa para o caminhão passar. Tem dia que passa cedo, tem dias que só às 14h, 15h. Às vezes, fico vigiando e corro para colocá-lo na hora, mas muita gente deixa o lixo em qualquer horário, sem saber se passou ou não", diz a dona de casa Telma Bonfante Salgado.
A cabeleireira Margarida Heloísa da Silva é mais crítica: "Acho que a regularidade pode colaborar, mas, para mim, é mais falta de consciência e de educação. Tem dia que o caminhão acaba de passar, vem um morador e coloca o lixo na rua. O pior é que sempre deixam na calçada dos outros e não na porta de suas próprias casas."
No Manoel Honório, na Zona Leste, a esquina das ruas Américo Luz e Américo Lobo ou as calçadas da Avenida Governador Valadares tornam-se depósitos frequentes de lixos colocados fora do horário. Quem mora perto não aguenta mais conviver com a situação."É uma questão cultural de comodismo e falta de respeito para com os demais moradores e pedestres. Deve-se ressaltar também a falta de cooperação de comerciantes que, apenas em simples sacos plásticos, abandonam seus lixos nas calçadas", dispara o morador Desdier Nascimento Filho.
Demlurb inicia processo para padronizar rotas
Em relação à irregularidade na coleta, o diretor do Demlurb, Anselmo Fernandes, explica que o departamento deu início a um processo de georeferenciamento das rotas, especificando as ruas de todo o trajeto. "O objetivo é padronizar as rotas. Hoje cada um faz seu caminho, tendo que ir ao aterro duas vezes por dia. Com a padronização, quando um motorista entrar de férias, por exemplo, o substituto fará o mesmo percurso. É um processo demorado, mas que irá surtir efeito. Outra explicação para essa irregularidade podem ser problemas técnicos. Isso inclusive motivou a mudança de parte das rotas para a noite. Dessa forma, teremos mais tempo para colocar outro caminhão rodando caso um deles apresente problemas."
Anselmo também critica o comodismo dos juiz-foranos."Hoje muitas pessoas saem de casa às 6h, 7h e só retornam à noite, depois das 22h. Ao sair, a primeira coisa que fazem é colocar o lixo para fora porque não estarão em casa quando o caminhão passar. Acho que nem se a fiscalização for reforçada conseguiremos mudar isso. Temos que investir pesado na educação. O Poder Público tem responsabilidade pela limpeza da cidade sim, mas os cidadãos também. Estamos batalhando em cima da campanha ‘Ajude a limpar, basta não sujar’. Se cada um fizesse um pouquinho teríamos uma cidade mais limpa."
Período noturno
Desde meados de junho, o Demlurb ampliou as rotas de coleta noturna, para otimizar o uso dos equipamentos e reduzir o impacto no trânsito. As primeiras alterações começaram nos eixos que compreendem a Avenida Sete de Setembro – entre o Costa Carvalho e a sede da Defesa Civil -, a Avenida Brasil – nas proximidades da sede do Corpo de Bombeiros, na região Central -, e os bairros Santa Terezinha e Centenário, incluindo a Avenida Rui Barbosa. Seguindo o cronograma, os próximos horários alterados seriam Bairro Jardim Glória, Rua Padre Café, parte baixa do Dom Bosco e Paineiras, no início deste mês. Entretanto, o horário noturno só será implantado a partir de 1º de agosto (ver quadro).
O diretor do Demlurb diz que os moradores de imóveis afetados com as alterações estão sendo avisados por meio de cartazes, panfletos e carros de som. Ele explicou que as modificações serão gradativas até o fim do ano.
Necessidade de ampliar a coleta seletiva
Outra solicitação da comunidade é em relação à ampliação da coleta seletiva na cidade. Conforme o site do Demlurb, 90% dos bairros de Juiz de Fora seriam atendidos pelos caminhões de coleta seletiva, entretanto, nas ruas, essa não é realidade. Nos pontos que a Tribuna circulou, somente as vias principais recebem o serviço, mesmo assim sem periodicidade.
Uma moradora do Cascatinha, na Zona Sul, comenta: "Há uns dois, três meses, representantes do Demlurb estiveram na rua para uma palestra e pediram que colaborássemos para a coleta seletiva, que fizéssemos a separação para evitar a sujeira deixada pelos catadores, que o caminhão iria passar para recolher. Mas, de lá para cá, o caminhão só passou aqui na rua uma vez. Até costumam passar no bairro, mas só na Avenida Doutor Paulo Japiassu Coelho e ignoram as outras ruas. O ruim é que os moradores se interessaram, começaram a separar, mas, sem a coleta, acabam juntando tudo e desperdiçando o que poderia ser reciclado", comenta a dona de casa Ionice Antônia Toledo.
