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Conflitos dentro e fora da escola

garrafas bolas trena e pregos estao entre os objetos jogados no forum da cultura leonardo costa08 07 15

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Garrafas, bolas, trena e pregos estão entre os objetos jogados no Fórum da Cultura (Leonardo Costa/08-07-15)
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Garrafas, bolas, trena e pregos estão entre os objetos jogados no Fórum da Cultura (Leonardo Costa/08-07-15)

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Janelas quebradas em salas de aula (Leonardo Costa/08-07-15)

Pichações tomam as paredes do banheiro (Leonardo Costa/08-07-15)

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Com cerca de dois mil alunos, a Escola Estadual Delfim Moreira/Grupo Central, um dos maiores e mais tradicionais colégios públicos de Juiz de Fora, enfrenta problemas diários, que vão da falta de estrutura do prédio provisório que ocupa, na esquina das ruas Santo Antônio com Fernando Lobo, aos conflitos envolvendo estudantes advindos de mais de cem bairros do município. A situação caótica é refletida em corredores, salas e banheiros da escola, que estão pichados, com janelas e portas quebradas, tetos sem forros e desabando, fiação exposta, rachaduras em vários pisos, cadeiras e mesas em péssimo estado. Segundo a direção, parte da destruição é causada pelos próprios alunos, que também estão constantemente envolvidos em brigas ou são pegos com drogas no entorno pela Polícia Militar. Por outro lado, estes mesmos estudantes não têm sequer um espaço físico adequado para atividades recreativas e esportivas no prédio. Mas o retrato da educação não é só este. Os reflexos dos problemas extrapolam os muros da instituição e afetam a vizinhança. A Tribuna esteve no local na última quarta-feira depois de descobrir que estudantes jogavam objetos no Fórum da Cultura, tombado pelo patrimônio histórico. Entre os itens lançados pelas janelas do colégio estão garrafas e até pedaços de ferro. O alvo, algumas vezes, foram os funcionários da instituição vizinha.

Mudança de endereço

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A situação no Grupo Central se agravou após a mudança de endereço, ocorrida há quase dois anos. O colégio teve que deixar o Palacete Santa Mafalda, localizado na esquina da Avenida Rio Branco com Rua Braz Bernardino, em virtude de problemas estruturais na construção do início do século XX. A reforma prometida no palacete não foi iniciada até o momento. Enquanto isso, o Estado paga cerca de R$ 35 mil por mês no prédio alugado.

Indignada com o imbróglio, a vice-diretora Rosely Soares conta que o quadro está cada dia mais difícil. Ela reclama das falhas estruturais e do descaso com a situação do colégio. “Somos muito bem atendidos em questões como merenda e material didático, mas em compensação temos dificuldade com verba para reforma. A situação está caótica, e sofremos ainda com a constante falta de professores.” A escola possui turmas dos ensinos fundamental e médio, além da Educação de Jovens e Adultos (EJA). “Atendemos alunos de mais de cem bairros, e é constante a vinda de pais implorando por uma vaga. Mas muitas vezes acontece de abrirmos, e eles sumirem”, comenta. Rosely acompanhou a equipe de reportagem durante a visita aos três pavimentos do prédio e indicou várias preocupações com os danos.

A diretora regional do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação (Sind-UTE), Victória Mello, diz que a situação é de conhecimento da categoria e lembra que, ano passado, foram feitos protestos, juntamente com os estudantes, pedindo esclarecimentos sobre o andamento das obras. “É um absurdo o que está acontecendo, um estado de insalubridade tanto para os trabalhadores quanto para os alunos. Essa situação não contribui para a educação e, como o Governo vem reduzindo o número de funcionários nos últimos anos, dificulta mais ainda. Enquanto isso, o prédio antigo está se depreciando, e mais cara será a reforma. Não é possível que em dois anos não tenha dado tempo de concluir o projeto”, critica.

