
Usuários de crack foram encontrados em obra inacabada da Prefeitura no Barbosa Lage
Medo da violência, das drogas, da prostituição, de animais peçonhentos, da dengue, do risco de incêndio e de desabamentos. Vizinhos de imóveis vazios, construções abandonadas, inacabadas e bens em processo de tombamento sabem o que é lidar com o medo diariamente. Situações bem diferentes, mas que afetam a qualidade de vida de toda a comunidade do entorno. Na região central ou em bairros da cidade, moradores se sentem acuados com os incômodos associados ao abandono. Após a publicação das matérias sobre a ocupação por usuários de drogas de lojas desativadas na parte baixa da Rua Benjamin Constant, em agosto, resultando na demolição dos imóveis, outras denúncias semelhantes foram enviadas por leitores. A Tribuna circulou pelo município para conversar com a vizinhança desses locais e constatou que, mais do que insegurança, as comunidades são obrigadas a conviver com problemas sociais e de saúde pública. A situação chega ao ponto de afetar até mesmo o mercado imobiliário.
"Não há o que ser feito. Qualquer imóvel vazio hoje vira alvo de usuários de drogas, que invadem para levar o que dá: torneira, fiação, tudo. Eles vendem para trocar por entorpecentes. Muitas vezes, os proprietários querem responsabilizar as imobiliárias, mas o problema é de segurança pública. A situação fugiu ao controle. O número de usuários de drogas só aumenta, as políticas públicas não têm surtido efeito, e os proprietários não têm como manter a vigilância 24 horas nestes imóveis por causa do custo elevado. Não sabemos onde isso vai parar, não vejo horizonte. Deixar um imóvel vazio hoje, é certeza de desvalorização. É ocupado e roubado, sobra somente o terreno", declara o presidente da Associação Juiz-Forana de Administradoras de Imóveis, Antônio Dias.
A situação é confirmada por corretores. "Muitas vezes, a intenção do proprietário é vender ou alugar o imóvel, mas, no final das contas, só resta como alternativa vender para construtoras", declara uma corretora. Outra agente imobiliária reforça. "Imóvel vazio hoje é sinônimo de dor de cabeça e aborrecimento. Se há tombamento histórico ou disputa por herança, a situação fica ainda pior porque os processos são demorados, o que abre margem para serem ocupados totalmente pela malandragem."
Invasão
É isso o que vem acontecendo em um imóvel na Rua Barão de Cataguases 437, esquina com a Avenida Olegário Maciel, no Bairro Santa Helena, região central. A casa, onde funcionava uma loja de recarga de cartuchos, foi disponibilizada para aluguel há alguns meses. Vazio, o imóvel foi totalmente depenado e, hoje, vem sendo usado como ponto de uso de drogas e abrigo. "Vi passar de tudo, cama, geladeira, portão de garagem, porta, tudo. Colocaram as coisas em um carrinho de papelão e desceram tranquilamente a rua. Está muito perigoso. Para quem é homem nem tanto, mas para mulheres está bem complicado, pois podem ser agarradas e levadas para dentro do imóvel", relata um porteiro, 35 anos, que trabalha em um edifício na área.
Se quem apenas trabalha na região relata descontentamento, para quem reside, a insegurança é bem maior. "A violência aqui na região piorou muito nos últimos tempos. Minha filha foi assaltada, uma vizinha também foi roubada aqui no portão às 7h. De dois meses para cá, a casa foi abandonada e ficou ainda mais tenso. Nos finais de semana e à noite, o entra e sai é intenso. Tivemos que instalar um novo sistema de câmeras e investimos ainda mais em segurança, mudando inclusive o sistema de abertura do portão. Nós mesmos contratamos os porteiros para não haver rotatividade", conta a subsíndica de um prédio vizinho.
Outra moradora da via, representante de vendas, 48, diz que a rotina passou a ser alterada em função do abandono. "Há dois meses, minha filha quase foi assaltada por um rapaz que saiu lá de dentro. O namorado dela parou o carro, ela desceu, estava colocando a chave no portão quando o rapaz a abordou. Ela entrou novamente no carro e foram embora. Fico muito preocupada. Minha filha sai todo dia às 5h para trabalhar, tenho que acordar para ficar de olho nela com medo de ela ser rendida."
No imóvel, os vestígios são de ocupação recente: cheiro forte de urina, fezes pela varanda, pichações, roupas e restos de comida. A Tribuna tentou localizar o proprietário, mas não conseguiu contato.
