
Piano é uma das paixões de Nathalia, que toca música desde os 7 anos de idade
Não é a primeira vez que Nathalia Resende, de 24 anos, dá entrevista para um jornal. Mas é a primeira vez que o repórter, com poucos anos a mais de idade, tem como missão entrevistar uma pessoa com paralisia cerebral. A insegurança do desconhecido se rompe pelo sorriso fácil que a formanda em pedagogia carrega como cartão de visita. E a entrevista, iniciada pessoalmente e finalizada pelo chat do Facebook, por conta da dificuldade na fala por parte de Nathalia, flui como se dois velhos conhecidos se reencontrassem depois de longos anos. Família, amigos, profissão, planos futuros… Quem vê a naturalidade com que Nathalia fala sobre as coisas da vida não imagina o quanto ela precisou lutar para sobreviver. Foram 24 paradas cardiorrespiratórias no primeiro mês de vida, algumas portas fechadas por conta de sua condição e um sem fim de olhares sobre seu jeito de andar e falar.
Ironicamente, o que mais atrapalha a vida de Nathalia hoje em dia não é nada disso. “Tenho muita vontade de andar sozinha na rua, mas, como as calçadas estão cheias de buracos, estou fazendo fisioterapia para poder continuar a andar sozinha”, diz a jovem, que mora no Bairro Granbery, na região central. Além do passeio irregular, a insegurança para atravessar a faixa de pedestres devido ao desrespeito dos motoristas a impede de sair sozinha de casa.
Foi na escola que leva o nome do bairro que Nathalia estudou toda a vida e onde também conclui sua graduação – a festa da turma ocorreu no ano passado, mas Nathalia ainda cursa uma disciplina na Faculdade Metodista Granbery antes de receber o diploma oficial. “Ela foi a primeira aluna deficiente a entrar no Granbery. O colégio precisou se adaptar todo para ela naquela época”, lembra a mãe, Márcia Resende, 53. A escola metodista foi a única a aceitar uma pessoa com deficiência num tempo – não tão distante – em que o preconceito e o desconhecimento eram ainda maiores.
“O médico percebeu que a Nathalia estava ‘perdendo as forças’ dentro de mim. Ela precisou nascer com menos de oito meses de gestação. Com sete meses de idade, a gente percebeu alguma alteração. E, depois, os médicos diziam que ela não ia sobreviver e que não ia andar. Não vou falar que não é uma surpresa ela chegar até aqui e conseguir andar sozinha. Todo dia ela surpreende com alguma coisa”, diz a mãe.
Distúrbio atinge sete a cada mil nascidos vivos
Nathalia hoje comemora a conclusão do curso superior em pedagogia. “Eu pesquisei e só encontrei uma professora com Síndrome de Down. Então, acho que sou a primeira professora com paralisia cerebral”, diz, com orgulho. Independentemente de ser a primeira ou não, a conquista de Nathalia contribui para ampliar a discussão sobre os vários tipos de paralisia cerebral e a forma como a sociedade enxerga e dá oportunidade a essas pessoas.
Não existem estudos confiáveis sobre o número de brasileiros nesta condição, mas, com base em pesquisas internacionais, estima-se que sete a cada mil nascidos vivos no Brasil sejam portadores de algum tipo de paralisia cerebral. Com o tratamento e a inclusão social, Nathalia pode planejar seu futuro e fazer suas próprias escolhas, como uma especialização em música, uma de suas grandes paixões.
“A música entrou em minha vida desde muito cedo, pois tenho um tio que é formado em música e é maestro também. E toco desde os 7 anos de idade. Mas eu fiquei com o interesse maior pela música quando conheci a história do maestro João Carlos Martins, pois ele também tem as mesmas dificuldades que as minhas: toca apenas com a mão direita. E depois de diversas cirurgias que ele fez, voltou a tocar com as duas mãos. E pretendo me especializar em música para poder dar aulas. Também tenho vontade de cursar música na UFJF na modalidade piano”, planeja.
Nathalia gosta de dar entrevistas e contar sua história. Pratica esportes e se orgulha da amizade com o atleta paraolímpico Fernando Fernandes. Não se revolta nem se vitimiza com sua situação. Quer ser exemplo. Quer ser ouvida. Quer viver a vida como qualquer cidadã. E como tal, deixa seu recado às autoridades: “Tenho muita vontade que alguém responsável olhasse o trânsito e que melhorassem as calçadas para que eu pudesse andar sozinha.”