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SEE reconhece local inadequado

Por meio de nota, a Secretaria de Estado de Educação (SEE) disse que, conforme a Superintendência Regional de Ensino (SRE) de Juiz de Fora, a Delfim Moreira recebeu R$ 31.194,50, do total de R$ 92.912 destinados no ano de 2015 para manutenção e custeio. “Esse recurso pode ser utilizado para compra de materiais diversos de manutenção e para a realização de pequenos reparos no local. No caso da situação informada, a SRE reconhece que há algumas janelas com vidros quebrados bem como cadeiras e mesas. Para este conserto e substituição destes materiais, a escola pode utilizar os recursos de manutenção e custeio. A SRE informa, no entanto, que a construção não apresenta problemas estruturais.”

Além disso, a secretaria reconheceu que o local onde funciona a administração da escola não é totalmente adequado, mas que as salas de aula estão em boas condições. “A direção da escola tem contado com o apoio da imobiliária que intermedeia a locação na manutenção do prédio. Quando da transferência do prédio anterior, buscou-se um local central de fácil acesso para os estudantes, próximo ao prédio antigo. Já sobre as faltas de professores, quando elas ocorrem, é realizado um calendário de reposição, e os alunos não ficam sem aula”, diz a nota.

‘Estamos tentando, educando’

O Fórum da Cultura, vizinho direto da escola, sofre com a ação dos jovens. Conforme a diretora Marcia Falabella, os alunos são frequentemente flagrados jogando objetos e ofendendo os funcionários com insinuações preconceituosas. “Já jogaram bolas, garrafas, trena, pregos, comidas e até um pedaço de ferro, que foi quando procuramos a direção da escola. Já fizemos ofício e reclamamos várias vezes, mas a próxima atitude será procurar a polícia ou a Secretaria de Educação, porque nossa preocupação é que isso acerte alguém ou danifique o prédio, que é tombado. Sabemos que não é um problema específico com a gente e nem queremos criar problemas, mas, se acontecer alguma coisa, quem será responsabilizado?”, questiona. O faxineiro Cristiano Agostinho comenta que os alunos jogam o objeto na tentativa de acertá-lo. “Uma vez eu estava varrendo o pátio, e uma aluna entrou aqui, me jogou água duas vezes e me xingou”, afirma.

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A diretora Rosely Soares disse que o problema da indisciplina e casos de vandalismo são constantes, algo que desafia a gestão e educação escolar. “Estamos tentando, educando. Dialogamos com eles sempre e fazemos nosso trabalho, mas é muito difícil, até porque muitos têm sérios problemas familiares”, comenta. Para Victória Mello, diretora regional do Sind-UTE, a indisciplina e a falta de respeito com os materiais da escola são característicos da juventude de hoje. “Mas o ambiente em que os alunos estão pode potencializar esse vandalismo”, opina.

Ainda em nota, a Secretaria de Estado de Educação afirmou que é fato que há um descuido por parte dos estudantes com as instalações, e a escola realiza um trabalho pedagógico para conscientizá-los sobre a importância de se preservar o imóvel e manter as instalações e equipamentos da escola em bom estado. “A SRE avalia que a escola, por estar situada em uma área central, com alunos de várias regiões da cidade, perde um pouco na formação de sua identidade e na relação com os pais, em especial os dos alunos do ensino médio.”

Ocorrências

Conforme levantamento da Polícia Militar, que levou em consideração apenas casos registrados próximos à Escola Estadual Delfim Moreira, foram três ocorrências neste ano, sendo duas de ameaça e uma de agressão. No ano passado, foram 11 registros, incluindo furto, lesão corporal e atrito verbal. Em um dos casos mais recentes, no dia 24 de junho, a PM apreendeu um adolescente de 15 anos com 13 pontos de LSD. Os militares chegaram até o jovem após denúncia de que ele estaria vendendo drogas nas proximidades do colégio, mas ele alegou que os entorpecentes eram para consumo próprio. Meses antes, foi registrado um caso de briga, quando dois adolescentes foram detidos com objetos pontiagudos também perto da instituição.