Imóveis viram cracolândias
"Só estamos aqui, pois está abandonado. A Prefeitura começou essa obra e deixou para lá. Acho que ía ser posto médico", contou um jovem de 27 anos, que tem dormido no imóvel da Rua Antônio da Silva, no Barbosa Lage, na Zona Norte. O prédio que, na verdade, abrigaria o Centro de Referência em Assistência Social (Cras), obra orçada em R$ 274 mil, foi erguido e rebocado, faltando apenas o acabamento, mas hoje serve de ponto de uso do crack. No dia em que a reportagem esteve na área encontrou dois dependentes fazendo uso de droga.
"Sou usuário e não me sinto vítima. Uso porque gosto. Só estamos aqui porque não gostamos de usar na rua. Uma criança pode passar e ver. Temos que respeitar a sociedade", explica um deles, um desenhista, 36 anos, que já estava com o cachimbo da pedra em punho. Enquanto ele era entrevistado, outro fazia uso do entorpecente. Mas antes de fumar a pedra, o homem, 40, que vestia camisa e sapatos sociais e calça jeans, contrastando com o cenário de abandono, também conversou com a Tribuna e contou que vem de Três Rios para usar crack em Juiz de Fora. "Lá não é muita gente que usa. Eu não uso. Mas quando venho aqui, não tem jeito, acabo usando. Eu trabalho, sustento meu vício, mas é muito triste. O crack roubou a minha dignidade, o meu caráter moral. Não é legal estar aqui, usar o crack."
Apesar de a conversa com a Tribuna ter sido amigável, eles mesmos relatam incerteza quanto aos efeitos. "Já fiz coisa que não imaginava, mas não sou ladrão, não sou bandido", contou um deles. "O efeito é inexplicável. Já fiquei sem dormir três dias direto, só usando."
Para quem tem que conviver de perto com o imóvel, o temor é constante. "É complicado para quem mora aqui. Além do uso da droga, há prostituição", relatou um funcionário público. "É um descaso com a população. Fizeram uma estrutura com material de primeira, um excelente acabamento, uma localização privilegiada para os moradores que usufruiriam de tal benefício se estivesse em execução, mas, ao invés de atender a população, a obra inacabada está sendo ponto de usuários de drogas. Parte do material, como as telhas galvanizadas que impediam a infiltração da água das chuvas, foi roubado", denuncia outro morador.
Na Avenida Rio Branco, esquina com a Rua Marechal Setembrino, na região do Mariano Procópio, também na área central, o esqueleto de um prédio, que acabou não sendo erguido, também serve de ponto de uso de drogas e esconderijo. Quem trabalha próximo confirma. "Eles pulam o muro e ficam lá dentro durante um tempo, saem e voltam o dia todo", relatou um comerciante.
Problemas se arrastam há anos
Ainda na região central, moradores da Avenida Itamar Franco e da Rua Espírito Santo convivem com situação semelhante há mais de uma década. O antigo Palacete dos Fellet foi vendido a uma construtora em 1993, e, no ano seguinte, começou a ser demolido. Como o imóvel estava com processo de tombamento em estudo pela antiga Comissão Permanente Técnico Cultural (CPTC), o Ministério Público conseguiu embargar a obra. Abandonado, o local foi tomado pelo mato e habitado por moradores de rua. Mesmo com o tombamento concluído em abril passado e designado oficialmente como patrimônio cultural do município, por meio do decreto 11.519, o imóvel permanece da mesma forma. Os únicos dois cômodos que continuam de pé tornaram-se abrigo para usuários de drogas.
"Sofremos muito com os problemas que este imóvel traz. Já cansei de ver gente jogando bolsa dentro do terreno. Até um corpo encontraram aqui há dois anos. Temos que lidar com a presença constante de usuários de drogas e ainda conviver com a sujeira. Muitos passam e jogam lixo e entulhos, atraindo ratos, que entram em nossas casas. Precisamos dedetizar tudo com frequência. Existe também o risco de dengue, pois o mato fica sempre alto e cheio de recipientes que acumulam água", enumera uma dona de casa, 49, vizinha do imóvel.