Coordenador do Curso de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFJF, professor José Homero Pinheiro, enfatiza a necessidade da coleta seletiva, mas ressalta que o cidadão tem tanto dever quanto o Poder Público. "Não adianta cobrar, se o cidadão não faz a separação. A comunidade precisa fazer a separação em suas próprias casas, fazer a coleta seletiva na origem, minimamente com dois recipientes. E, depois de tudo separado, basta ligar para o Demlurb e solicitar a coleta. O Poder Público, por sua vez, precisa conscientizar os cidadãos, os quais devem ser sensibilizados para reduzir, minimizar a geração de resíduos, reutilizar e reciclar. É uma mudança de hábito. O ideal seria que todos evitássemos o acúmulo de detritos, diminuindo o desperdício de materiais e o consumo excessivo de embalagens, o que está relacionado diretamente ao consumismo."
Ainda conforme o professor, citando a Política Nacional de Resíduos Sólidos, de 2010, o município precisa estender a gestão integrada de resíduos sólidos, envolvendo todos os setores da sociedade. Uma alternativa citada pelo professor é a maior integração Prefeitura-cidadãos-catadores. "A literatura preconiza essa integração e fala também que o primeiro passo é conscientizar para depois implantar a coleta seletiva."
O diretor do Demlurb, Anselmo Fernandes, reconhece a necessidade de ampliação da coleta, mas informa que o Demlurb ainda não tem capacidade para atender a toda a cidade. Atualmente, segundo ele, são cinco caminhões destinados ao recolhimento de recicláveis. Ele também destaca a consciência ecológica de cada cidadão. "Ainda estamos engatinhando, mas já temos muitas pessoas conscientes em fazer a redução do lixo, realizando o reaproveitamento. O que pedimos é que, mesmo que o Demlurb não faça a coleta no bairro, que a separação seja realizada, e o material doado ao catador. Outro fato que vai ajudar é a logística reversa, também prevista em lei, que determina que toda empresa dê destino aos bens que serão desfeitos pelo consumidor. Hoje isso já acontece com as pilhas e lâmpadas fluorescentes. "
Exemplos de reciclagem vêm da comunidade
A falta da coleta seletiva tem levado comunidades a buscarem aliança com catadores de papel e a adotarem alternativas até dentro dos condomínios. No Bairro Paineiras, região Central, a coleta seletiva é realizada apenas na Avenida Olegário Maciel. Ruas transversais e paralelas ficam sem o recolhimento e contam com o respaldo dos catadores de papel. No alto da Rua Redentor, num condomínio com mais de 140 apartamentos, quem faz a coleta são mãe e filha. Dona Vera e a filha Ana Beatriz sobem o morro a pé, duas a três vezes na semana, para garantir o sustento da família e ajudar os moradores do condomínio a darem o destino correto aos resíduos recicláveis.
Gestora ambiental e membro do conselho consultivo do condomínio, Emeline Francklin Oliva fala sobre a importância das catadoras. "Muitos moradores realizavam a separação, mas não havia coleta específica. Há um ano, começamos a realizar a separação conjunta. São muitas famílias residentes, e o lixo reciclável produzido no condomínio é bem considerável. Assim, sabemos que estamos colaborando para um mundo melhor."
Já no Condomínio Alto dos Pinheiros, na Cidade Alta, a Associação de Proprietários teve a ideia de lucrar com o lixo reciclável. Mensalmente, moradores conseguem arrecadar de R$ 45 a R$ 50 com a venda de latinhas, garrafas PET e demais alumínios. Segundo o administrador da associação, Robs Taveira de Almeida, a coleta é feita às segundas e quartas-feiras pelos funcionários. Além disso, há recipientes para colocação dos recicláveis. "Os moradores separam, e o material é recolhido. No final de cada mês, vendemos o montante. Com o dinheiro, no fim do ano, conseguimos, por exemplo, pagar as cestas dos funcionários."
Um projeto social do Demlurb prevê a participação de pessoas em situação de risco para ajudar na educação da população, na reciclagem e até na catação nas margens dos córregos d’água. "Eles serão o elo da comunidade com o Demlurb, podendo nos acionar quando houver, por exemplo, um sofá jogado e, até mesmo, realizar a varrição de parte de uma rua, em troca de um auxílio social", afirma o diretor do Demlurb, Anselmo Duarte.