Segundo o comandante da 30ª Cia da PM, responsável pelo policiamento na área central, capitão Herivelton Soares, um dos problemas do colégio é que ele recebe alunos de diferentes bairros, que historicamente possuem rivalidade entre si. “É uma de nossas prioridades. Temos uma equipe que atende somente às escolas públicas e particulares da região, e ela é uma das mais problemáticas.” Os casos costumam acontecer, principalmente, nas imediações do colégio, no Parque Halfeld e na Praça do Cruzeiro. Apesar disso, ele acredita que este ano tem sido mais tranquilo com relação às ocorrências envolvendo a escola. “No início do ano passado, estava pior, mas realizamos um serviço de conscientização com os jovens que ajudou na diminuição dos casos.”

Reforma no palacete ainda nem começou

De acordo com a diretora da Divisão de Patrimônio Cultural (Dipac) da Funalfa, Valéria Leão, em outubro do ano passado, uma comissão de arquitetos do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural (Comppac) fez uma análise do projeto de reforma do Palacete Santa Mafalda e encaminhou as considerações ao escritório de arquitetura responsável por sua elaboração, em Belo Horizonte. O documento foi enviado também para a Superintendência Regional de Ensino e para o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha/MG). Após os responsáveis realizarem as adequações, o Comppac precisa fazer nova análise do projeto antes de aprová-lo. A obra só pode ser licitada depois deste processo. Esta situação já havia sido apontada pela Tribuna na época e, desde então, nada mudou já que o projeto não voltou pra Juiz de Fora.

Em nota, a SEE informou que, por se tratar de um prédio tombado pelo patrimônio municipal, “o projeto é mais complexo e detalhado, contratado pelo Departamento de Obras Públicas (Deop), que depende também da aprovação dos órgãos competentes”. Não foi informado prazo para início das obras.

 

Deputados

Em março, os deputados da Comissão de Educação, Ciências e Tecnologia da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) realizaram uma visita à Escolas Estadual Ana Salles, em Benfica, e à antiga sede da Delfim Moreira, para verificar as condições das instituições. Na ocasião, eles informaram que cobrariam soluções junto ao Governo Estadual. Por meio de assessoria, a ALMG informou que, em reunião, os deputados aprovaram três requerimentos, sendo um pedido de informações às secretarias estaduais de Educação e de Obras sobre a reforma do palacete e outros dois referentes à Ana Salles, sendo um pedido de informações sobre procedimentos adotados para a aquisição de câmeras de segurança e outro pedindo providências para a construção urgente de novas instalações. Os dois primeiros foram enviados apenas no dia 11 de junho e há um prazo de 30 dias para a resposta. Já sobre as instalações da escola em Benfica, a secretaria teria dito que a demanda foi recolocada no plano de atendimento deste ano.

Reprodução das perdas de

forma agressiva

Para a pesquisadora do Núcleo de Estudos em Violência e Ansiedade Social do Departamento de Psicologia da UFJF, Luciana Senra, com base numa pesquisa que aborda escolas públicas e privadas da Zona Mata, há uma intensificação da violência urbana, do tráfico de drogas e da associação dos adolescentes às gangues que impacta diretamente o interior da escola.

“Estes fatores se estendem para as relações interpessoais dos alunos para com os outros, para com a instituição escola, para com o corpo docente, os funcionários e os gestores e com a vizinhança. Entretanto, não podemos perder de vista que não são somente esses fatores sociais que precisam ser levados em consideração. Fatores individuais, como o perfil psicológico, no qual o modelo familiar tem muito significado, devem ser levados em conta, porque passam a ser reproduzidos como forma de experimentação para relações interpessoais. Quando os alunos vivenciam um modelo familiar conflituoso, com violência doméstica, onde as relações não são negociadas e sim autoritárias, permissivas e negligentes, eles vão levar isso para fora do ambiente familiar”, afirma Luciana.

Ela também destaca que há pouca tolerância com a frustração e que os adolescentes reproduzem a perda de forma agressiva em suas outras relações. “Não podemos analisar e caracterizar o fenômeno da violência na escola como sendo só culpa do aluno, só do professor, da gestão da escola, somente do perfil psicológico, da ausência de política pública ou negligência dos pais, mas é uma conjugação de todos esses fatores.”

* colaborou Marcos Araújo

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