Quase seis meses após denunciar um suposto golpe, uma ex-ganhadora do Miss Juiz de Fora Plus Size conta que acordou surpresa nesta quarta-feira (12) com a notícia de que uma das organizadoras do concurso havia se tornado alvo de uma operação da Polícia Civil. A vítima, que preferiu não ter o nome divulgado, relatou à Tribuna como falsas promessas de oportunidades profissionais teriam resultado em um prejuízo estimado em mais de R$ 100 mil.
A vítima ressalta que, durante o concurso, que integra o calendário oficial de Juiz de Fora, não percebeu qualquer irregularidade. Segundo ela, os problemas começaram depois da competição, quando uma das organizadoras passou a procurá-la em particular e se apresentar como uma facilitadora para novas oportunidades profissionais. “Ela vinha no particular e começou a me oferecer propostas, falando que tinha agências de moda que se interessavam e tudo”, relata.
Segundo a vítima, que exerce outra profissão e não tem a carreira de modelo como atividade principal, as propostas eram acompanhadas de e-mails atribuídos a emissoras de televisão, marcas e agências conhecidas, que demonstrariam interesse em seu trabalho. Como as oportunidades eram apresentadas como consequência da conquista do primeiro lugar no concurso, ela diz ter acreditado na intermediação feita pela organizadora e aceitado os serviços oferecidos.
Desconfiança começou após suposta oportunidade na RedeGlobo
Segundo a vítima, a suspeita teria usado o nome de grandes empresas para dar credibilidade às propostas. A desconfiança surgiu, porém, quando uma das oportunidades pareceu boa demais: uma suposta participação em um programa da Globo.
“Eu procurei o nome da pessoa que estava nos e-mails.” Ao buscar o profissional nas redes sociais, ela constatou que ele de fato trabalhava na produção da emissora, o que, naquele momento, ajudou a afastar possíveis as suspeitas.
Tempos depois, no entanto, a mulher decidiu procurar o produtor diretamente. Segundo ela, o profissional respondeu que não conhecia a suposta intermediadora.
A vítima afirma ainda que a área de segurança da emissora foi acionada e que o produtor teria registrado um boletim de ocorrência sobre o caso.
A Tribuna procurou a Globo para confirmar as informações e saber se houve uso indevido do nome da emissora, e aguarda retorno.
‘A dívida foi crescendo’: vítima relata escalada de prejuízos
Segundo a vítima, no início, a própria organizadora arcava com os valores das supostas oportunidades profissionais, o que ajudou a conquistar sua confiança. “Ela falava: ‘Não precisa desconfiar, porque, se fosse errado, eu estaria te pedindo dinheiro. Mas não, eu estou pagando para você'”, relembra.
Com o tempo, porém, a dinâmica teria mudado: a mulher passou a pedir que a modelo antecipasse os pagamentos no cartão de crédito, sob a promessa de reembolsá-la depois. Nas primeiras vezes, os valores teriam sido devolvidos, mas os repasses cessaram.
Sem recursos para quitar as faturas, a vítima afirma que passou a usar o próprio limite para cobrir as dívidas, que se acumularam. Dois cartões do pai, um deles com limite de R$ 50 mil, precisaram ser renegociados, e a irmã chegou a contratar um empréstimo para tentar ajudá-la. “A dívida foi crescendo, crescendo, e ela não me pagava”” conta.
O impacto, de acordo com ela, ultrapassou as perdas financeiras. Há alguns meses, diante do desgaste provocado pelas cobranças, a mãe passou a intermediar os contatos com a investigada, que, de acordo com a vítima, voltou a realizar alguns pagamentos após um período sem repasses. Ela relata ter enfrentado ansiedade e noites sem dormir enquanto tentava encontrar uma saída para as dívidas, situação que ainda esconde do pai.
“Ela brincou muito com os meus sonhos, muito mesmo. Hoje eu consigo falar sobre isso sem chorar, mas era motivo de desespero”, afirma. Por ter outra profissão e não depender da carreira de modelo como fonte de renda, ela considera que conseguiu preservar parte da vida profissional, mas diz que ainda lida com as consequências financeiras e emocionais do episódio.
Outra ex-ganhadora relata experiência positiva; investigação continua
A reportagem entrou em contato com outra ex-ganhadora do concurso, que relatou que nunca foi abordada com oportunidades de trabalho por qualquer uma das organizadoras do evento. Ela destacou, ainda, “se eu pudesse participaria de todas as edições do miss pois as organizadoras são maravilhosas a abraçam a gente e fazem nós mulheres gordas nos sentimos vistas”, declarou Nay Rodrigues.
Em relação a investigada, ela também foi procurada, mas não respondeu até o momento de publicação desta matéria. O espaço permanece em aberto para a manifestação e posicionamento de todos os envolvidos.
A apuração contra a mulher também continua. O delegado Márcio Rocha Vianna, responsável pelo caso, coordenou o cumprimento do mandado de busca e apreensão na casa da suspeita — que também teve as contas bloqueadas — na manhã de quarta-feira (12), informou que as diligências acerca do caso permanecem na delegacia de Polícia Civil.