Ainda segundo os moradores, há o risco de incêndio. Somente nos últimos três meses, o Corpo de Bombeiros esteve presente no local duas vezes. No último dia 23, os Bombeiros precisaram apagar as chamas que se alastraram em um dos cômodos. Em junho, os militares também estiveram na área para conter outro foco de incêndio no lixo depositado. "Como há gente morando ali, e eles costumam fumar e cozinhar lá dentro, vira e mexe há fogo e os Bombeiros precisam vir", conta outra vizinha, 48. No dia que a Tribuna esteve no local, flagrou o entra e sai de um morador. "Ele vai para rua, pede esmolas, às vezes, volta alcoolizado e entra na casa. Dorme um pouco e volta para a rua. É o dia todo assim", narra um balconista, 32, que trabalha nas proximidades.
Em outro endereço, na esquina da Avenida Francisco Bernardino com Rua Fonseca Hermes, no Centro, a vizinhança teme o desabamento de parte da fachada de um imóvel abandonado. Outro temor é em relação à proliferação do mosquito da dengue. "Tem no mínimo cinco anos que este imóvel está assim. Começaram a mexer, mas pararam. Hoje o mato está enorme. Quando chove, empoça água. É um descaso. Chegamos a descobrir quem era o dono e pedimos providências, mas nada foi feito", relata uma costureira, 61, vizinha do terreno.
Lojistas também contaram que o local é usado por pessoas em situação de rua. "Tinha gente entrando e roubando as coisas lá de dentro. Fecharam mais as portas, mas eles sempre dão um jeito de entrar", conta uma dona de casa, 43.
Soluções vão do fechamento à demolição
Enquanto vizinhos dos imóveis visitados têm que lidar com a sombra do perigo, outros comemoram ações dos proprietários e do Poder Público. Na Avenida Itamar Franco, próximo ao cruzamento com a Antônio Passarela, no São Mateus, uma casa chegou a ser invadida por pessoas em situação de rua. Após denúncias, o imóvel foi demolido. No Bairro Bom Pastor, uma casa na esquina das ruas Coronel Vaz de Mello com Doutor José Batista de Oliveira ficou durante meses servindo de moradia para dependentes de droga. Após a ida da Tribuna ao local, que estava todo demarcado por roupas, fezes, urina e restos de comida, a demolição também teve início.
Já na Rua Mariana Evangelista, no Poço Rico, quase 20 casas que pertenciam à Sociedade São Vicente de Paulo também foram ao chão. Elas eram alvos de ladrões e vândalos. Moradores do entorno ainda cobram a retirada dos entulhos. "Foi ótimo o que aconteceu, mas agora estão aparecendo escorpiões", relatou um gráfico, que mora na vizinhança. Na Rua Benjamin Constant próximo à Calil Ahouagi, o complexo comercial também foi destruído, mas o cercamento da área ainda não aconteceu. "Minimizaram os problemas, mas não resolveu a situação. Os usuários continuam por ali", revelou um comerciante próximo.
No Castelinho do Bairu, na Rua Irmão Martinho, a solução para dar fim aos incômodos que o local trazia à comunidade vizinha foi o cercamento da área, a contratação de vigia noturno e a colocação de cães. Em 2011, três caminhões do Demlurb, lotados de entulhos e vegetação, foram retirados do local, que servia, ainda, aos usuários de drogas. Na Rua Vitorino Braga, no bairro de mesmo nome, uma casa vazia foi fechada com tijolos para evitar invasores.
O secretário de Atividades Urbanas, Basileu Tavares, reconhece que os imóveis vazios são um chamariz à ocupação irregular. "Isso é certo. Se uma pessoa em situação de rua encontra um imóvel vazio, vai começar a utilizá-lo, pois serve de abrigo. Se forem usuários de drogas, é comum até mesmo abrirem buracos nas paredes, aumentando o risco de desabamentos. Imóvel vazio é um polo gerador de insegurança e de poluição visual."
Segundo o secretário, a Prefeitura vem agindo na tentativa de minimizar os prejuízos à sociedade. "Intimamos o proprietário para providências e, caso estas não sejam adotadas, a fiscalização procede a autuação. São lavrados os autos de infração e feitos levantamentos quanto aos débitos tributários para verificar a situação do imóvel. Em caso extremo, a Prefeitura pode tomar o imóvel como pagamento." Basileu destacou que irá priorizar a obra inacabada no Barbosa Lage. "Temos que dar o exemplo."
A Polícia Militar garante realizar operações nesses locais, com o objetivo de qualificar pessoas que estejam no interior dos imóveis, bem como acionar outros órgãos públicos.

